Coluna de João Zanata Neto – Edição de 26/03/2017

Reflexões

João Zanata Neto *

A incerteza conduz o momento da indecisão. Evito a escolha por uma questão de dúvida. A impropriedade dos meus pensamentos reside na vagueza das considerações. Os pensamentos inconsistentes relutam em ser a verdade. É natural que o instante da escolha seja o mais hesitante possível. A escolha é sucedânea das decisões, mas sempre nasce junto ao receio de não ser acertada.
Quando me imponho uma perfeição, transformo-me no mais frágil do seres. Assumir a impossibilidade é a maneira mais fácil de esperar o fracasso. Onde está no ser o espírito inconsumível, mestre do impalpável, senhor das cogitações e dono das divagações intermináveis? O homem não caminha com seus pés. O caminhar é apenas o seguir, o percorrer seus sonhos, um passo de cada vez.
Quando me dei conta, andei por muitos caminhos. Nem todos acertados, nem todos marcados, nem todos na direção certa. Quando tiver em conta esta trajetória, verei que o melhor que tenho feito foi não parar. Tive fome, tive frio, tive medo porque sou humano. E lá trás o que ficou foi a velha pretensão da perfeição.
Quem me disse ser este o caminho? Sou dono das minhas últimas intenções. Não renuncio às minhas decisões, pois sou fiel aos meus anseios. A essência do meu ser não permite a indissociação do meu eu. Eu preciso arriscar, ante todo o infortúnio, cada passo a frente. O que espero de mim não é nada mais do que eu mesmo.
O vazio me atormenta porque é a hesitação implícita. Mas o vazio é um pensamento quieto, a cogitação imanifesta, a reflexão modesta. Quando me dei conta, muito tempo este silêncio consumira minha animosidade. Mas eu preciso da solidez dos meus pensamentos, uma reformulação abstraída, uma introspecção profunda. O pensamento tem por capricho o silêncio de suas cogitações. Preciso estar comigo mesmo, abnegado, silenciado, introvertido porque tenho por capricho ser eu mesmo quantas vezes a hesitação me aterrorizar.
O silêncio é tão salutar quanto o não silêncio. É preciso pensar o mundo. É preciso pensar-se no mundo. O mundo pode parecer tão absurdamente insano quando se cogita das suas atribulações diversas. Ele corroeu minha certeza, meu senso de justeza, meus sonhos de beleza e minha natureza. Ele é competitivo, dissimulado, corruptível. É sutilmente insano e bizarro. Quem sou eu nele? Em que ele quer me transformar?
Por uma questão de sanidade, eu preciso parar e pensar. Eu preciso me rejuntar e me recompor. Preciso medir quanto me afastei de mim mesmo. Qual era a minha essência primordial? Quero andar descalço e abraçar uma árvore. Quero-me reconectar com a energia harmoniosa do universo. Só ele pode me dizer quem eu sou.

* João Zanata Neto é escritor santa-cruzense, autor do romance “O Amante das Mulheres Suicidas”.

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Proprietário e Editor do Jornal Debate