Tupá ainda ‘vive’ em relíquias

A imagem de São Benedito está exposta num museu particular de Agudos, coordenado por Marilena Cardia
Imagem foi esculpida no século 19, segundo avaliação
Imagem foi esculpida no século 19, segundo avaliação

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

O desaparecimento de São Domingos do Tupá, a “comarca eclesiástica” da qual pertenceu Santa Cruz do Rio Pardo e todo o povoado incipiente da região no século 19, ainda é um mistério que intriga historiadores. No entanto, resquícios da antiga cidade ainda existem em objetos que foram resgatados das ruínas da antiga Igreja Matriz, construída em 1856 e destruída em meados do século 20 junto com a cidade inteira.
São Domingos fica perto de Domélia, que já foi distrito de Santa Cruz e hoje pertence a Agudos. O povoado ganhou a extensão oficial “Tupá” no nome quando já apresentava declínio, em 1905, segundo documento da Assembleia Legislativa de São Paulo pesquisado pelo historiador santa-cruzense Celso Prado.
Em meados do século 19, entretanto, São Domingos foi considerada “sentinela e fortaleza do sertão” e teve importante poder eclesiástico. Todos os batismos e casamentos realizados em Santa Cruz do Rio Pardo, por exemplo, eram feitos pelo padre de São Domingos e registrados naquela comarca eclesiástica.
Na verdade, não foi apenas a crise financeira que abalou Tupá a ponto de destruí-la. Segundo Celso Prado, a elevação de Santa Cruz do Rio Pardo à freguesia e depois à paróquia, contribuiu para a perda de importância de São Domingos. É um dos poucos casos na história em que uma cidade literalmente desaparece, sobrando apenas o cemitério, abandonado no pasto de uma fazenda. Nenhum outro prédio ficou em pé, nem mesmo a velha e histórica Igreja Matriz.

Origens indígenas

CEMITÉRIO — Túmulos abandonados no mato são rastros da extinta Tupá
CEMITÉRIO — Túmulos abandonados no mato são rastros da extinta Tupá

Há duas semanas, entretanto, o jornalista Aurélio Alonso, do “Jornal da Cidade” de Bauru, encontrou alguns dos vestígios da cidade perdida. O museu de Agudos abriga não apenas o altar da antiga igreja — usado, segundo consta, para catequizar índios —, mas também uma imagem de São Benedito esculpida em argila cozida (terracota). Para o historiador Celso Prado, a imagem teria sido esculpida entre 1856 e 1864. “A data exata, porém, somente pode ser estabelecida por especialista ou experiente restaurador”, disse. Ele não tem dúvida, porém, que a imagem adornou a antiga Matriz de São João de São Domingos do Tupá e fazia parte das tradições religiosas da antiga comarca eclesiástica.
A imagem, de aproximadamente 70 centímetros, mostra São Benedito com o Menino Jesus no colo. Para Celso Prado, a peça não possui a beleza estética das beneditinas entronizadas em muitas igrejas ricas e adornadas. Por este motivo, ele acredita que o santo pode ter sido modelado em algum aldeamento indígena do século 19. “A imagem evidencia traços fisionômicos indígenas — como olhos, nariz, boca e a própria altivez”, explicou.
A estátua surgiu após uma reportagem sobre o velho altar da igreja de Tupá, que foi resgatado em 1966 pelo tenor Emilson Carmo Barbosa. Ele percorria fazendas e encontrou o altar sob os escombros da antiga igreja, levando-o para casa e posteriormente doando o objeto ao museu de Agudos. Depois, o tenor também doou a imagem de São Benedito, que encontra-se numa redoma de vidro por ter uma avaria no pescoço.
O “Espaço Histórico Plínio Machado Cardia” de Agudos, que abriga as últimas relíquias de Tupá, é particular e aberto à visitação pública. Ele é mantido por Marilena Cardia e faz parte do roteiro turístico daquela cidade.


Tupá, o mistério da
civilização perdida

RUÍNAS — Foto de 2004 mostra cruzeiro que existe no cemitério de Tupá
RUÍNAS — Foto de 2004 mostra cruzeiro que existe no cemitério de Tupá

A reportagem do DEBATE foi umas últimas a pisar no “solo sagrado” do cemitério de São Domingos do Tupá, em 2004, quando o jornal fez uma reportagem sobre a cidade que desapareceu no turbilhão da história. Foi o derradeiro espaço que sobrou da antiga cidade, confinado a uma espécie de “oásis” cercado por árvores no meio de um pasto. Não se sabe, entretanto, se o local ainda existe. Naquele ano, a informação era de que todas as ruínas de São Domingos foram destruídas por um “correntão”, já que a área há anos é particular. O mesmo aconteceria com o cemitério.
São Domingos foi um lugarejo agitado mesmo no início do século 20, quando já dava sinais de decadência. Tinha lojas, bares e até cartório. Mas já era considerado distrito, condição que perderia em 1938, poucos anos antes de acabar definitivamente.
No século 19, Tupá era um centro eclesiástico. Há registros de batismos de 1857 referentes a nascidos no “bairro de Santa Cruz”, hoje Santa Cruz do Rio Pardo. Um documento manuscrito pelo padre Francisco Seródio, que se hospedou em São Domingos em 1872, diz que a região “era povoada por mineiros, gente muito atrasada, mas muito hospitaleira e de bons cosstumes, porém de pouca religião”.
Segundo o historiador Celso Prado, há muitas lendas que rondam a história de São Domingos. Uma delas diz que o local surgiu ainda no século 18 — que Prado considera improvável — e que teria sido construído por padres. O povoado, aliás, era servido por um reservatório de água, construído a partir de minas adjacentes, conduzidas por um canal feito em pedras. O barulho da correnteza era semelhante a um leve trovejar, daí possivelmente a origem indígena do nome “Tupá”.
De acordo com as pesquisas de Prado, o primeiro vigário de São Domingos foi o padre italiano Andrea Barra, que permaneceu na paróquia de 1856 a 1870. Em 1864, o padre foi nomeado “vigário encomendado” da freguesia de São João Batista da Faxina, onde acumularia a função de capelão do aldeamento de índios. No entanto, ficou poucos meses e retornou para São Domingos, trazendo muitas imagens sacras esculpidas por índios. Há relatos sobre isso em documentos guardados pela Igreja Católica.
Uma dessas imagens pode ser aquele São Benedito que está guardado num museu particular de Agudos.


O escritor Gesiel Júnior (à esquerda) se encontrou com Celso Prado na sexta-feira, 14, em Santa Cruz do Rio Pardo
O escritor Gesiel Júnior (à esquerda) se encontrou com Celso Prado na sexta-feira, 14, em Santa Cruz do Rio Pardo

Tupá pode ser
tema de documentário

Autor de 31 livros e jornalista, o pesquisador Gesiel Theodoro da Silva Júnior, 53, visitou anteontem os historiadores Celso Prado e Junko Sato Prado. Morador em Avaré, ele veio a Santa Cruz do Rio Pardo buscar informações sobre São Domingos do Tupá, povoação que desapareceu após dominar toda a região no século 19, a ponto de ser chamada “a mãe de todas as cidades”.
Ex-seminarista em Botucatu, Gesiel admite que a ânsia pelo conhecimento da história regional teve origem na escola. “A Igreja teve um papel de influência muito forte na formação da região. Aliás, são nas igrejas, através dos registros eclesiásticos, que encontramos pontos que ajudam a alucidar questões que aparentemente eram obscuras”, explicou.
E uma destas questões é exatamente São Domingos do Tupá. Segundo Gesiel, a história da região, incluindo Santa Cruz do Rio Pardo, é totalmente interligada e cheia de nomes comuns. “São Domingos é, na verdade, nossa pré-história e precisamos desvendá-la. O DEBATE também contribuiu para resgatar esta memória que estava perdida”, afirmou. “Precisamos saber o que ocorreu no passado para iluminar o presente”, disse.

Tupá ganhou o título de ‘comarca eclesiástica’ no reinado de D. Pedro 2º
Tupá ganhou o título de ‘comarca eclesiástica’ no reinado de D. Pedro 2º

De acordo com o pesquisador, Tupá é provavelmente um caso raro de cidade que desapareceu. “E isto exerce um fascínio histórico. Ela teve uma importância fundamental nos primórdios da civilização regional, era uma verdadeira sentinela de onde os homens partiam para desbravar o sertão inóspito. Descobrir os verdadeiros motivos de seu deparecimento pode nos ajudar a compreender o surgimento, por exemplo, das outras cidades”, afirmou. Segundo Gesiel, o aparecimento de Águas de Santa Bárbara está intimamente ligado a São Domingos, principalmente quando a primeira “tomou” o título de “freguesia” de Tupá.
O pesquisador contou que outro pesquisador, Guilherme Godoy, de Águas de Santa Bárbara, está tão fascinado com a história de Tupá que planeja produzir um documentário. “Ele é um estudioso da história regional e, como nós, muito curioso. O Guilherme quer contar esta história para que tudo fique mais claro, reconstituindo o que foi o povoado de São Domingos de Tupá e sua importância em meados do século 19. Aliás, foi a ‘mãe’ de todas as cidades, pois Santa Cruz do Rio Pardo, São Pedro do Turvo ou Santa Bárbara brotaram a partir de São Domingos”, explicou.
A busca por informações é imprescindível, daí a visita a Santa Cruz na última sexta-feira, 14. “O Celso Prado é uma fonte primordial para quem quer conhecer a história da região. Graças às pesquisas dele, temos hoje uma noção ampla de como se formou o processo de desbravamento e urbanização de toda a região”, disse Gesiel Júnior.

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Proprietário e Editor do Jornal Debate