Falência da ‘Erisoja’ ainda não terminou, quarenta anos depois

Ordalício Gasparini é o síndico da falida Erisoja há quase trinta anos

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE ÓLEO – 2


A falência da empresa é uma das mais longas do Judiciário de Santa Cruz do Rio Pardo
A falência da empresa é uma das mais longas do Judiciário de Santa Cruz do Rio Pardo

Da Reportagem Local

O contador Ordalício Leonardo Gasparini, 64, pode estar prestes a bater um incômodo recorde. Há 28 anos ele é síndico da falência da antiga fábrica de óleo “Erisoja Indústria e Comércio”. As dependências nem existem mais, pois a área foi comprada pela prefeitura da massa falida e hoje acomodam a merenda escolar e o Senai “Geraldo Vieira Martins”.
Mas o processo ainda existe, como um amontoado de papéis que não têm fim. Odalílio já foi síndico de outras empresas que tiveram a falência decretada. “Mas nunca vivi uma situação dessas, com tantos emaranhados”, admite o contador. Aliás, ele nunca recebeu um centavo pelos serviços. “Claro que vou cobrar no final”, disse, ainda não sabendo como se dará este cálculo.
A história da fábrica de óleo não deixa de ser emocionante do ponto de vista empresarial. Ela começou nos anos 1950 num pequeno barracão no bairro da Estação, comandada pelos sócios Aquino Rosso — ainda lúcido, aos 100 anos —, o irmão Quintilho Rosso e o empresário Jurandir Saad. A “Indústria Rossad” começou lançando no mercado o óleo “Brotinho”, fabricado à base de amendoim, cultura farta na região naquela época.
Com a concorrência das multinacionais, o trio vendeu a fábrica para outro grupo, que cresceu nos anos 1960 e entrou em crise no início da década de 1970 até ter a falência decretada em 1976.
Segundo Ordalício, a decisão judicial foi, na verdade, um descuido dos responsáveis pela contabilidade da fábrica, que já se chamava Erisoja. “Acho que alguém perdeu prazo”, disse.
O primeiro síndico foi o advogado Derval Renófio, que depois passou o encargo para Ordalício. E lá se vão quase três décadas. “No início houve muitos problemas, principalmente a criação dos tribunais, havendo necessidade da redistribuição dos processos”, explicou.
Hoje, segundo Ordalício, a massa falida ainda possui cerca de R$ 400 mil numa conta bancária. No entanto, há outro obstáculo: a dificuldade em localizar os credores devido ao tempo que durou o processo. Muitos por certo já morreram.
O síndico contou que entre os credores há, por exemplo, o jornal “O Galo”, que não existe desde 1977. O semanário era de propriedade do advogado Cláudio Catalano, que disputou as eleições para prefeito em 1976 pelo MDB. A despesa certamente é relativa a algum anúncio publicitário. “Acho que a viúva vai receber um dia”, disse.
A parte trabalhista, de acordo com o síndico, foi praticamente quitada. “Somente quatro não foram encontrados ao longo dos anos. Mas a família apareceu há pouco tempo e se habilitou para receber a dívida”, explicou.
Uma das maiores credoras é a Fepasa — que fazia o transporte de óleo através do trem. Mas a estatal também não existe mais. A Petrobrás é outra credora de peso da falida Erisoja.
“A falência foi uma falha da empresa. Havia um crédito de amendoim e a assessoria jurídica perdeu o prazo, dando margem à decretação da falência”, explicou. “Na verdade, o passivo da massa falida é suficiente para pagar os credores, desde que eles apareçam. Neste caso, encerra-se finalmente o processo”, explicou.
Para o contador, foi a falência mais demorada da história de Santa Cruz do Rio Pardo. “Hoje a lei das recuperações judiciais facilita muito empresas em dificuldades. Mas na época não existia nada disso. Falia e ponto final”, afirmou.
Durante anos, caminhões e automóveis seminovos apodreceram no pátio da antiga Erisoja, descapitalizando a massa falida. “O curioso é que, quase quarenta anos depois, a empresa ainda existe, ao menos no papel”, brincou.

(CONCLUI NA PRÓXIMA EDIÇÃO)

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Proprietário e Editor do Jornal Debate