Jogador ‘rodou’ o mundo e, agora técnico, treina time em Santa Cruz

TREINADOR — Hélio Eustáquio Geraldo tem o olhar fixo para o campo na vila Madre Carmen, onde treina a equipe do Vila Nova a convite de amigos

O mineiro Hélio Geraldo, 42, prometeu ao pai
que seria um bom jogador de futebol — e cumpriu

web jogador 2 1893Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Na arquibancada do campo da vila Madre Carmen, em Santa Cruz do Rio Pardo, um homem forte, ligeiramente fora do peso, passa as tardes observando jogadores do time do Vila Nova. Quieto e educado, ele conversa com as pessoas, troca opiniões e de vez em quando dá ordens ao preparador. É Hélio Eustáquio Geraldo, 42, mineiro que abandonou cedo os campos de futebol devido a problemas recorrentes no joelho, provocadas por infiltrações para jogar antes da total recuperação. Ainda jovem, partiu para o exterior, jogando em Israel, Romênia, Itália e outros países.
Hélio apareceu em Santa Cruz para participar de um projeto para treinar o Vila Nova, que representa Santa Cruz do Rio Pardo em campeonatos sub-17. Na verdade, ele já conhecia personalidades do futebol que passaram ou moram na cidade, como Aldo Cavalari e Carlos Alberto Seixas, que foram técnicos da Esportiva Santacruzense nos últimos anos. Ele nunca jogou no estádio “Leônidas Camarinha”, mas passou perto, disputando partidas em Assis, Marília e em cidades do Paraná.
O ex-jogador representa, como muitos, a história do menino pobre que se destacou no futebol e ganhou o mundo. Começou a jogar aos oito anos, mas aos dez perdeu o pai. Um choque, que se transformou na busca de uma promessa que havia feito a ele pouco antes do falecimento. “Meu pai foi um desportista nato e sempre me levava ao estádio. Tinha o sonho de me ver jogando profissionalmente e eu fiz esta promessa. Quando morreu, eu decidi que o sonho dele seria o meu sonho”, contou.
web jogador 3 1893Hélio começou no Cruzeiro de Minas Gerais como lateral direito, atuando três anos no clube. Quando foi demitido do time, ficou depressivo até que o ex-jogador Reinaldo — o maior atacante da história do Atlético Mineiro — esbarrou com ele num campo de várzea. Gostou do estilo e o convidou para atuar no maior rival do Cruzeiro. “A surpresa é que ele me escalou como atacante. Deu certo”, disse.
Depois de muitos gols em Minas, Hélio jogou em times do Paraná, como Apucarana, Londrina e Curitiba. Foi o artilheiro do campeonato paranaense sub-20. O jogador ainda se aventurou no Norte do Brasil, atuando na equipe de Ji-Paraná, em Rondônia.
Numa temporada, o atacante acabou sendo a sensação do Campeonato Brasileiro da série C, quando o Ji-Paraná chegou às semifinais contra o Juventus. Neste jogo, havia “olheiros” do exterior para analisar atletas do Juventus. Mas foi Hélio quem se destacou a ponto de receber convite para jogar no exterior. “Nunca havia pensado nisso, mas decidi arriscar”, conta.

Em terras estranhas

Hélio desembarcou na Romênia, o início de uma carreira no exterior com relativo sucesso. Jogou ainda na Áustria, Israel, Itália, República Tcheca e Romênia.
“Minha maior dificuldade era a língua. Em alguns países era muito difícil se comunicar. A comida ele dava um jeito, já que até hoje gosta da culinária estrangeira. “Mas tive muita dor de barriga”, lembra, rindo.
Aliás, quando um time de Israel quis contratá-lo, os amigos deixaram Hélio apreensivo. “Disseram que era muito perigoso, que havia guerra constante”, contou. Contrariando a todos, ele fincou raízes em Israel, levando toda a família. “Na verdade, nunca passei perigo em Israel. Acho que o Brasil, pela violência urbana, é muito mais perigoso. Em Israel, as pessoas sabem os locais arriscados. No Brasil, a guerra está em todos os cantos”, avalia.
O brasileiro ficou quase dez anos em Israel e tem boas lembranças da “Terra Santa”. Foi campeão, experimentou dois acessos e disputou até uma Copa Uefa. Hélio trouxe de Israel não apenas o gosto pela culinária, que hoje divide com a comida típica mineira. “Falo hebraico, árabe e aramaico”, diz, orgulhoso.
Mas também experimentou o frio intenso. Na Romênia pós-comunismo, enfrentou as dificuldades da economia, onde a banana custava o equivalente a R$ 40 o quilo. “Mas nada se comparava ao frio insuportável. Joguei com quase 50 graus negativos. A sorte é que os estádios eram cobertos, mas entrar em campo era difícil. Mesmo correndo durante o jogo, a gente passava frio”, lembra.

Hélio mostra reportagens publicadas em jornais do exterior
Hélio mostra reportagens publicadas em jornais do exterior

‘Valeu a pena’

Hélio Geraldo garante que valeu a pena cumprir a promessa feita ao pai décadas atrás. Com o que ganhou no futebol, comprou alguns bens e formou a única filha numa universidade.

Reportagem em jornal de Israel
Reportagem em jornal de Israel

O único problema é ter abandonado o futebol precocemente, aos 30 anos. “Tive muita lesão e tomei muito corticoide para jogar. A dose sempre aumentava e até hoje tenho dores. Certa vez, no campeonato brasileiro, quebrei a clavícula num domingo, fiz infiltração na sexta e joguei na semana seguinte. Era uma loucura. No exterior, a pressão para jogar era ainda maior. Isto me causou muitos problemas de saúde”, afirmou.
Como técnico, hoje mostra aos jovens jogadores que o sucesso é possível. As boas lembranças dos gramados, Hélio guarda um pequeno álbum com recortes de jornais de cada país onde atuou. Em muitos, foi a manchete da edição.

Colaborou: Toko Degaspari

Sobre Sergio Fleury 1456 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate