Em depoimento de 12 horas, Sueli deu pistas de envolvidos

Sueli e o advogado Luiz Henrique Mitsunaga deixam a delegacia, na noite de quarta-feira, 27

Desta vez, Sueli Feitosa contou detalhes sobre a
participação de outras pessoas no esquema criminoso

Na noite de quarta, Sueli desce as escadas da delegacia, na companhia do advogado, após depor 12 horas
Na noite de quarta, Sueli desce as escadas da delegacia, na companhia do advogado, após depor 12 horas

O bom humor dos delegados Renato Mardegan e Valdir Alves de Oliveira indicou que a quarta-feira, 27, foi o melhor de todos os dias da investigação sobre o desvio milionário de dinheiro dos cofres da prefeitura de Santa Cruz do Rio Pardo, crime descoberto no ano passado. A ex-tesoureira Sueli de Fátima Feitosa, considerada a operadora do esquema, depôs durante quase 12 horas na condição de testemunha num dos inquéritos que apura o envolvimento de mais pessoas. Presa durante mais de quatro meses até ganhar a liberdade graças a um habeas corpus, Sueli desta vez parece ter contado detalhes que podem ajudar a Polícia Civil a descobrir provas da participação de outras pessoas no desfalque.
Nenhuma informação importante foi transmitida à imprensa, pois todos os processos estão sob sigilo, decretado pelo juiz da Vara Criminal da comarca de Santa Cruz do Rio Pardo.
No entanto, outro indicativo de que as declarações de Sueli Feitosa foram produtivas foi o clima extremamente cordial entre o advogado dela, Luiz Henrique Mitsunaga, e os delegados da Polícia Civil. Em outros depoimentos, havia uma nítida tensão entre as autoridades e o delegado.
Sueli Feitosa chegou ao prédio da Central de Polícia Judiciária às 8h30 da manhã. Fez uma pequena pausa para o almoço, de menos de uma hora, e continuou o depoimento até a noite.
A ex-tesoureira foi convocada como testemunha para contar detalhes sobre a “delação pública” que assinou em maio deste ano, quando citou nomes de outros supostos envolvidos no esquema. Ela disse que era ameaçada e chantageada para retirar dinheiro dos cofres municipais desde o governo de Adilson Mira (PSDB). Os recursos eram entregues, segundo ela, ao então secretário Ricardo Moral, que falava em nome do “chefe” — que seria o então prefeito Mira.
Sueli contou na “delação” que Moral continuou ordenando a retirada de dinheiro público até mesmo no início da administração de Otacílio Parras Assis (PSB), em 2013. Quando a ex-tesoureira resolveu “dar um basta” no desfalque, teve início outra chantagem, desta vez de Cláudio Agenor Gimenez, atual presidente da Codesan, que na época era secretário de Otacílio.
Claudio teria descoberto o desfalque e, segundo Sueli, também quis se beneficiar. O dinheiro desviado, entretanto, já não era entregue pessoalmente, mas em envelopes que um motoboy — cuja identidade ainda é um mistério — que agia em nome de Gimenez.
Como a “delação” de Sueli teve 11 páginas, pelo tempo do depoimento a ex-tesoureira teve praticamente mais de uma hora para explicar cada página. Assim, é muito provável que ela deu pistas concretas para que a polícia apure o envolvimento de outras pessoas.
No documento entregue à polícia, Sueli também disse que os ex-prefeitos Maura Macieirinha (PSDB) e Otacílio Parras Assis (PSB) tinham conhecimento das irregularidades. Ela também narrou fatos irregulares que aconteciam na prefeitura nos últimos três governos, citando nomes de servidores públicos e empresas.

O delegado Renato Mardegan demonstrou um humor incomum
O delegado Renato Mardegan demonstrou um humor incomum

Sem detalhes

O delegado Renato Mardegan, embora exausto na noite de quarta-feira, 27, disse que o depoimento de Sueli Feitosa “foi extremamente produtivo”. Segundo ele, a ex-tesoureira, na condição de testemunha, não poderia mentir.
“Mas não posso revelar detalhes do que ela falou. Só posso dizer que tudo foi muito proveitoso”, afirmou, em tom enigmático. “Agora sei que a depoente vai colaborar bastante com as investigações. Hoje ela falou o que perguntamos e tudo aquilo que pode enriquecer as investigações”, disse Mardegan.
O delegado disse que Sueli Feitosa esclareceu “muitos pontos” daquele documento que entregou à imprensa em maio deste ano. A polícia, segundo ele, acumulou muitas informações. “Mas nós não estamos parados desde dezembro do ano passado, quando o crime foi descoberto”, afirmou.
A Polícia Civil, por sinal, já instaurou “cinco ou seis” inquéritos, segundo o delegado, todos para apurar o desvio do dinheiro público.

Mitsunaga não deu detalhes, mas disse que sentia-se ‘de alma lavada’ com o depoimento de Sueli
Mitsunaga não deu detalhes, mas disse que sentia-se ‘de alma lavada’ com o depoimento de Sueli

De “alma lavada”

O delegado Luiz Henrique Mitsunaga, que defende Sueli Feitosa, também demonstrou satisfação após o depoimento da ex-tesoureira. Porém, a exemplo dos delegados, não deu muitas informações. “Eu não tenho condições de falar sobre os detalhes do depoimento de Sueli. Mas posso dizer que ela colaborou muito e se colocou à disposição das autoridades”, afirmou.
Mitsunaga disse que se sentia “de alma lavada e com o sentimento de dever cumprido”. O advogado disse que a população de Santa Cruz do Rio Pardo pode ter certeza de que Sueli está cumprindo seu papel de colaborar com as investigações. “O que cabia a ela fazer, está feito”, afirmou.
Ele não quis confirmar que o depoimento de quarta-feira foi o mais revelador desde o início das investigações. “Mas foi o mais sereno de todos e isto eu posso garantir”, disse. “Foi um depoimento muito longo, muito detalhado”, emendou.


O prefeito Otacílio Assis será interrogado pela Delegacia Seccional de Ourinhos, já que possui foro privilegiado
O prefeito Otacílio Assis será interrogado pela Delegacia Seccional de Ourinhos, já que possui foro privilegiado

Seccional abre inquérito para
investigar o prefeito Otacílio

Determinação veio da Procuradoria de Justiça,
órgão máximo do Ministério Público paulista

O prefeito Otacílio Parras Assis (PSB) será investigado pela Delegacia Seccional de Polícia de Ourinhos para saber se ele teve qualquer participação no esquema criminoso de desvio de dinheiro público operado pela ex-tesoureira Sueli de Fátima Feitosa. A ordem chegou à polícia pela Procuradoria Geral de Justiça de São Paulo, órgão máximo do Ministério Público paulista.
Otacílio tem direito ao foro privilegiado e, portanto, não pode responder a um inquérito instaurado pela polícia de Santa Cruz. Ainda não há data para o interrogatório do prefeito, mas ele será feito em Ourinhos. Em entrevista à rádio Antena A, logo que ficou sabendo da abertura do inquérito, na manhã de quarta-feira, 27, o prefeito brincou com a situação. “Eu aproveito a viagem e passeio um pouco em Ourinhos”, disse. Já em outras emissoras, ele declarou que iria apenas ser ouvido na Seccional.
A informação sobre o inquérito contra Otacílio surgiu na manhã de quarta-feira, 27, na Central de Polícia Judiciária, onde Sueli Feitosa foi ouvida o dia todo como testemunha. Aliás, a ex-tesoureira também deve depor na condição de testemunha no inquérito contra Otacílio.
Em maio deste ano, quando apresentou à imprensa uma “colaboração pública”, através do advogado Luiz Henrique Mitsunaga, Sueli Feitosa apontou nomes envolvidos no esquema, entre eles o de Otacílio. Segundo ela, o atual prefeito teria ciência de tudo o que acontecia de irregular na prefeitura de Santa Cruz.
Além disso, um dos “homens fortes” do atual governo, o atual presidente da Codesan, Cláudio Gimenez, segundo apontou Sueli Feitosa, começou a participar do esquema de desvio de dinheiro público no início da administração de Otacílio e até hoje ocupa cargo no governo. As retiradas, segundo a ex-tesoureira aconteciam após ameaças e duraram até o final do ano passado, dois meses antes do caso ser descoberto publicamente.

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Proprietário e Editor do Jornal Debate