‘Todo mundo sabia’, diz ex-assessora

EMOÇÃO — A advogada Denise Vidor, nomeada assessora no governo Otacílio, chegou a se emocionar ao falar sobre o ex-presidente Éder Pereira

Denise Vidor foi uma das três testemunhas que
confirmaram: todos sabiam das horas extras irregulares

Fonçatti disse que o pagamento já existia na gestão de Joaquim Severino Martins, nos anos 1990
Fonçatti disse que o pagamento já existia na gestão de Joaquim Severino Martins, nos anos 1990

Em mais uma semana de maratona de depoimentos, a “CPI das Horas Extras” teve pelo menos três depoimentos que confirmaram que o pagamento de horas extras não trabalhadas aos funcionários da Codesan era uma prática que tinha o conhecimento de prefeitos e de todos os presidentes da empresa nos últimos anos, inclusive o atual, Cláudio Agenor Gimenez. Os advogados Denise Vidor, José Antônio Fonçatti e Marcelo Picinin disseram que o assunto era amplamente discutido nas reuniões.
Todos, entretanto, garantiram que não houve desvio de dinheiro público. As horas extras, na verdade, eram para complementar os salários baixos dos trabalhadores. A atual diretoria da empresa sustenta que sabia do pagamento irregular a trabalhadores da construção civil da Codesan, mas desconhecia que o fato também abrangia funcionários do escritório. “Todo mundo sabia. Não há como dizer o contrário”, disse Denise Vidor, que depôs à CPI na última sexta-feira.
Denise, por sinal, foi acionista da empresa durante 24 anos, 16 como conselheira e assessora jurídica de julho de 2013 a janeiro de 2017. Ela assumiu o comando jurídico no governo de Otacílio Parras Assis (PSB) e passou por dois presidentes da Codesan — Eduardo Blumer e Cláudio Gimenez. “Todos tinham conhecimento, prefeitos e presidentes da empresa. Esta discussão existia dentro das reuniões e a reestruturação salarial, em maio de 2013, foi feita para sanar este problema. O prefeito tinha conhecimento”, disse.
Segundo ela, o atual presidente da empresa assumiu o cargo quando já não eram pagas as horas extras, uma vez que a situação foi regularizada por Eduardo Blumer. “Mas ele também tinha conhecimento das horas extras”, garantiu.
A advogada disse que não existe como afirmar que dirigentes descobriram que operários da construção civil recebiam horas extras, mas não souberam do pessoal administrativo. “Todo mundo recebia. Na verdade, era para complementar salários, que eram muito baixos. Muitas horas foram efetivamente trabalhadas, mas outras eram para acertar os salários”, disse. Segundo ela, os funcionários “vestiam a camisa e trabalhavam muito”.

Emoção

Denise Vidor deu declarações fortes sobre o ex-presidente José Éder Pereira, que comandou a Codesan nos governos de Adilson Mira e Maura Macieirinha, ambos do PSDB, e morreu em agosto após sofrer um grave acidente. Ela garante que Éder jamais desviou recursos. “Eu não consigo entender qual a intenção de quem defendeu a abertura desta CPI, pois todo mundo sabia disso”, disse, afirmando que “não há razão” para incriminar alguém.
Para a advogada, Éder ficou “muito abalado” com o início das denúncias, lembrando que em nenhum momento houve desvios. “Eu estive com ele durante todo este período e na semana do acidente ele me procurou. Aliás, no dia do acidente ele esteve no meu escritório expondo sua preocupação, pois tinha receio de perder seus bens, já que tinha filhos para criar. Ele estava realmente transtornado. Na realidade, o Edinho tinha um coração muito bom e ficava com pena do pessoal que ganhava pouco. Tenho plena convicção de que ele nunca ficou com nenhum centavo da empresa”, disse.
No depoimento à CPI, Denise confirmou que o pagamento de horas extras foi irregular, mas não doloso. “Esta denúncia foi descabida, pois todo mundo já sabia disso há muito tempo e existe a prescrição dos atos. Veja que em decorrência de tudo isso, posso afirmar que uma vida foi embora”, afirmou.

O advogado Marcelo Picinin, durante depoimento na CPI da Câmara
O advogado Marcelo Picinin, durante depoimento na CPI da Câmara

Confirmação

Outros dois advogados também confirmaram que os últimos três presidentes da Codesan, inclusive o atual, e todos os prefeitos tinham conhecimento do pagamento irregular de horas extras. Marcelo Picinin afirmou que nas primeiras reuniões da Codesan, já no governo de Otacílio Parras Assis, a prática das horas extras foi descoberta. “Era preciso fazer o corte destes pagamentos e por isso houve a reestruturação salarial”, explicou. O advogado garantiu que “todos tinham conhecimento” deste assunto. e que o prefeito Otacílio estava presente numa das reuniões em que o caso foi discutido.
Já Fonçatti trouxe uma informação relevante: as horas extras eram pagas desde os anos 1990, quando o presidente da Codesan era Joaquim Severino Martins. Segundo ele, alguns trabalhadores ganhavam tão pouco que era preciso fazer uma campanha interna para distribuição de cestas básicas. “Quando eu entrei na Codesan, em 1995, já existia esta prática que continuou em todas as administrações, tanto para funcionários internos como externos”, afirmou.
Ele lembra que alguns trabalhadores costumavam distribuir parte da marmita, no horário de almoço, para aqueles que ganhavam menos. “Se não pagasse hora extra, ninguém queria trabalhar na empresa”, contou.
Tanto Fonçatti quanto Picinin também afirmaram que ainda existe a prática de pagamento de hora extra. Eles citaram que o motorista de ambulância que permanece no distrito de Caporanga atualmente ainda recebe o máximo de horas extras. A CPI requisitou estas informações ao atual presidente da Codesan, Cláudio Gimenez. Na semana anterior, Gimenez não deu esta informação em seu depoimento.

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Proprietário e Editor do Jornal Debate