Memórias de um juiz

SUFOCO — Em 2006, no Pacaembu, Severo é cercado por jogadores do São Bento após assinalar um polêmico pênalti a favor do Corinthians

Hoje vereador, Luciano Severo já foi árbitro
profissional de futebol e apitou jogos da elite

Severo posa com amigos do quadro oficial da CBF
Severo posa com amigos do quadro oficial da CBF

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Aos 12 minutos do primeiro tempo, num Pacaembu repleto com 35 mil torcedores do Corinthians, Carlito Tevez recebe um lançamento de Rosinei, entra na área perseguido pelo zagueiro do São Bento e cai. Pênalti assinalado pelo juiz da partida que depois seria contestado, inclusive na imprensa. Mas o jogo foi 5×0 para o Corinthians, talvez o mais emblemático apitado pelo árbitro Luciano Aparecido Severo, um ex-policial militar que hoje é vereador em Santa Cruz do Rio Pardo.
Aquela partida em 2006 certamente marcou a carreira do árbitro, hoje com 48 anos, que chegava à série principal do campeonato paulista e já estava na lista da CBF — Confederação Brasileira de Futebol. Na verdade, foi a realização de um projeto de Luciano Severo, que já era sargento da Polícia Militar e professor formado em Educação Física quando resolveu se arriscar na arbitragem de futebol.

Severo no trio de arbitragem antes de jogo pelo Paulista
Severo no trio de arbitragem antes de jogo pelo Paulista

O início aconteceu no campeonato amador de Santa Cruz do Rio Pardo, em 1987. “Logo me inscrevi no curso de árbitros em São Paulo, com duração de um ano, e me tornei profissional”, conta. Antes, Severo já tinha sido jogador. “Sofrível, por sinal”, confessa.
Apesar de uma vez por semana, conciliar o curso com o trabalho na PM não foi fácil. Severo trocava os turnos e plantões e vivia em ônibus.
Certa vez, enfrentou uma situação difícil, já no final do curso. O ônibus em que viajava rumo a Santa Cruz foi assaltado por bandidos que haviam embarcado em São Paulo. “Eram quatro assaltantes e um deles rendeu o motorista. Foi um susto, uma ação que durou cerca de dez minutos, sem que ninguém pudesse esboçar reação. Mas o incidente não me impediu de terminar o curso”, conta Severo.

PRESIDENTE PRUDENTE— Severo posa antes de um jogo pelo Campeonato Paulista, no estádio “Prudentão”
PRESIDENTE PRUDENTE— Severo posa antes de um jogo pelo Campeonato Paulista, no estádio “Prudentão”

Carreira meteórica

Formado em 1999, o santa-cruzense se tornou um árbitro aplicado, tanto que avançou nas divisões dos campeonatos em diversos Estados. Começou apitando nas divisões Sub-15, Sub-17 e Sub-20. Chegou a “bandeirar” alguns jogos, uma exigência aos iniciantes. Depois, foi escalado para jogos dos campeonatos paulistas das séries B-1 e B-2.
No segundo ano como profissional, quando já apitava jogos do Paulistão da série A-2, Luciano Severo foi alçado ao quadro nacional de arbitragem da CBF, numa indicação da Federação Paulista de Futebol (FPF). Passou, então, a apitar jogos do Campeonato Brasileiro das séries B, C e A. “No início era árbitro reserva, já que na época não havia o assistente”, contou.
Viajava muito, apitando jogos no Paraná, Mato Grosso e diversas cidades de São Paulo. Severo lembra que não tinha salário fixo, mas ganhava por jogo. E não era pouco. O problema era o calote de alguns times, já que são eles, os “mandantes”, que devem arcar com as despesas da arbitragem. Hoje, a inadimplência já não acontece porque a CBF tem instrumentos para punir os times. “Levei muito cano no começo, mas depois as coisas se profissionalizaram mais”, afirmou.

COM AMIGOS — Em 2007, apita jogo beneficente em Itápolis, no estádio do Oeste, ao lado do cantor Daniel
COM AMIGOS — Em 2007, apita jogo beneficente em Itápolis, no estádio do Oeste, ao lado do cantor Daniel

Xingamentos

Severo admite que na maioria das partidas teve a mãe “homenageada” pelos gritos da torcida, especialmente do time que estava perdendo. “Isto é tradição no futebol. A mãe do juiz sempre é lembrada, é a nossa cultura”, conta. “Aliás, muitas vezes fomos xingados antes de entrar em campo”.
Uma outra paixão, porém, afastou Luciano Severo dos gramados: a política. Ainda em 2006, ele precisou se afastar quando disputou uma cadeira de deputado estadual pelo PSC — teve quase 16.000 votos. Voltou, mas dois anos depois já seria novamente candidato, desta vez a prefeito.
Assim, Severo “pendurou as chuteiras” em 2007, quando ainda teria tranquilamente mais cinco anos pela frente antes de ser “jubilado”, o que é obrigatório na profissão. Claro que sua segunda paixão acabou prevalecendo.
Hoje, é vereador em Santa Cruz, tendo conquistado a vaga como o candidato mais votado nas eleições do ano passado. Curiosamente, está presidindo uma CPI onde precisa atuar exatamente como um juiz.


Lance polêmico do pênalti sobre Tevez no jogo do Corinthians contra o São Bento em 2006
Lance polêmico do pênalti sobre Tevez no jogo do Corinthians contra o São Bento em 2006

Jogo do Corinthians
marcou a carreira

Luciano Severo na tribuna da Câmara de Santa Cruz
Luciano Severo na tribuna da Câmara de Santa Cruz

O jogo entre Corinthians e São Bento no dia 1º de fevereiro de 2006, com mais de 35 mil torcedores no Pacaembu e transmissão direta pela Rede Globo, marcou a carreira de Luciano Severo. O Corinthians apresentava um elenco novo — com estrelas como Ricardinho, Nilmar e Carlito Tevez —, e vinha de três vitórias consecutivas. Já o São Bento de Sorocaba era uma das revelações do primeiro turno do campeonato paulista.
Em Santa Cruz, onde a maior torcida sempre foi do Corinthians, a população ficou de olho não apenas nos lances, mas no juiz da partida, Luciano Severo. Foi, talvez, a partida onde ele teve maior visibilidade. “Claro que a gente tem um certo nervosismo, mas tudo acaba quando o jogo começa”, conta o ex-árbitro.
Apesar da goleada por 5×0, Severo teve sua atuação contestada pelo São Bento e parte da mídia. Muitos garantiram que ele errou no primeiro gol, ao assinalar um pênalti inexistente, e no segundo, quando marcou uma falta que igualmente não teria existido.
O problema é que em partidas anteriores o Corinthians já teria sido favorecido, daí a pressão maior sobre o árbitro santa-cruzense. Até hoje, Severo garante que fez uma boa arbitragem naquele confronto. “O Corinthians tinha uma série de estrelas e a torcida, que sempre foi muito apaixonada, lotou o estádio. Ainda tenho a imagem do lance do pênalti que gerou polêmica. Hoje, muitas faltas menos gravosas são assinaladas”, garante. “Mas o jogo foi 5 a zero, uma vitória incontestável”, afirmou.
O São Bento reclamou muito e Luciano Severo foi ameaçado de ser rebaixado para divisões inferiores. No vestiário da partida, ao ser indagado por emissoras de televisão, declarou, sem hesitar: “Dormirei com sono de criança. Tenho convicção de que fiz um dos melhores trabalhos da minha carreira”.

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Proprietário e Editor do Jornal Debate