Até o Carnaval foi dividido pela política em Santa Cruz

Em 1930, amigos durante Carnaval no antigo Clube dos Vinte; de branco, no centro, está Leônidas Camarinha

Durante décadas, dois grupos políticos
promoveram carnavais em clubes distintos

LEMBRANÇAS — O ex-prefeito Cyro Camarinha espirra água em folião, uma brincadeira comum nos carnavais onde se usava até lança-perfume

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

A acirrada política de Santa Cruz do Rio Pardo já foi dividida em cores — “vermelhos” e “azuis” —, clubes, hospitais e até no Carnaval. Os primeiros bailes carnavalescos que se têm notícia aconteceram no acanhado salão da primeira sede do Clube dos Vinte, no prédio que depois se tornou a sede da rádio Difusora em 1948. O clube foi inaugurado em 1929 e já no ano seguinte há fotografias de bailes carnavalescos, com as mulheres usando roupas demais para os padrões atuais da folia e os homens, com impecáveis ternos. Sim, ternos e gravatas estilo “borboletas”.
Na época, a política de Santa Cruz do Rio Pardo era dominada pelo deputado estadual Leônidas Camarinha, nome da praça onde até segunda-feira, 12, se realiza a festa popular deste ano. Era o grande grupo político da cidade, com Leônidas, Onofre Rosa, Lúcio Casanova, Cyro Camarinha e outros. A oposição se resumia na UDN, que não fazia frente ao poder de Camarinha.
A partir de 1950, os bailes mais tradicionais passaram a ser organizados na sede do antigo Clube Soarema, no prédio onde hoje é a prefeitura.

Calhambeque leva bloco ao Carnaval de 1937

Em 1958, no entanto, houve um grande “racha” que dividiu a política da cidade de forma mais acirrada. Surgiram, então, os “vermelhos e azuis”, com antigos correligionários disputando votos em partidos diferentes. No ano seguinte, o deputado “Lulu” Camarinha sofreu sua primeira derrota desde os anos 1930, quando seu antigo correligionário Onofre Rosa se tornou o prefeito de Santa Cruz do Rio Pardo, eleito pelos “azuis”.
A partir deste ano, tudo se dividiu. Em 1958, por exemplo, os “vermelhos” inauguraram a nova sede do Clube dos Vinte — atual ACE —, mas no ano seguinte os “azuis” deram o troco erguendo o imponente Icaiçara Clube. Nos anos seguintes, o Clube dos Vinte ficou conhecido como “popular”, enquanto o Icaiçara abrigava as elites de Santa Cruz.
Os carnavais eram realizados praticamente cinco dias seguidos, todos com os salões lotados. O confete e a serpentina abundavam, numa época em que até o lança-perfume era usado para brincadeiras, já que seu jato era gelado.
Durante pelo menos três décadas, os dois clubes promoveram bailes carnavalescos lotados. E a cidade ainda tinha o Carnaval popular promovido pela prefeitura, geralmente no ginásio de esportes a partir da década de 1970. Havia, ainda, bailes no São José, associações de empresas — como a Suzuki — e, mais recentemente, na Erisoja.
A divisão, porém, foi se reduzindo com o próprio declínio do carnaval de salão. Atualmente, por exemplo, apenas o Icaiçara promove bailes, ainda assim durante apenas duas noites e uma matinê.

Escolas de samba

Com o declínio dos clubes, o Carnaval de rua atingiu cresceu. A primeira escola de samba de Santa Cruz foi a “Califórnia”, fundada por João Andreolli e “Reco” Beguetto. Depois vieram a “Unidos da Baixada” e a “Império de São José”.
No final dos anos 1980 e início dos anos 1990, houve até competição entre as escolas, no governo de Clóvis Guimarães, com direito a júri e às tradicionais “nota… dez”.



O professor “Dinão” Lacerda é o rei momo de Carnaval nos anos 1960

Delegado de polícia
foi enérgico em 1935

Mulheres fantasiadas (e ‘comportadas’) em Carnaval nos anos 1950

Os antigos carnavais em Santa Cruz do Rio Pardo, além de comportados e familiares, exigia muita disciplina. Uma edição do jornal “O Regional” de fevereiro de 1935, por exemplo, traz um comunicado do delegado de polícia, Ildefonso Pinto Nogueira, anunciando proibições durante o período de Carnaval no município.
Cópias digitalizadas do jornal estão no acervo dos historiadores Celso Prado e Junko Sato Prado. Há medidas que voltaram a valer para manifestações políticas, como o uso de máscaras. Naquela época, o delegado proibiu terminantemente este acessório carnavalesco nas vias públicas, “ou qualquer outro disfarce que dificulte a identidade do portador”.
Também foram proibidas músicas com letras que poderiam ser consideradas “ofensas aos bons costumes ou ao decoro público”. O delegado de Santa Cruz também alertou que a polícia iria agir “energicamente” contra indivíduos que “faltarem com o devido respeito às famílias ou às pessoas que transitarem pela cidade ou bairros”.
Naquele ano, os blocos — chamados de “prestitos” — só poderiam sair às ruas com seus integrantes fantasiados mediante autorização da polícia, indicando previamente o percurso de eventuais carros alegóricos.
O curioso é que o delegado também fez referências a substâncias químicas que ele vetou no Carnaval de fevereiro de 1935. Ele proibiu, por exemplo, “o uso de carrapichos, pós, graxas, querosene, pernachios, bem como de preparados de qualquer natureza destinados a produzir o efeito de manchas de tinta quando aplicados às vestes, ainda que estas manchas desapareçam espontaneamente”.
Bons tempos de uma inocente folia nos salões.

Sobre Sergio Fleury 1988 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate