Trabalhador sofre perseguição após denunciar o caso dos ‘consignados’

‘FANTASMA DE CARNE E OSSO’ — Osmar Pinheiro da Silva mostra desconto no holerite e a notificação da Serasa

Funcionário da Codesan há 26 anos, Osmar Pinheiro
responde à sindicância após denunciar apropriação indébita

Uma história de perseguição, terror, medo e irregularidades. Esta é a visão de um homem que trabalha há 26 anos na Codesan, a grande empresa pública de Santa Cruz do Rio Pardo. Pintor e zelador de uma escola, Osmar Pinheiro da Silva é um dos trabalhadores que receberam cartas da Serasa, um órgão de proteção ao crédito, informando sobre negativação por falta de pagamento de empréstimos contraído na Caixa Econômica Federal (CEF). Osmar sempre foi cuidadoso nas contas, mas ele teve uma parte do salário descontada pela Codesan, diretamente do seu holerite, no chamado “empréstimo consignado”, cujo valor não foi repassado ao banco. O caso é considerado crime por ser “apropriação indébita” e dano moral contra o trabalhador.
Calmo, humilde e apaixonado por animais, muitos dos quais recolhe na rua para cuidar, Osmar chegou a ser afastado do trabalho há algum tempo por causa de depressão. O alto estresse e as frequentes humilhações por parte da direção da Codesan provocaram uma angústia que impossibilitou o trabalho. Ele ainda toma alguns remédios, mas o problema na empresa continua.
Osmar é um dos “fantasmas”, como se referiu o presidente da Codesan, Cláudio Agenor Gimenez, e radialistas da rádio Difusora, em entrevistas, a estes funcionários, duvidando que haveria algum deles com problemas de negativação pelo fato da empresa não transferir os valores descontados diretamente no salário. “Eu sempre andei com minhas contas em dia. Foi humilhante receber esta carta”, disse.
O pior é que a carta da Serasa não foi entregue diretamente ao funcionário, mas na secretaria da escola da qual ele é o zelador. Certamente, o envelope passou pelas mãos de várias pessoas, o que aumentou o constrangimento.

Osmar trabalha na Codesan há 26 anos

E não foi a única. “Já recebi vários comunicados de negativação. Procurei a Caixa Econômica Federal e eles me informaram que a Codesan atrasava os pagamentos. Depois, procurei o setor de Recursos Humanos da empresa e eles disseram para procurar o banco. Eu não sabia mais o que fazer”, contou.
A última carta da Serasa chegou em dezembro, quando, mais uma vez, a Codesan descontou os valores de consignados de Osmar e não repassou ao banco. Cansado de buscar soluções, o trabalhador procurou a imprensa — o DEBATE e a rádio 104 FM — e disponibilizou os documentos. Claro que o nome dele foi omitido nas primeiras reportagens, mas hoje Osmar perdeu o medo. “A gente fica com receio de retaliações e precisa preservar o nome. Mas resolvi expor tudo, até para ajudar meus colegas. Agora podem publicar meu nome e os documentos”, disse.
Osmar conta que muitos funcionários da Codesan trabalham com a cabeça baixa. “Eles gostariam de falar o que estou dizendo, mas têm medo de perder o emprego. Infelizmente o nosso presidente é uma pessoa sem diálogo, mal educado e que não aceita conversa”, afirmou. “Existe um clima de terror dentro da empresa”, confirmou.
Há pouco mais de uma semana, Osmar Pinheiro percebeu que o prefeito Otacílio Parras Assis (PSB) estava dentro de um carro, no pátio da Codesan, e resolveu fazer uma reclamação direta. Quando se aproximou, viu que Cláudio Agenor Gimenez também estava no veículo, no banco do passageiro. Mas ele não se intimidou e, apontando Cláudio, disse ao prefeito que queria reclamar do presidente da empresa. “Eu contei que o presidente havia me humilhado”, disse, lembrando que Otacílio deu razão ao dirigente que tanto protege.

Danos morais

Osmar Pinheiro já contratou um advogado e vai ingressar com ação por danos morais contra a Codesan, já que passou por constrangimentos no episódio do empréstimo consignado em atraso. “Não é nem pelo dinheiro, mas pela possibilidade desta situação cessar. Se eu ganhar alguma coisa, vou comprar ração para meus cachorros”, contou.
O trabalhador não compreende os motivos pelos quais o prefeito mantém Agenor à frente da Codesan, uma vez que o dirigente, além do problema dos consignados, é investigado pela Polícia Civil como suspeito de participação no caso do desvio de dinheiro público, no esquema comandado durante muitos anos pela ex-tesoureira Sueli de Fátima Feitosa.
“Eu não entendo como o prefeito consegue ficar com um homem desses administrando a Codesan. Não tenho nada contra a pessoa dele, mas o prefeito, que está fazendo uma boa gestão, devia pensar um pouquinho melhor”, disse.



TENSÃO — Clima interno na Codesan é de terror e medo, diz funcionário; na foto, polícia dentro da empresa

Processo administrativo
pode afastar funcionário

Não há dúvidas de que o atual presidente da Codesan, Cláudio Agenor Gimenez, já desconfiava que seria o funcionário Osmar Pinheiro da Silva quem denunciou o caso dos consignados à imprensa. Em conversas internas, Osmar conta que Agenor passou várias vezes perto de seu setor e, em voz alta, disse que “daria gancho” quando descobrisse quem fez a denúncia “àquele jornaleco”. Neste clima, um episódio sem muita importância acabou se transformando num processo administrativo que pode afastar o funcionário que nos últimos 26 anos teve a Codesan como sua casa.
O episódio aconteceu no dia 24 de janeiro, dez dias depois do DEBATE publicar reportagem sobre os empréstimos consignados. Osmar tem um filho portador de diabetes em estágio avançado, que necessita constantemente de insulina. Ele precisou, inclusive, recorrer à Justiça para que a prefeitura fornecesse os medicamentos. Mesmo assim, eles ainda costumam atrasar.

Osmar Pinheiro recebeu uma
notificação informando que responde a processo administrativo disciplinar

Naquela quarta-feira de janeiro, já passava das 15h quando Osmar recebeu um recado do Centro de Saúde de Santa Cruz do Rio Pardo. Havia chegado um novo lote dos medicamentos, mas ele precisava se apressar porque os produtos já estavam sendo distribuídos.
Osmar, então, conversou com seu superior, o encarregado de setor, pedindo autorização para que um carro o levasse rapidamente ao Centro de Saúde. Segundo ele, era uma emergência e o encarregado, comovido, convocou um motorista para levar Osmar.
Mas o carro não passou da cancela, onde Cláudio Agenor Gimenez já o esperava. A saída foi proibida, sob o argumento de que era horário de trabalho e o carro era da empresa. Não importava se a viagem duraria apenas alguns minutos ou se Osmar pudesse ser descontado ou mesmo pagasse até a gasolina. O trabalhador foi proibido de buscar o remédio para o filho.
“Eu tentei explicar que meu filho precisa da insulina, mas ele mandou eu descer do carro e me humilhou na frente de outros colegas”, disse. Osmar disse que ficou magoado. “Eu passei metade da minha vida dentro na Codesan”, lamentou.
A situação foi tão “desumana” que um morador que estava nas proximidades da portaria da Codesan e acompanhou o caso, se ofereceu para levar Osmar ao Centro de Saúde. “Na verdade, eu fiquei tão atordoado que nem respondi à gentileza daquele homem”, contou. “Foram palavras duras, o que é peculiar do nosso presidente. Eu abaixei a cabeça e saí de perto”.
O veículo sequer deixou o pátio da Codesan. Entretanto, na semana passada o trabalhador recebeu uma notificação informando que ele está sendo alvo de um processo administrativo disciplinar. Na última sexta-feira, 9, Osmar foi ouvido por uma comissão disciplinar e precisou recorrer a um advogado, que o acompanhou. Ele corre, inclusive, o risco de ser demitido pela “infração”.
Segundo o funcionário, há um clima de “terror” dentro da Codesan, com muitos trabalhadores abalados com o estilo truculento do atual presidente. “Todo mundo da empresa trabalha certinho, mas o medo é maior do que tudo. O presidente não tem diálogo, só ele pode falar. Já fui coordenador de equipe na Codesan, mas pedi para sair porque não aguentava. Na verdade, é até difícil falar desta pessoa”, criticou. “Chamar a atenção é normal, pois todo mundo erra, mas não custa chamar num canto e conversar. Ele fala na frente de todo mundo”, disse.
Osmar é querido pelos colegas, tanto que foi eleito para compor a comissão interna de segurança, em escolha direta. Agora, ao expor a situação que considera “arbitrária”, o funcionário espera incentivar outros trabalhadores a denunciar o que está acontecendo na Codesan. “Torço, inclusive, que vários ‘gasparzinhos’ apareçam e todos vejam que eles podem ser tocados. E que estes fatos também toquem o coração das pessoas, dando coragem a todos para lutar por seus direitos”, disse Osmar.
A reportagem enviou mensagem solicitando informações à Codesan sobre os acontecimentos, mas não obteve resposta. Nas últimas duas semanas, outras mensagens também foram encaminhadas à empresa pertencente ao município, igualmente sem respostas.

Sobre Sergio Fleury 1988 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate