A história de amor que o tempo não apagou

Silvia e Durvalino se apaixonaram na infância, mas só se casaram no ano passado

Namorados na infância, Durvalino e Silvia,
ambos com 76 anos, se casaram em 2017

O casal que o destino quis separar, finalmente está junto — e feliz

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Durvalino e Silvia vivem uma história de amor que resistiu ao tempo. Eles se apaixonaram, ficaram noivos, se separaram e cada um seguiu sua vida há muitos anos, com casamentos e filhos. Mais de meio século depois, quando ele ficou viúvo e ela já estava separada do primeiro casamento, os dois se reencontraram e amor brotou novamente. Pois Durvalino Barreto e Silvia Scucuglia, ambos com 76 anos, se casaram há um ano “de papel passado” — uma exigência dela —, com direito a festa na família e lua de mel.
A incrível história do casal começou no antigo Grupo Escolar de Santa Cruz do Rio Pardo, exatamente no primeiro ano letivo, em 1948. Na época, o grupo ainda nem tinha o nome de “Sinharinha Camarinha”, no velho e histórico prédio que décadas depois abrigou a Delegacia de Ensino. Eram crianças, mas a empatia foi imediata. Da troca de olhares, nasceu uma intensa amizade.
Eram outros tempos, muito mais rígidos do ponto de vista moral. Por isso, Durvalino — que mais tarde ganhou o apelido de “Porquinho” — e Silvia só brincavam mesmo na escola. “Ela foi sempre minha grande paixão, desde a infância”, derrete-se ele.
Ambos fizeram a antiga “admissão” e entraram juntos no ginásio. Foi aí que começaram a namorar “oficialmente”.
Silvia, na verdade, enfrentou a resistência da família. O pai, Oswaldo Scucuglia, era um respeitável político ferrenho da antiga UDN e cheio de princípios. “Pegar na mão era um sacrifício”, conta Durvalino. “Meu pai era muito severo e não concordava com o namoro”, admite Silvia.
A mãe de Silvia, Guiomar, virou uma espécie de “cúmplice”, permitindo que os dois adolescentes namorassem pelo menos alguns minutos.
Silvia conta que não havia mais como esconder, já que os dois estudavam na mesma escola. Mas o casal também contava com a cumplicidade de amigos e do tio de Silvia, Benjamim Brondi. “No final, acabaram aceitando. Não tinha mais jeito”, diz Durvalino. Mas ir ao cinema, por exemplo, só na companhia dos pais.
Foi aí, no início da década de 1960, que Durvalino decidiu pedir a mão de Silvia à família dela. Ele — que já estava trabalhando no Rio de Janeiro — colocou seu melhor terno, ensaiou um discurso e enfrentou os pais da namorada. “Ensaiei tanto e na hora não saiu nada. Tentei, mas fiquei muito nervoso”, conta hoje, rindo da situação. Já Silvia garante que não abriu a boca.
O noivado, porém, foi aprovado. O problema é que Durvalino se formou na Aeronáutica como radiotelegrafista de voo e vivia viajando. Quando voltava a Santa Cruz para rever a amada, tinha crises de ciúmes. “Ele é ciumento até hoje”, garante Silvia.
Havia também uma enorme dificuldade para os encontros. “Do Rio de Janeiro até Santa Cruz, eu pegava um ônibus para Londrina, que passava perto de Ipaussu. Ficava na estrada, caminhava um bom trecho a pé até chegar em Ipaussu e, à noite, procurava um ônibus ou carona para Santa Cruz do Rio Pardo. Era um sacrifício e demorava até dois dias”, conta Durvalino.
O conto de fadas desmoronou com as crises de ciúmes e os desencontros. Em 1964, Durvalino e Silvia desfizeram o noivado e cada um seguiu seu caminho.
Ela se casou, teve quatro filhos — Luiz Alexandre, Lysandra, Maria Silvia e Luiz André. Durvalino fez o mesmo, em outra cidade, e também teve três filhos — Paulo, Regina e Erick. A vida seguiu seu curso, aparentemente sem esperanças para aquele amor de infância.
Silvia se separou há 30 anos e se aposentou como professora. Já Durvalino ficou viúvo há dois, quando também estava aposentado. E o destino novamente colocaria os dois juntos.

Silvia e Durvalino exibem, orgulhosos, a certidão de casamento, realizado no ano passado

O reencontro

Silvia confessa que sempre pensou em Durvalino. “Às vezes, alguém me falava dele”, lembra. Por sua vez, o ex-noivo, já viúvo, em conversa com uma amiga, ficou sabendo que Silvia era separada. O coração disparou e, no dia seguinte, ele conseguiu o número de telefone e resolveu falar com a antiga namorada.
Como na adolescência, ensaiou as palavras que, na hora, não saíram. “Eu nem dormi. Passei a noite treinando”, lembra, rindo como adolescente.
A exemplo da infância, Silvia demorou para aceitar um encontro. “Ela sempre foi muito difícil”, lembra Durvalino. Mas três meses após aquele telefonema, os dois se encontraram numa estação de metrô em São Paulo. E, desta vez, ele foi incisivo: “Pela nossa idade, não temos mais tempo. Ou aproveitamos este finzinho ou não teremos outra oportunidade”, disse, fazendo um novo pedido à amada.
Silvia ainda pensou semanas antes do “sim”, mas fez exigências. Religiosa, não aceitou morar junto sem um casamento formal, que foi realizado há pouco mais de um ano. Antes, Durvalino cumpriu à risca a tarefa de pedir a mão de Silvia. Não para os pais dela, já falecidos, mas agora para todos os quatro filhos. “Fui à casa de cada um deles”, contou.
Finalmente Durvalino e Silvia ficaram juntos, com direito à lua de mel em Santa Catarina. “E com todos os detalhes”, diz ele, feliz, sob o olhar envergonhado de Silvia.

* Colaborou Toko Degaspari

Sobre Sergio Fleury 1988 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate