Coluna de Pascoalino S. Azords – Edição de 11/02/2018

Três ou quatro
cenas urbanas

Pascoalino S. Azords
Da equipe de colaboradores

1. Beleza
Tem gente que não vive sem carro. Em algumas casas, o número de carros na garagem é superior ao de moradores! Mas, para mim, a imagem mais bonita continua sendo a da família inteira sobre uma bicicleta. Pode ser a caminho de casa, a caminho de uma igreja, tanto faz; para mim não há imagem mais poética. Ás vezes, uma das crianças ainda leva uma boneca no colo. Quase sempre, um vira-lata segue a bicicleta. Se eu fosse um Sebastião Salgado… Mas nem máquina fotográfica eu tenho.
2.Pureza.
Tem gente que quer ir para o céu, ou, no mínimo, se pela de medo de ir pro inferno. Não é o meu caso. Mas não consigo negar um minutinho da minha atenção às pessoas que batem cedinho à minha porta para falar do fim dos tempos, da volta de Jesus Cristo. No domingo que passou eram duas senhoras simpáticas. Perguntei: “hoje as crianças não vieram?”. Elas me responderam que as crianças estavam com seus pais em outras ruas aqui do bairro. Para mim, é das cenas mais singelas: a família que se banha e veste as melhores roupas que tem para vir até mim, preocupada com a minha salvação. Eu escuto, concordo com tudo para não chatear quem vem de tão longe debaixo daquele sol, mas presto atenção mesmo é no visual. No cuidado que pais e filhos tiveram antes de sair de casa para vir me salvar. Tem gente que quer ir pro céu, mas amaldiçoa essas pessoas de boa fé. Tem gente que faz quase qualquer coisa pra não ir pro inferno, mas vira as costas e xinga essas boas almas que se preocupam com o próximo – não importa se equivocadamente, mas se preocupam.
3. Tristeza
Jovem entregando currículo de porta em porta no comércio é a imagem que mais me comove. Eles chegam bem vestidos, bem cuidados dentro das suas limitações, entregando cópia do melhor resumo que fizeram de suas vidas até aqui. Alguns anexam uma foto 3×4 onde tentam parecer simpáticos. Capricham ao máximo na letra e são demasiadamente modestos nas suas pretensões salariais. O currículo de um jovem me comove mais do que cartinha de criança pobre para o Papai Noel. E, parodiando aquele poema em que o Drummond diz que se fosse Deus baixava uma lei garantindo que as mães estavam proibidas de morrer; eu, se tivesse algum poder, decretaria que os jovens estavam desobrigados de implorar um emprego — aqui e no mundo inteiro. Mulher chorando sozinha na rua também é triste. Com criança de colo ou se estiver carregando um envelope cheio de currículos, então, piorou!

Sobre Sergio Fleury 1988 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate