Coluna de Geraldo Machado – Edição de 11/02/2018

Vamos prender os patos

Geraldo Machado

Há tempos, dando rédea solta à imaginação, passei em revista um rol de pessoas com as quais vizinhei, sem me preocupar com aquelas outras que moraram na minha propriedade, de mais viva recordação, dada a conveniência do dia a dia.
São lembranças que ficaram da minha vida na lavoura, toda ela vivida com intensidade e dedicação. Hoje em dia, após a lição do humanista de Bilbao, José Ortega Y Gasset, que: “o homem não possui natureza, o que ele possui é… história”, deixei a “natureza” e passei a contar histórias. Como eu vivo aconselhado, e tem dado certo, quis abrigar-me, nesta idade de reflexões e genuflexões, “sob a sombra da faia”, como recomendava o poeta Virgílio, nas “Bucólicas”.
Como a nossa flora nos deu a faia, valho-me da sombra do nosso frondoso alecrim para este retiro romano: “ócio com dignidade”. Deixo a preguiça, a manha e a birra que não justificam a idade. Entre as pessoas mais simples, mas memoráveis, quero pinçar a dedo a figura especial de um bom mineiro, de sobrenome Negle. Este homem, na década de 40, quando as fazendas de café estavam em plena abundância de colheitas, era colono e chefe de uma família de 4 “enxadas”. Era braço suficiente para tocar 8 mil pés de café e, ainda, trabalhar por dia para o fazendeiro.
Não fazendo parte do contrato de trabalho, o pai, depois de levar o almoço às 9 horas e o café ao meio-dia para os filhos na lavoura, tinha tempo para cuidar das suas plantas e da criação de quintal.
Guardava o privilégio de morar num lugar afastado da colônia, com casa e terreno para uma boa plantação de subsistência. Colhia até arroz do gasto, numa várzea chegada à casa. Um bom chiqueiro de porcos, terreiro para as galinhas, ovos e o frango caipira. Quase me esqueço dos patos. Sem eles, não posso fechar esta história e justificar o título.
Tinha patos, patas e patinhos que, com os leitões, bicavam e fuçavam as migalhas, os sobejos da cozinha rústica, caídos no chão sem varrer. Estava bem o Negle. Tinha fartura. Não podiam faltar o pomar e as bananeiras, já que essa morada fora de um sítio comprado pelo fazendeiro e anexado à propriedade maior.
Disso tudo, o sem-terra aqui retratado enchia cestas para agraciar a distinta patroa, quando passava temporadas na fazenda. Dona Nininha, a fazendeira, estimava-o muito. Reconhecia a sua gratidão pela regalia de desfrutar tamanha fartura, adicionada àquela do trabalho dos filhos, como colonos. Por isso prometeu visitá-lo a qualquer dia, conhecer a sua mulher e tomar um cafezinho com os filhos do casal.
Esse “qualquer dia” preocupou o Negle. Mandou a mulher varrer a casa e o terreiro. Limpou o melhor frango, juntou-o com a cesta de serralha, se aprumou nas pernas e foi à sede da fazenda. Com aquele “mineirismo” peculiar e honesto, deu um bom timbre à voz, e disse -com a cabeça descoberta e reverente: “Dona Nininha, é pra senhora. Não vá ponha reparo. Quero dizer, também, que eu e a Lurde estamos esperando a senhora, mas com um senão: — quando resolver chegar em casa, me avise um dia antes pra mim mandar a mulher prender os patos.”
Prendeu os patos e o pacto de amizade com a Dona Nininha, encantada com a hospitalidade farta e varrida, do bom Negle, do bom mineiro.
Vivi estes lindos tempos em que as condições sociais não impediam o bom relacionamento entre o dono da fazenda e o dono do trabalho. Aquele tinha a terra e, este, onde trabalhar. Havia até capelas e terços nas fazendas. Casamentos com festa. Não guardo o número de casais que me convidaram para padrinho de casamento e dos filhos. Quantos compadres, quantas comadres e afilhados e afilhadaspara abençoar. Vamos deixar isto para trás. Ortega Y Gasset disse que eu não tenho natureza. Vamos terminar a história.
Ela não acabou com os patos, nem com a cozinha varrida. Os filhos casaram. O Negle, sem as “enxadas”, mascom as economias de tantos anos, comprou uma casa em Ourinhos e mudou do campo para a cidade. Não foi para a sombra da faia nem do alecrim.
Comprou uma charrete. E por não conhecer Ortega Y Gasset, nem Virgílio, tinha ponto e carregava passageiros. Esse tipo de transporte não era muito recomendável porque preferido por mulheres de reputação duvidosa. O Negle, querendo moralizar sua charrete e pô-la fora da discriminação das famílias, mandou escrever em largas letras, na parte frontal da capota de lona do veículo singular: “Salve Maria”.
Com essa sutileza bem mineira, dessa maneira bem sutil, fez de sua charrete um andor, um pálio, castos e recatados, para transportar as senhoras de vida airosa e afugentar as mulheres de vida airada.

Sobre Sergio Fleury 1988 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate