Recuo de Otacílio não garante festa de graça no próximo ano

“FORMIGUEIRO” — Vista aérea de um dos shows da “Festa do Peão de Boiadeiro” deste ano, que bateu recorde de público no recinto da Expopardo
No final da festa, Marrero e Otacílio se cumprimentam
No final da festa, Marrero e Otacílio se cumprimentam

Depois de anunciar durante meses que a partir do próximo ano a prefeitura de Santa Cruz do Rio Pardo deixaria de ser parceira financeira de eventos como a “Festa do Peão de Boiadeiro” e “Festival Rock Rio Pardo”, o prefeito Otacílio Assis (PSB) voltou atrás. Na madrugada do último domingo, 22, durante o encerramento da “Festa do Peão de Boiadeiro”, no recinto da Expopardo, Otacílio anunciou que o município vai continuar ajudando no pagamento dos shows de artistas.
“Eu sou meio sem palavra mesmo”, brincou o prefeito ao discursar no encerramento do rodeio na noite de domingo, 22, ao lado do empresário Edson Marrero, o organizador do evento.
Otacílio explicou que o apoio financeiro, entretanto, será menor. Segundo ele, isto será possível porque o empresário “Kiko” Quagliato prometeu bancar um show de grande porte no próximo ano, que pode, inclusive, ser o da cantora Cláudia Leite.

No domingo, cavalgada marchou pela avenida Clementino Gonçalves
No domingo, cavalgada marchou pela avenida Clementino Gonçalves

O recuo do prefeito, porém, não garante que a festa do próximo ano seja realizada sem a cobrança de ingressos. É que a previsão de auxílio financeiro da prefeitura, que neste ano foi de R$ 400 mil, deve cair pela metade em 2018, segundo avaliação do próprio prefeito Otacílio. Todos os shows do evento custam muito mais. O último show da festa no recinto da Expopardo, por exemplo, pode ter custado cerca de R$ 200 mil, que é o valor médio atualmente cobrado pelo cantor Michel Teló.
Neste ano, a “Festa do Peão de Boiadeiro” ofereceu cinco shows de bom nível, com portões abertos. Um deles, inclusive, foi contratado às pressas no final do ano para substituir a dupla Chitãozinho e Xoxoró, que cancelou a apresentação a poucas semanas da festa. Assim, as irmãs Simone e Simaria assinaram o contrato com os organizadores da festa num período em que estão em alta na mídia. A título de comparação, o cachê da dupla subiu 193% em apenas um ano, depois da explosão musical das irmãs no mercado. No réveillon do ano passado, por exemplo, Simone e Simaria se apresentaram na praia de Fortaleza, capital do Ceará. O cachê de R$ 470 mil foi pago pela prefeitura da capital do Ceará.

Sem garantias

O empresário Edson Marrero não esconde sua decepção com a “ajuda” reduzida anunciada pelo prefeito e admite não ter garantias de que a festa no próximo ano será gratuita. Em conversas informais, ele sustenta que o custo total da festa é muito alto e sem o pagamento de alguns shows não será possível manter os portões abertos.
Marrero também não acredita que o usineiro Kiko Quagliato, seu amigo particular, consiga contratar a cantora Cláudia Leite, já que a festa em Santa Cruz é realizada poucas semanas antes do Carnaval, período em que a cantora costuma realizar várias apresentações em Salvador, na Bahia.
Além disso, Kiko já é um patrocinador oficial da festa santa-cruzense e, neste caso, os recursos que eventualmente pagam despesas com a estrutura do evento, serão canalizados para alguns shows que antes eram bancados pela prefeitura. O resultado óbvio é prejuízo sem a cobrança de ingressos.
Neste ano, por sinal, Marrero admite que a festa foi deficitária. Os organizadores encontraram muita dificuldade para negociar a maioria dos camarotes, cujos recursos servem para o pagamento de artistas.


Falta de apoio pode virar
‘armadilha’ para prefeito

FORÇA DA MÍDIA — Cachê das irmãs Simone e Simaria aumentou quase 200% no período de um ano
FORÇA DA MÍDIA — Cachê das irmãs Simone e Simaria aumentou quase 200% no período de um ano

O recuo do prefeito Otacílio Assis (PSB) na decisão de não mais apoiar financeiramente a “Festa do Peão de Boiadeiro” de Santa Cruz do Rio Pardo pode ter outras consequências para a administração. É que o governo será obrigado, por exemplo, a igualmente rever a posição de não pagar os dois principais shows do “Festival Rock Rio Pardo”, o evento que mais cresceu nos últimos anos. A edição de 2016, por exemplo, ganhou reportagem de uma página inteira no jornal “Folha de S. Paulo”, além de generoso espaço em emissoras de televisão.
Quando decidiu não apoiar mais eventos musicais, Otacílio também incluiu o festival de rock. Hoje, se recuou no caso do rodeio, certamente terá de fazer o mesmo em relação ao “Rock Rio Pardo”.
Outro problema será manter o nível da festa de aniversário, já que neste ano a “Festa do Peão de Boiadeiro” foi praticamente a única atração, uma vez que a prefeitura relaciona o evento como parte das festividades do dia da cidade. Mesmo em anos onde outras atrações são oferecidas no aniversário de Santa Cruz, o rodeio sempre foi o evento mais badalado, levando dezenas de milhares de pessoas ao recinto da antiga Expopardo.
Otacílio é, acima de tudo, um político. Assim, caso deixasse de patrocinar a “Festa do Peão de Boiadeiro” em pleno mês de aniversário da cidade, teria de apresentar uma série de atrações ao público que mantivessem o mesmo nível. Com isso, a prefeitura poderia continuar gastando o mesmo valor que repassa para custear os shows.
Por fim, não evitar que o acesso à festa seja cobrada a partir do próximo ano é um ônus político que nenhum outro prefeito, nos últimos 20 anos, ousou assumir.

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Proprietário e Editor do Jornal Debate