Tudo por uma vaga

“ACAMPAMENTO” — Na quadra do ginásio de esportes, além de colchões, tinha até barracas
No sistema organizado pelos próprios candidatos, a cada duas horas era feita uma chamada para controlar a presença no ginásio
No sistema organizado pelos próprios candidatos, a cada duas horas era feita uma chamada para controlar a presença no ginásio

Desde a noite de quinta-feira, 26, mais de uma centena de estudantes universitários pernoitaram no ginásio de esportes “Aniz Abras” para garantir vaga no transporte gratuito oferecido pela prefeitura de Santa Cruz do Rio Pardo. As inscrições serão feitas neste domingo, das 8h às 12h por agentes da prefeitura. De acordo com a secretaria de Educação, as vagas serão preenchidas por ordem de chegada.
O fato do transporte ser gratuito desde o início da atual administração tem provocado, nos últimos três anos, filas enormes dias antes das inscrições. As vagas que estão sendo oferecidas são para “calouros” que vão iniciar os estudos em Bauru, Marília, Jacarezinho e Ourinhos a partir de fevereiro.
Na sexta-feira à noite o número de candidatos já era maior do que o de vagas oferecidas. No entanto, muitos desistem no início do ano e os “suplentes” acabam se acomodando nos ônibus. Daí a fila ser mantida até o fim. Além disso, há casos em que os estudantes não comprovaram a frequência no ano passado e estão sujeitos a cortes no transporte gratuito.
No segundo ano do mandato anterior de Otacílio Assis (PSB), quando o benefício foi implantado, as inscrições eram na sede da secretaria da Educação, no andar superior da agência do Banco do Brasil. Na época, pais e estudantes acamparam nas calçadas, tumultuando o centro da cidade e se expondo a riscos. Desde então, as inscrições foram transferidas para o ginásio.

CONTROLE — Edilaine Lourenço mostra caderno que controla presença
CONTROLE — Edilaine Lourenço mostra caderno que controla presença

No total, a prefeitura de Santa Cruz do Rio Pardo disponibiliza 18 ônibus da empresa “San Carlos” que transportam quase 1.000 universitários para faculdades da região. Alguns especiais viajam durante o dia, no caso de cursos em período integral.
Nem todos concordam com a sistemática de seleção adotada pelo atual governo. Alguns pais consideram a formação de fila dois dias antes das inscrições desnecessárias. Eles defendem a adoção de um sistema de distribuição de senhas, evitando que alunos e familiares pernoitem no ginásio de esportes.
Outros, entretanto, acreditam que não há outra solução. “Têm pessoas que acampam para comprar ingresso para um determinado show, por exemplo, para ter direito a um lugar privilegiado. Ao menos este martírio é apenas uma vez por ano”, disse uma mãe, que preferiu não se identificar.

Controle rígido

Edilaine de Fátima Lourenço ficou tão acostumada com as filas que resolveu ajudar o controle dos universitários neste ano. No início da madrugada de sexta-feira, ela e a filha cadastravam nomes e providenciavam chamadas orais a cada duas horas. Foi a maneira de garantir os direitos daqueles que chegaram mais cedo. A filha dela já está no terceiro ano da faculdade, mas Edilaine aproveitou para “guardar” a vaga para um amiga.

Beatriz, Gabriela e Amanda planejavam dormir “alguns minutos”...
Beatriz, Gabriela e Amanda planejavam dormir “alguns minutos”…

“Minha amiga começou a lista durante o dia, mas ela acabou não ficando no recinto. Então, eu aceitei tomar conta pela experiência que já vivenciei”, explicou. Ela ressaltou que a presença de estudantes e familiares dentro no ginásio evita filas nas ruas e calçadas.
Edilaine exibiu um caderno com os nomes dos estudantes presentes. Segundo ela, a cada duas horas é feita uma chamada, inclusive nas madrugadas. “Quem faltar a duas chamadas, vai para o final da fila. Achamos que é um sistema justo”, afirmou.
A prefeitura de Santa Cruz disponibilizou dois seguranças, que permaneceram no ginásio durante as noites. Além disso, os banheiros foram supridos com sabonetes e papel higiênico.
Há 42 vagas nos ônibus que viajam até Bauru, 12 vagas para Marília, 14 para Jacarezinho e mais 56 para Ourinhos, sendo 16 no período diurno.


Universitários acabam
se divertindo em grupo

Grupos de universitários amigos passaram a noite no ginásio conversando
Grupos de universitários amigos passaram a noite no ginásio conversando

Para os jovens que acabaram de entrar numa faculdade e buscam vagas nos ônibus gratuitos bancados pela prefeitura de Santa Cruz, nem tudo é dificuldade. Na ampla área do ginásio de esportes, colchões, travesseiros, cobertas e até barracas ocupam espaços. Em alguns grupos de universitários, a alegria contagia.
Beatriz Cristina de Oliveira Souza, 17, que vai cursar Fisioterapia em Bauru, chegou no início da tarde de sexta-feira, quando ainda não havia tanta gente no ginásio. “Um sobrinho me alertou que as pessoas já estavam chegando e eu corri para garantir minha vaga”, disse, feliz por ser a 11ª na lista de presença.
Ao lado dela, a amiga Amanda Alves de Mira, 17, também caloura do curso de Fisioterapia, está na posição imediatamente superior, praticamente com a vaga para Bauru garantida. “Mas o problema é que gente precisa ficar senão perde a vaga”, admitiu. Já Gabriela Souza, 17, chegou um pouco mais tarde e ficou em 22º na lista, ainda assim com folga na disputa por uma vaga.
Apesar do bom humor do grupo, Gabriela acredita que o sistema de distribuição de senha deveria se testado. “Não teria necessidade de tudo isso. O pessoal pegava uma senha oficial e ia dormir em casa”, sugeriu.

Muitos preferiram colocar colchões nas arquibancadas do ginásio
Muitos preferiram colocar colchões nas arquibancadas do ginásio

Iago Lorenzetti Lopes, 20, que vai cursar Educação Física em Bauru, era o 46º entre os candidatos às 42 vagas do trajeto. Mesmo assim, estava otimista e chegou a montar uma barraca de acampamento na quadra do ginásio de esportes. De quebra, levou a namorada para passar o tempo.
Maria Eduarda Barella, 18, vai cursar Direito na faculdade Estácio de Sá. “Sou a 17ª na lista. Acho que estou dentro”, brincou.
Para passar o tempo, alguns grupos de universitários jogavam baralho, conversavam e contavam piadas. Pelo menos numa roda algumas latinhas de cerveja foram avistadas.

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Proprietário e Editor do Jornal Debate