PF fecha jornal de Marília

CERCO — Polícia Federal suspendeu as atividades do jornal “Diário de Marília” em operação na última terça

A Polícia Federal lacrou e suspendeu as atividades do “Diário de Marília”, jornal que pertence ao grupo CMN — Central Marília Notícias. A operação, batizada de “Miragem”, cumpriu mandados de busca e apreensão na última terça-feira, 24, além de prender o contador Antonio Celso dos Santos, ex-marido de Sandra Maria Norbiato, que figura como sócia da CMN. Há cinco meses, as duas emissoras de rádio do grupo — a Dirceu AM e a Diário FM — já haviam sido lacradas.
A determinação de suspender as atividades do “Diário” por tempo indeterminado partiu do Tribunal Regional Federal (TRF) da 3ª Região. A segunda fase da operação “Miragem”, denominada “Quinto Mandamento”, teria sido deflagrada por denúncias de coação a testemunhas no processo que apura uma suposta organização criminosa a partir da CMN.
A presença da Polícia Federal aconteceu no momento em que os funcionários do “Diário de Marília” trabalhavam na preparação da edição do dia seguinte. Os policiais ficaram cerca de duas horas na sede da CMN. Os jornalistas foram dispensados e as atividades do jornal foram suspensas por ordem judicial. Até o site da empresa foi retirado do ar.
Embora as investigações estejam sob sigilo, sabe-se que a ação apura a real propriedade do grupo CMN. A família do deputado estadual Abelardo Camarinha (PSB), ex-prefeito da cidade, seria a verdadeira dona do empreendimento jornalístico.
O delegado Luciano Menin admitiu à imprensa que pessoas que faziam parte do comando da empresa estariam sendo utilizadas como “laranjas” no quadro sociewtário. “Mas as investigações seguem sob sigilo e não posso fornecer mais detalhes”, disse Menin.
Além disso, a Justiça Federal também investiga o possível crime de evasão criminosa de divisas, já que um dos investigados realizava transações financeiras com empresas citadas na “Operação Lava Jato”.
O empresário Antonio Celso dos Santos foi preso durante a operação e está na Casa de Detenção de Marília. Ele é acusado de ameaçar de morte sua ex-mulher, Sandra Mara Norbiato, que figura como proprietária do grupo CMN. Ele prestou depoimento durante mais de cinco horas, mas negou ter ameaçado Sandra ou ter ligações com pessoas envolvidas com o “Diário de Marília”. O quinto mandamento, que é o nome da operação policial, diz “não matarás”.
Em nota, a empresa qualificou a operação de “arbitrária, violenta e desnecessária” e anunciou que está adotando providências para restabelecer suas atividades.

Violência

O “Diário de Marília” teve uma história política tumultuada nos últimos anos. Com uma linha editorial violenta contra a família Camarinha, ele foi incendiado em 2005 e o crime foi atribuído a retaliações políticas.
No ano seguinte, um dos filhos do deputado — Rafael Camarinha, de apenas 23 anos — foi assassinado e Abelardo atribuiu o crime ao grupo que comandava a rede CMN.
No ano passado, numa negociação surpreendente, o “Diário” mudou de dono. Da noite para o dia, a direção do jornal, antes crítica de Camarinha, foi totalmente modificada e até reportagens contra o deputado foram retiradas do arquivo na internet. O deputado Abelardo e seu filho, o ex-prefeito Vinícius Camarinha, negam possuir cotas no quadro acionário do grupo jornalístico.


Deputado nascido em
S. Cruz é investigado

Deputado Abelardo Camarinha, em reunião na Assembleia Legislativa
Deputado Abelardo Camarinha, em reunião na Assembleia Legislativa

Nascido em Santa Cruz do Rio Pardo, onde o pai foi dono de um cartório, o deputado Abelardo Camarinha é um dos focos da “Operação Miragem”, que lacrou as rádios Dirceu AM e Diário FM há cinco meses e, na última terça-feira, 24, suspendeu as atividades do “Diário de Marília”. Ele nega ter ligações com o grupo jornalístico.
Abelardo teve uma carreira política meteórica. Prefeito de Marília por três mandatos, foi ainda deputado federal por dois mandatos. Atualmente, ocupa uma cadeira na Assembleia Legislativa de São Paulo pela terceira vez.
Embora negue sua vinculação com o “Diário de Marília”, Camarinha teve o mandato de deputado cassado no início do ano passado por crime eleitoral relacionado ao abuso do poder econômico pelo uso das duas emissoras de rádio e do jornal para se eleger. Ele continua como deputado até que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) julgue seu recurso.
Camarinha sempre foi visto como real proprietário da rede CMN, que teria o ex-dono, Carlos Francisco Cardoso, um ex-bancário aposentado, como seu “laranja”. Entretanto, Cardoso rompeu com o deputado e durante anos permitiu uma linha editorial violenta contra a família, quando o jornalista José Ursílio era o responsável pelo “Diário”. Em 2011, Cardoso vendeu o grupo e Ursílio foi praticamente expulso da empresa, que voltou a ser dócil para o grupo de Camarinha.

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