Sapateiro, profissão que ainda resiste à extinção

Segundo Alessandro, as sapatarias modernas não usam pregos nos reparos: o segredo é a colagem do couro

Sapatarias quase não existem mais, mas os poucos
profissionais estão se adaptando para evitar extinção

Alessandro e o filho Matheus no interior da pequena sapataria
Alessandro e o filho Matheus no interior da pequena sapataria

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Ninguém duvida que sapateiro é uma profissão em extinção. Nem mesmo Alessandro Ferreira de Britto, 42, dono de uma sapataria na rua Farmacêutico Alziro Souza Santos, a pouco mais de uma quadra da ponte sobre o rio Pardo. Mas ele resiste adaptando o negócio a um comércio que conserta e restaura todo produto fabricado em couro, inclusive jaquetas, pastas, malas e, claro, calçados. O alento é que, na crise, a profissão ganha uma sobrevida.
Alessandro podia ter outra profissão, mas a verdade é que gosta do que faz. “Comecei aos 11 anos, trabalhando e aprendendo numa fábrica de calçados”, conta. A fábrica era do cunhado e Alessandro foi o primeiro funcionário. Chegou a gerente quando a fábrica cresceu, mas voltou para a oficina por decisão pessoal. “Aqui é minha vida”, garante.
Virou, enfim, “craque” do manuseio do couro. Em 1999, já casado e com filhos, resolveu tentar a sorte em Palmas, no Tocantins. A cidade, totalmente planejada, tinha apenas 12 anos na época e atraía toda sorte de aventureiros e profissionais em busca do sucesso. Alessandro abriu uma sapataria e teve dificuldades no início. “É que eu fabricava chinelos durante os primeiros quatro meses, mas depois descobri que a estatura das pessoas que chegavam à cidade era baixa. Então, me especializei em consertos e deu certo”, conta. Ficou dois anos em Palmas, quando a saudade da “terrinha” falou mais alto.
De volta a Santa Cruz do Rio Pardo, abriu uma sapataria que batizou de “Ebenezer”, onde trabalha com um dos filhos. Alessandro concorda que o sapateiro é uma profissão que fatalmente será extinta. “Na verdade, consertar é um dom. Eu, por exemplo, sempre fui aquela criança que consertava tudo em casa, desde equipamentos à parte elétrica”, conta. Hoje, em casa, ainda é ele quem faz todo tipo de reparo.

Alessandro, durante o trabalho em sua loja
Alessandro, durante o trabalho em sua loja

No ramo de calçados, não é diferente. Porém, segundo Alessandro, aquele conceito antigo de sapateiro com o martelo na mão e um punhado de pregos na boca praticamente não existe mais. “A própria indústria não tem mais interesse no conserto, pois deseja vender cada vez mais. Os maquinários da sapataria hoje também são diferentes. Tudo é baseado na colagem”, explicou, lembrando que a química tem um papel fundamental. “Ela é necessária para transformar a borracha em PVC”, contou.

Crise ajuda…

Alessandro admite que a recessão econômica beneficia, de certa forma, o ramo de sapateiro. É que, sem dinheiro, as pessoas recorrem ao conserto ao invés de comprar um novo calçado. “É muito mais em conta consertar. Além disso, as pessoas se apegam a alguns sapatos e estão consertando cada vez mais”, afirmou.
Segundo o sapateiro, um calçado é feito para durar muitos anos, uma vez que o couro pode resistir até três décadas. O problema é o uso errado e a falta de manutenção. Ele conta, como uma “dica”, que o calçado deve ganhar uma proteção no solado assim que ele começar a ficar “riscado”. Esta “prevenção” pode ser trocada periodicamente, com o calçado permanecendo novo. “Mas o grande segredo da durabilidade é a hidratação. O couro, na verdade, é uma pele e precisa ser hidratada. Eu costumo aconselhar meus clientes a passar algum tipo de creme para hidratação. Aquele calçado que fica nas vitrines ou no guarda-roupas fatalmente vai ressecar e pode se quebrar”, conta o experiente sapateiro.
Os consertos de calçados femininos são a maioria no comércio de Alessandro. Afinal, no inverno as botas deixam as prateleiras. “No verão as pessoas recorrem à oficina mais para consertar a colagem, principalmente dos tênis”, disse.
Tênis? Sim, para se adequar à realidade da profissão em extinção, Alessandro ampliou os produtos a serem reparados e, hoje, conserta malas, pastas, jaquetas, capa de motos ou de volantes, bolas, bolsas e todo tipo de objeto que usa couro. “As máquinas das costureiras convencionais não aceitam couro”, conta.
Nesta adaptação, o sapateiro também está se especializando em correções no calçado para pessoas que sofreram algum tipo de cirurgia e possuem um membro menor do que o outro. “O médico faz a receita e a gente providencia a adaptação no calçado”, conta.


FIM — O sapateiro reconhece que profissão está fadada à extinção
FIM — O sapateiro reconhece que profissão está fadada à extinção

Sapataria tem local
próprio para doação

SOLIDARIEDADE — Comércio tem local para doações de calçados usados
SOLIDARIEDADE — Comércio tem local para doações de calçados usados

Manter a profissão milenar, que começou com a fabricação artesanal de sandálias muito antes da era cristã, é o grande desafio para os sapateiros do século 21. Por isso, a necessidade cada vez mais forte de ampliar o leque dos consertos.
Mas Alessandro Ferreira de Britto não apenas se adaptou aos tempos como iniciou um trabalho social. Apesar do pequeno estabelecimento, ele criou um depósito de calçados usados para doações. Numa armação de ferro, as pessoas deixam seus calçados velhos enquanto outras, necessitadas, podem escolher o modelo e retirar o par, sem qualquer custo.
Alguns clientes do sapateiro, por sinal, já sabem da doação e levam calçados à loja. “Mas também uso aqueles calçados cujos clientes não buscam há mais de ano. Aí tudo vai para doação”, explicou.
Em alguns casos, o sapateiro faz pequenos reparos nos calçados antes deles ganharem um novo dono. O movimento, segundo ele, é diário, muitas vezes sem que o comerciante acompanhe. “As pessoas entram e saem, deixando ou levando calçados”, conta, entre um conserto e outro.

Sobre Sergio Fleury 4727 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate