Aos 85 anos, loja antiga ainda tem válvulas de rádio à venda

LAMPIÃO — Valdemir, funcionário com 41 anos “de casa”, mostra vidros para lampiões

“Casa Garcia” surgiu em 1932, primeiro como açougue e
depois no ramo de “secos & molhados”, sempre no mesmo lugar

Ana Maria e "Tivé" num canto da loja onde existe uma balança antiga ainda em funcionamento
Ana Maria e “Tivé” num canto da loja onde existe uma balança antiga ainda em funcionamento

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

As prateleiras de madeira, a balança Filizola e produtos que nem são mais fabricados denunciam que a “Casa Garcia”, no calçadão da rua Conselheiro Dantas, no centro de Santa Cruz do Rio Pardo, é uma das lojas mais antigas da cidade. Fundada em 1932 como açougue, mas que rapidamente ganhou a forma que tem hoje, ela ainda mantém a nostalgia do passado, inclusive com produtos que dificilmente são encontrados no mercado. A loja, por exemplo, ainda possui estoque de válvulas de rádios antigos ou fitas “K7” de gravadores.
Comandada há muitos anos pelo comerciante Francisco José Wolf Santos, 66, o “Tivé”, cujos pais eram tradicionais no comércio de Santa Cruz, a “Casa Garcia”, na verdade, foi fundada pela família da mulher dele, Ana Maria Valério Garcia Santos. “A loja começou como açougue pelos meus avós e depois passou para o comércio de secos e molhados. Aos poucos, começou a vender de tudo”, conta Ana Maria.

Duplicata de 1952 está emoldurada em quadro
Duplicata de 1952 está emoldurada em quadro

O avô e o pai de Ana Maria tinham nomes quase iguais e o mesmo apelido — “Guiné” —, que praticamente foi incorporado à loja. “Vai lá no Guiné que tem”, dizia-se nas ruas naquela época. Era naquele enorme barracão que Ana brincava com as duas irmãs na infância.
Aliás, vender de tudo também foi uma tendência durante muitas décadas no comércio de Santa Cruz do Rio Pardo. O coronel Tonico Lista, por exemplo, que governou a cidade no início do século XX e era dono da loja “Rainha do Sertão”, vendia de alimentos a roupas e até gasolina ou querosene.
A “Casa Garcia”, segundo Ana Maria, não foi diferente. Tinha de tudo, de materiais de construção a aparelhos eletrônicos. “Meu pai gostava muito de música e, por isso, também vendia instrumentos. Tinha pandeiro, violão, reco-reco, acordeon ou castanhola. Aliás, as fanfarras das escolas compravam os instrumentos na loja”, conta.

Tabela de preço tem meio século
Tabela de preço tem meio século

“Tivé” lembra que era outra época, da qual muitos têm saudades, inclusive ele. “O pessoal pagava a conta quando colhia a safra. Havia as famosas cadernetas, onde eram anotadas as compras”, lembra Wolf.
O movimento até a década de 1970 era muito forte aos sábados. “Era quando chegava o pessoal dos sítios. A loja ficava cheia até o final da tarde”, conta Ana Maria. “E isto fora os cachaceiros”, acrescenta Tivé. “É que a turma amiga do Guiné ficava num canto, com uma garrafa e um violão. Era o dia inteiro”, diz, rindo.
O setor de rádios, segundo Tivé, prosperou por causa de um antigo funcionário, Polidoro Monteiro, o “Dolla”, que se aposentou na loja. “Ele era professor no rádio e tinha até uma pequena oficina numa parte da loja. Vendia muitos aparelhos naquela época e até hoje a loja possui as velhas válvulas em estoque”, conta Tivé.

TRADIÇÃO — Ana Maria (centro) posa com as duas irmãs na “Casa Garcia”, em foto provavelmente de 1957
TRADIÇÃO — Ana Maria (centro) posa com as duas irmãs na “Casa Garcia”, em foto provavelmente de 1957

Aposentado desistiu de
concurso e segue na loja

Valdemir mostra antigas válvulas para rádios
Valdemir mostra antigas válvulas para rádios

A “Casa Garcia”, por ser uma das lojas mais antigas de Santa Cruz, teve muitos funcionários que se aposentaram em sua história. Um deles, Valdemir Chagas de Abreu, 56, continua atrás do balcão. E lá se vão 41 anos. “Foi meu segundo emprego”, conta, feliz com a trajetória.
Valdemir foi contratado pelo antigo dono, Ginez Garcia Fernandes, filho do fundador. Se acostumou tanto na loja que chegou a ser aprovado em concursos públicos e desistiu na última hora. “O salário público era menor, mas eu podia fazer carreira. No entanto, optei por continuar na loja”, conta.
Abreu ainda viveu a época em que a loja vendia rádios e instrumentos musicais. “A gente ficava até 18h aos sábados, quando tinha um grande movimento do pessoal da zona rural”, lembra. “Era comum marcar tudo numa caderneta e o pessoal pagava depois da safra”, lembra.
Como existe há 85 anos, produtos que não são mais fabricados continuam no estoque da loja. É o caso de vidros para lampiões ou válvulas para rádios. Aliás, há caixas lotadas com diversos modelos de válvulas. E, por incrível que pareça, de vez em quando aparecem compradores, especialmente colecionadores de grandes centros.
Valdemir também lembra que a “Casa Garcia” vendia até peças de automóveis. “Mas já eram antigas. Nos anos 1970, por exemplo, vendia-se peças das décadas de 1940 ou 1950. Muita gente comprava”, diz.
A antiguidade, aliás, transforma a “Casa Garcia” num ambiente “cult”. Há livros com o preço das mercadorias de 50 anos atrás. Numa das paredes, há uma nota promissória de 1952, da venda de uma bicicleta. O cliente levou o produto em maio e assinou o documento para quitar a dívida em dezembro.
Os tempos eram assim.

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Proprietário e Editor do Jornal Debate