Um tesouro histórico pode sair da Câmara

Livros históricos de 1909 até 1947 podem ser ‘doados’ à Assembleia Legislativa

Livros do século passado serão
oferecidos à Assembleia Legislativa

Edição de 1947 relata os trabalhos do deputado santa-cruzense Leônidas Camarinha
Edição de 1947 relata os trabalhos do deputado santa-cruzense Leônidas Camarinha

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Na tarde da última quarta-feira, 11, funcionários da Câmara Municipal de Santa Cruz do Rio Pardo tiravam a poeira de enormes livros, alguns já arranhados pelo tempo. São edições encadernadas contendo atas, discursos e relatos de sessões da Assembleia Legislativa de São Paulo, que há muitos anos foram doadas à Câmara. O presidente Marco Antonio “Cantor” Valantieri (PR) pediu que os livros sejam oferecidos de volta à Assembleia paulista. Segundo os funcionários, não há espaço no enorme prédio inaugurado há cinco anos.
O que os responsáveis pela Câmara provavelmente não sabem é que os livros trazem discursos, projetos e relatos de deputados estaduais de Santa Cruz do Rio Pardo eleitos antes e imediatamente após o Estado Novo, com o fim da ditadura Vargas, e até mesmo no início do século XX. E tudo isto consta nos livros.
O município já teve deputados até na época do Império, mas não há relatos tão ricos como os livros que podem deixar o arquivo da Câmara. Aliás, eles devem ter sido doados exatamente porque retratam os trabalhos de parlamentares eleitos pela cidade.

Francisco de Paula Abreu Sodré foi deputado estadual em 1909
Francisco de Paula Abreu Sodré foi deputado estadual em 1909

O mais antigo, ao menos entre os que estavam na mesa da antiga biblioteca do Legislativo na tarde de quarta-feira, data de 1909 e traz os nomes de personalidades importantes da história de São Paulo, como Júlio Mesquita, Alfredo Pujol e o líder pirajuense Ataliba Leonel. No entanto, também era deputado o médico Francisco de Paula de Abreu Sodré, considerado o segundo “prefeito” da história de Santa Cruz, cuja atuação consta no livro.
Sodré foi o líder político que sucedeu Batista Botelho no início do século XX. Foi ele o responsável pela construção do ramal ferroviário entre Santa Cruz e Bernardino de Campos, passando por uma de suas propriedades rurais — cujo povoado mais tarde ganhou o nome de “Sodrélia”, em homenagem ao político.
Francisco Sodré foi deputado estadual a partir de 1907, cargo que acumulou com o de presidente da Câmara de Santa Cruz, fato que era permitido na época. Ele foi pai, entre outros filhos, dos ex-deputados Antônio Carlos Abreu Sodré e Roberto Costa de Abreu Sodré. Este último foi, ainda, governador de São Paulo e ministro das Relações Exteriores. Francisco Sodré perdeu a liderança política para Tonico Lista.
No acervo há, ainda, livros da Assembleia de 1930 e vários volumes da legislatura de 1947. Este ano, por sinal, foi importante para a história de Santa Cruz, uma vez que a partir de 1945 o País saiu da ditadura de Getúlio Vargas e respiraria ares democráticos pelos próximos 19 anos.
Os livros deste período mostram, inclusive, os trabalhos da Assembleia Constituinte, cujos deputados elaboraram a Constituição paulista promulgada em 9 de julho de 1947. Entre eles está o santa-cruzense Leônidas Camarinha, um dos maiores líderes da história de Santa Cruz. Naquele mesmo ano, o grupo do deputado elegeu Lúcio Casanova como prefeito de Santa Cruz, na primeira eleição democrática após o Estado Novo.
Mas Camarinha, de acordo com os textos das sessões, tinha a companhia de outros nomes conhecidos na região. Um deles era o deputado Lino de Mattos, que mais tarde se tornou senador da República. Embora nascido em Ipaussu, Lino gostava de dizer que era santa-cruzense. Em 1948, junto com Camarinha, ele inaugurou a rádio Difusora. No ano seguinte, seria senador por dois mandatos consecutivos.
Os livros da Assembleia trazem ainda pronunciamentos do deputado Sylvestre Ferraz Egreja, que mais tarde seria eleito deputado federal por várias legislaturas. Ferraz Egreja foi o grande líder político de Ipaussu.

Arquivo

Valor histórico

Em 1949, entre políticos, Camarinha está ao lado do senador Lino de Mattos
Em 1949, entre políticos, Camarinha está ao lado do senador Lino de Mattos

O assessor parlamentar José Eduardo Catalano confirmou que a intenção da Câmara Municipal é consultar a Assembleia Legislativa de São Paulo sobre o interesse em receber os livros como doação. “O problema é que no nosso arquivo os livros vão se estragando com o tempo”, explicou.
Segundo ele, o presidente da Câmara, Marco “Cantor” Valantieri (PR), implantou um novo setor de “arquivo morto” para guardar documentos e determinou que vários armários sejam esvaziados.
O problema é o valor histórico para o município dos relatos dos primeiros deputados estaduais de Santa Cruz do Rio Pardo. Consultado, o historiador Celso Prado antecipou que tem interesse em receber os livros como doação da Câmara. No entanto, ele considera a decisão de desfazer das obras “uma falta de zelo pela memória de Santa Cruz”.

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