Mapas antigos mostram a imprecisão ‘sertaneja’

Os historiadores Celso e Junko pesquisaram mapas antigos da região de Santa Cruz do Rio Pardo

Informações de mapas do século XIX
eram usadas para registros de terras

Documento de terras datado de 1882
Documento de terras datado de 1882

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Imagine a dificuldade de se desenhar um mapa nos séculos XVIII ou XIX, quando não havia aviões ou aparelhos próprios para descrever uma área. Pois eles eram feitos à mão, geralmente por bandeirantes e sertanejos que atingiam regiões inexploradas através de barcos ou cavalos. É por isso que os mapas sofreram drásticas alterações ao longo dos anos, atingindo a perfeição no século 21, quando o GPS é capaz de localizar uma pessoa em qualquer ponto do planeta. A região de Santa Cruz do Rio Pardo durante séculos foi descrita em mapas como “desconhecida” e “habitada por índios ferozes”.
Os historiadores Celso Prado e Junko Sato Prado possuem um vasto arquivo digital de mapas descrevendo rios e até ferrovias no Estado de São Paulo. Um deles, de 1862, curiosamente mostra rios de forma imprecisa. Era um mapa oficial da “Província de São Paulo”, como o Estado era chamado na época do Império. Segundo Celso Prado, muitas vezes a troca de nomes de rios era proposital para possibilitar o registro irregular de terras por herdeiros das sesmarias, mesmo depois da “Lei das Terras” de 1850, que estabeleceu novos critérios para a posse de propriedades no sertão brasileiro.
As informações eram tão imprecisas que o rio do Peixe, que nasce na região de Bauru, era assinalado como afluente do rio Paranapanema, quando, na verdade, deságua no Paraná. Nogueira Cobra já mostrava esta confusão em sua obra “Em um Recanto do Sertão Paulista”, de 1923. Segundo ele, os moradores do sertão paulista não sabiam exatamente para onde corria o rio do Peixe. Em outros mapas, o nome do rio é erroneamente trocado por “Turvo”.

“A PROVÍNCIA” — Mapa de São Paulo da época do Império traz imprecisões, omite o Pardo e mostra trajeto errado do rio do Peixe
“A PROVÍNCIA” — Mapa de São Paulo da época do Império traz imprecisões, omite o Pardo e mostra trajeto errado do rio do Peixe

 

José Theodoro de Souza e filhos
José Theodoro de Souza e filhos

A confusão, aliás, rendeu fortunas. Segundo Celso Prado, um dos genros do desbravador José Theodoro de Souza, o grande bandeirante que chegou à região nos idos de 1850, conseguiu registrar uma imensidão de terras com informações desencontradas. É que antigamente não havia um critério científico para as demarcações e era comum, nos cartórios, uma propriedade começar “ao pé de uma árvore” e terminar em um “espigão” qualquer.
O genro era Francisco Paula Moraes, que depois rompeu com o sogro. “A posse dele foi superior até mesmo a de José Theodoro. Ele vendeu terras, inclusive, para o deputado santa-cruzense José Emgídio Piedade”, disse Celso.
Francisco chegou a procurar o Império, no Rio de Janeiro, para obter autorização para o registro das terras, uma vez que o prazo da “Lei da Terra” já havia expirado. Não conseguiu, mas saiu da corte real com um papel que, na verdade, era um protocolo de sua visita. “Com este papel, ele fez o registro diretamente a um juiz de Lençóis Paulista, contando com a ajuda do cartorário José Jacob Molitor, com as divisas erradas do rio do Peixe. O governo só descobriu esta falha dois anos depois, quando Francisco foi assassinado”, contou Celso Prado. Mas o registro irregular de mais de 500 mil alqueires foi mantido. Posteriormente, toda a área foi fracionada e vendida.

Estação ferroviária da Sorocabana em Santa Cruz foi inaugurada em 1908, mas cidade deveria ser o início da "Ferrovia do Peixe", que não saiu do papel
Estação ferroviária da Sorocabana em Santa Cruz foi inaugurada em 1908, mas cidade deveria ser o início da “Ferrovia do Peixe”, que não saiu do papel

Sonho da ferrovia

O rio do Peixe, embora próximo ao município, parece não fazer parte da história de Santa Cruz do Rio Pardo. No entanto, o nome do rio consta em diversos documentos relacionados às primeiras décadas de povoamento da cidade.
A ligação mais forte talvez tenha surgido no final do século XIX, quando um projeto previa uma nova linha férrea entre Santa Cruz do Rio Pardo e o Paraná. A “Ferrovia do Peixe” teria seu início exatamente em Santa Cruz, para euforia dos coronéis da época, e percorreria o leito do rio até as barrancas do rio Paraná.
Celso Prado contou que o tronco da Sorocabana estava previsto para passar em Santa Cruz desde 1887 e o projeto foi ratificado pelo novo governo republicano em 1889, quando o Império foi deposto. Dez anos depois, o traçado da Sorocabana foi alterado e Santa Cruz só seria contemplada com um ramal até Bernardino de Campos, mesmo assim construído com recursos do próprio município
O fato nem preocupou tanto as autoridades de Santa Cruz porque todos acreditavam na viabilidade da Ferrovia do Peixe. Com ela, a cidade seria um importante entroncamento ferroviário. O ambicioso projeto levava em conta futuras hidrovias, já que seguiria o rio do Peixe cortando dois estados.
A crise, porém, mudou todos os planos. A Sorocabana foi encampada pelo governo em 1904, sendo posteriormente arrendada para o consórcio franco-americano “Raiway Company”. O ramal em Santa Cruz foi inaugurado em 1908, provocando o endividamento da cidade por décadas. Já a “Ferrovia do Peixe” ficou nos sonhos dos coronéis.

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Proprietário e Editor do Jornal Debate