No tempo dos coronéis

O historiador Celso Prado

Historiadores lançam, até o final do ano, um livro sobre a
história dos poderosos coronéis que mandavam em S. Cruz

POSE DO CORONEL — Foto diferente de Tonico Lista, extraída de uma capa do jornal “O Contemporâneo” de 1916

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

A história dos coronéis de Santa Cruz do Rio Pardo, ampliada e com detalhes inéditos. Esta é a proposta do casal de historiadores Celso Prado e Junko Sato Prado, que pretende lançar ainda neste ano um livro específico sobre a trajetória dos personagens importantes de um período de “mandonismo” no município. Claro que a obra inclui a história tida como a mais fascinante de todos os coronéis, a de Antônio Evangelista da Silva, o “Tonico Lista”.
Segundo Celso Prado, Santa Cruz do Rio Pardo tem, talvez, a mais rica história do coronelismo do Estado de São Paulo. “Com toda certeza é a cidade onde o coronelismo foi mais forte. Isto aconteceu porque havia o apoio de toda a Média Sorocabana ao coronel Ataliba Leonel, que tinha uma ligação com o Júlio Prestes. Os feudos de Palmital em diante eram disputados pelos coronéis”, contou.
A patente de coronel naqueles tempos, na verdade, surgiu em 1831, após a queda de dom Pedro I e a criação da Guarda Nacional. Era um posto colocado à venda pelo governo, para alguém de posses. O fazendeiro e seus parentes podiam comprar os títulos de tenente, capitão, major, tenente-coronel e coronel da Guarda Nacional. Só não estava à venda o posto de general, prerrogativa exclusiva do Exército. Com o tempo, o coronel passou a ser um cidadão poderoso no quadro político do País.

Francisco Abreu Sodré, um dos primeiros coroneís de Santa Cruz

Em Santa Cruz, por exemplo, já existiam três coronéis em 1870 — Emgydio Piedade, Joaquim Manoel de Andrade (que na época já era major) e Joaquim José Botelho. No entanto, o coronelismo se impôs como poder político a partir de 1900, atingindo seu auge com Tonico Lista.
No início do século passado, destacava-se as figuras do major Francisco de Abreu Sodré — que era médico formado no Rio de Janeiro —, Antonio José da Costa Júnior — irmão e, ao mesmo tempo, genro de Augusto José da Costa, o primeiro juiz de Santa Cruz do Rio Pardo — e Marcelo Gonçalves de Oliveira. De acordo com pesquisas de Celso Prado, alguns desses coronéis tiveram sua história “apagada” em Santa Cruz.
É o caso de Marcelo Gonçalves, que se indispôs com João Baptista Botelho e deixou o posto de chefe político da cidade. Botelho, porém, se suicidou em julho de 1902 e o poder ficou com Francisco Abreu Sodré. Neste período, segundo Celso Prado, não havia o cargo de “prefeito”, pois o líder era o intendente da Câmara. O primeiro prefeito propriamente dito foi o coronel Olympio Pimentel, que sucedeu Sodré.
O livro dos historiadores vai trazer algumas novidades sobre Batista Botelho, como as acusações de corrupção contra o coronel, por desvio de recursos do município. Batista foi casado com Guilhermina Brandina da Conceição, que após sua morte se tornou a mulher de Tonico Lista. Além disso, outra novidade é que ela teve dois filhos com Botelho, mas ambos morreram.
O suicídio do coronel também é analisado no livro. “Ele estava cercado por processos de corrupção e o juiz da época era seu adversário político. Não encontrou saída e se matou. Aliás, o secretário da Câmara na gestão dele, o major Fermino, abandonou a cidade”, conta Celso Prado. O historiador tem todos os documentos sobre as denúncias, que talvez, por falta de espaço, não estarão na edição impressa do livro. Porém, haverá uma edição digital, disponível na internet, com conteúdo estendido.

OPOSITORES — Em foto provavelmente de 1920, os opositores do coronel Tonico Lista: Cel. Cherubim Dias Chaves, Cel. Arlindo Crescêncio Piedade, Ataliba Pereira Vianna, João Dalmatti, Arlindo Ornellas Figueira, Júlio Ferreira Leite, José Ephifânio Botelho (em pé), Saul Ferreira e Sá e Pedro Manoel de Andrade (sentados)
Todos os anos, o aniversário de Tonico Lista era capa de jornal, com direito atré a fotografias e relatos sobre a festa na fazenda Mandaguary, de propriedade do coronel. Ao lado, capa da edição de “O Contemporaneo” de 8 de setembro de 1915

Relatos inéditos

Sobre Tonico Lista, o livro também vai trazer novidades, como a mudança do cenário político após a morte do coronel. Tonico foi o líder incontestável da cidade até ser assassinado em 1922 pelo soldado da Força Pública Francisco Alves. Segundo relatos de jornais da época, o crime teria sido encomendado pelo ex-ministro Cardoso Ribeiro, do Supremo Tribunal Federal, que no início da carreira de magistrado chegou a ser expulso de Santa Cruz do Rio Pardo pelo coronel.
Segundo as pesquisas de Prado, o soldado teria recebido 12 contos de réis para matar o poderoso político.
A morte de Tonico alterou totalmente a política santa-cruzense. “Houve uma união entre a oposição e a situação. Nenhum amigo do Tonico abriu a boca para reclamar sobre o júri que absolveu o soldado ou mesmo para protestar contra a morte do coronel”, contou o historiador. Assim, muitos dos aliados do coronel “pularam fora”. Segundo Celso Prado, foi o fazendeiro Lindolpho Ferdinando de Assis, antepassado do atual prefeito Otacílio Parras Assis, quem descreveu o julgamento do assassino de Lista em artido publicado no jornal “O Estado de S. Paulo”. Ele é parente do atual prefeito Otacílio Parras Assis (PSB). Antes do crime, alguns amigos antigos já haviam abandonado Tonico Lista, como o coronel Arlindo Crescêncio da Piedade.
O “acordão” pós-Tonico foi comandado pelo coronel Ataliba Leonel, de Piraju, que mais tarde forjou o major Leônidas do Amaral Vieira como novo chefe político nos anos 1920. “De 1925 até 1930, foi Leônidas quem mandou em Santa Cruz do Rio Pardo”, lembra Celso Prado. O major, por sinal, fundou a “Escola Normal”, que hoje leva o seu nome.
O livro vai trazer relatos de documentos e principalmente reportagens de jornais de circulação nacional, que publicaram com frequência notícias de Santa Cruz. As pesquisas específicas sobre os coronéis começaram em 2015 e o lançamento, a princípio, estava agendado para o centenário da morte de Tonico Lista, em 2022. No entanto, os historiadores decidiram antecipar a obra, que deverá estar pronta até o final do ano. “Posso garantir que o livro vai trazer coisas que nunca ninguém contou em Santa Cruz”, diz Prado.

Sobre Sergio Fleury 5839 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate