Um mistério desvendado: a goleada sofrida pelo campeão em 1963

MOTIVO — O ex-atacante Bravo confirme a versão do ex-goleiro Dido: o time foi intoxicado em 1963

Após ser campeã, Esportiva Santacruzese foi
‘contaminada’ em almoço e perdeu por 7×1

Dido foi campeão pela Esportiva Santacruzense

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Como pode um time campeão jogar três dias depois e perder por vexatórios 7×1? Esta pergunta ecoou durante mais de meio século, desde que a Esportiva Santacruzense foi campeã da Segunda Divisão de Profissionais em 1963. Três dias depois de conquistar o título, o time sensação do torneio estreou na Primeira Divisão e perdeu por uma goleada histórica. Para muitos, foi um mistério. Afinal, mesmo cansados e provavelmente abalados com o acidente que dias antes matou dez torcedores do clube, não era possível que aqueles jogadores inesquecíveis pudessem amargar uma derrota tão dura contra o América de São José do Rio Preto. Mais de meio século depois, o goleiro Dido contou em seu livro autobiográfico o motivo do time ter “se arrastado” em campo: os atletas teriam sido “envenenados” com uma substância colocada no almoço no último jogo do campeonato da Segunda Divisão.
Mito ou realidade, a goleada não interferiu na comemoração do título da “Segundona”, que só aconteceu em Santa Cruz do Rio Pardo no dia seguinte, feriado de 7 de Setembro. No entanto, o gosto amargo do placar se misturou às versões de que os jogadores fizeram a estreia na Primeira Divisão com uma enorme ressaca. Apesar da festa, a goleada soou como inexplicável até hoje.
Mas a versão escrita por Dido em seu livro — e confirmada pelo atacante daquele time, Bravo (leia abaixo) — mostra que os atletas foram vítimas de uma vingança na reta final da disputa do título do campeonato de 1962. Aliás, a competição foi tão demorada e complexa que só terminou em setembro do ano seguinte.

DERROTA ENIGMÁTICA — Arquibancada em Ituverava no fatídico jogo; ao fundo, a cabine da rádio de S. Cruz

Almoço indigesto

O penúltimo jogo do campeonato válido pela temporada de 1962, no dia 15 de agosto de 1963, ficou marcado pela tragédia na rodovia Raposo Tavares. A Esportiva jogou em São Caetano e venceu o Cerâmica por 1×0, passando a depender apenas de um empate no jogo seguinte. No entanto, apenas no vestiário os jogadores ficaram sabendo de que dez torcedores do clube, que viajavam de Santa Cruz para acompanhar o time, morreram num choque frontal contra um caminhão.
A decisão ficou para o dia 3 de setembro, uma terça-feira. A Esportiva precisava ao menos empatar com o Ituverava, na casa do adversário. O placar não se alterou e, pela primeira vez na história, o clube foi campeão da Segunda Divisão. Não havia tempo para comemoração e nem para voltar a Santa Cruz do Rio Pardo, pois o time iria estrear dois dias depois na Primeira Divisão, contra o América.
O goleiro Dido contou em seu livro “Querer é Poder”, lançado no início do ano, que no dia seguinte, logo após o almoço no hotel de Ituverava, antes de partir, alguns jogadores começaram a passar mal. “Chegamos em Rio Preto com vários jogadores, inclusive eu, com dor de cabeça, febre ou com os lábios rachados”, disse o ex-goleiro da Santacruzense no livro.
Segundo ele, foi um “complô”, já que a delegação ficou hospedada dois dias em Ituverava, num hotel de três andares, em frente à praça principal. “O que não sabíamos é que o dono do hotel era também o presidente do Ituverava”, escreveu Dido.
O ex-goleiro acredita que alguma substância tenha sido misturada com a comida no almoço. “Talvez salitre”, arriscou Dido, naquilo que teria sido uma “vingança” do time derrotado.
A consequência, segundo ele, foi desastrosa. “Contra o América, com dez minutos de jogo os jogadores da Santacruzense estavam com a língua de fora de tanta sede”. A derrota por um placar elástico (7×1) foi inevitável.
A delegação chegou a Santa Cruz no dia 7 de setembro de 1963, um feriado. “A recepção que a cidade nos deu é coisa que nunca irei esquecer”, disse Dido. E claro, nem a goleada de 7×1 provocada por um indigesto almoço.


CAMPEÃO! — Bravo tem um quadro, na sala de sua casa, com a fotografia do time campeão de 1962

Bravo confirma mal-estar e
ressalta a falta de reservas

Ex-atacante da Esportiva Santacruzense daquele elenco campeão da Segunda Divisão, Antonio Bravo confirma a história narrada pelo goleiro Dido, sobre a “contaminação” dos jogadores pouco antes de levar uma goleada de 7×1 do América em 1963. Aos 75 anos e morador em Santa Cruz do Rio Pardo, ele conta que os atletas mal caminhavam em campo naquele jogo e nem havia reservas no banco.
Para piorar, dois jogadores deixaram o clube logo após a conquista da “Segundona”, três dias antes da estreia na Primeira Divisão. Suíngue foi para a Prudentina, de onde partiria para uma carreira gloriosa em times como Palmeiras, Corinthians e Vasco. Zé Dias também se desligou.
“O time ficou desfalcado e com a maioria dos jogadores passando mal. No primeiro tempo até que conseguimos nos segurar, pois estava só 2×1 para o América. Mas depois, foi um desastre. No segundo tempo, o Edson andava em campo e o goleiro Dido nem conseguia enxergar mais nada”, conta Bravo, que também sentiu uma indisposição.
O ex-atacante diz que, de qualquer forma, seria difícil vencer o América em São José do Rio Preto, mas sofrer uma goleada daquelas foi algo inacreditável. O América vinha da Divisão Especial, pois havia sido rebaixado. O técnico, por exemplo, era Rubens Minelli.
Na sequência da temporada, a Santacruzense fez uma campanha irregular e só escapou do rebaixamento da Primeira Divisão nas últimas rodadas. “O problema é que nós subimos para uma divisão mais forte e não houve reformulação. Perdemos jogadores e os que chegaram não deram certo”, conta Bravo.
Uma das passagens trágicas lembradas pelo atacante em sua carreira foi o penúltimo jogo da campanha vitoriosa de 1963. O time venceu em campo, mas somente nos vestiários os jogadores receberam a notícia do terrível acidente que matou dez torcedores da Esportiva na rodovia Raposo Tavares. Um caminhão na contramão atingiu em cheio a Kombi de Santa Cruz.
“Ninguém nos avisou. Quando fomos entrando no vestiário, gritando de alegria, tinha muita gente nos esperando. Todos quietos. Percebemos que havia algo errado”, contou. Bravo disse que foi o radialista José Eduardo Catalano quem deu a notícia do acidente. “Foi uma tristeza, pois entre os mortos havia parentes de alguns de nossos jogadores”, contou o atacante.

A Santacruzense foi a campeã de 1962, cuja temporada terminou em 1963

“Brasiguaio”

Histórias à parte, Bravo disse que valeu a pena jogar futebol. Filho de paraguaios, nasceu no Mato Grosso, na fronteira com o Paraguai, e jogou em vários times. Veio emprestado do Noroeste para Santa Cruz e se apaixonou não apenas pela cidade, mas também por uma mulher. Casou, teve filhos e acabou ficando.
Aliás, Bravo se emociona quando fala do sogro, o saudoso empresário Geraldo Vieira Martins. “Eles me acolheram muito bem e eu constituí em Santa Cruz uma família maravilhosa”, afirmou.
A carreira foi praticamente interrompida quando ele teve uma lesão grave. Bravo rompeu o ligamento cruzado do joelho numa época em que isto significava abandonar as chuteiras. “Nem os médicos sabiam direito o que era isso. Quem me curou foi um médico da seleção brasileira”, contou.
Claro que Bravo ainda calçou as chuteiras, mas já como veterano, em campeonatos amadores ou até mesmo na Esportiva. “Mas já era para brincar”, conta.
O futebol, porém, nunca mais saiu do ex-atacante. Uma das netas, por exemplo, mora em Israel, onde o marido é jogador. “E ela já me deu uma bisneta”, diz, orgulhoso.

* Colaborou Toko Degaspari



Tragédia marcou
título paulista

O acidente que matou dez torcedores da Esportiva aconteceu no dia 15 de agosto de 1963, quando um caminhão FNM — com 10 toneladas e na contramão — atingiu de frente a kombi dos santa-cruzenses. A tragédia foi na rodovia Raposo Tavares, perto do município de Angatuba. Morreram Adelmo Morandim, Otorino Sartorato, Sérgio Sartorato, João Simão Ávila, José Antonio Biondo, Adalberto Manzo, José Cardoso, José Carlos de Andrade, Luiz Andrade e Antonio Benedito Andrade. No cemitério de Santa Cruz, há um monumento em homenagem aos torcedores que perderam suas vidas.

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