A revolução, pelo olhar de quem estava próximo

MEMÓRIAS — O Batalhão “Teopompo” reunido na praça Melo Peixoto, em Ourinhos, durante as batalhas da Revolução Constitucionalista

Filho de um ex-prefeito de S. Cruz contou história
da revolução em documentário filmado em 1993

Norival morreu em 2015, mas deixou gravação sobre revolução de 1932

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

O ano é 1993, dias após a celebração do Nove de Julho. O palco, o Teatro Municipal “Miguel Cury”, em Ourinhos. Foi naquele cenário que um projeto da secretaria da Cultura reuniu ex-combatentes da Revolução Constitucionalista de 1932. Todos deram depoimentos para um filme, derrubaram alguns mitos e narraram os acontecimentos da época na região. O material foi reunido em vídeos publicados no Youtube e agora parte dele foi transcrito. É uma preciosidade histórica sobre pessoas que já se foram, mas deixaram suas memórias registradas num filme.
Um destes personagens é o professor Norival Vieira da Silva, que morava em Santa Cruz do Rio Pardo na época do movimento de 1932 e cujo pai era delegado e ainda seria o prefeito da cidade. Norival morreu em 2015, aos 92 anos, mas deixou em vídeo suas impressões sobre a revolução constitucionalista.
O professor contou, por exemplo, que havia um entusiasmo contagiante dos ideais da revolução em toda a região. Em Santa Cruz, onde morava, as pessoas se alistavam no coreto da atual praça Leônidas Camarinha, onde ficava um livro sobre uma mesa. “Quando algum moço subia no coreto, todos aplaudiam. Havia pais que levavam o filho para se alistar”, contou Norival.
A guerra civil deflagrada em julho de 1932 teve frentes de batalhas em Salto Grande e Chavantes. Santa Cruz do Rio Pardo, segundo Norival, era uma espécie de “refúgio” para os combatentes. Apesar de ter apenas nove anos na época, o professor Norival sempre se lembrava de toda a movimentação com detalhes.
Ele relatou que o pai Tertuliano era dono de uma agência de automóveis franceses em Santa Cruz, das marcas Rugby e Duran, que não existem mais. Pois todos os veículos disponíveis na agência, além das peças, foram requisitadas pela revolução. “Meu pai não se magoou, pois achou que estava certo”, contou Norival.

Soldados posam para fotografia no coreto da praça central de Ourinhos

Segundo ele, Tertuliano não recebeu nada nos anos seguintes pelos atos de patriotismo. “Só papel”, lembrou.
A agência ficava na atual praça Leônidas Camarinha, ao lado do antigo posto São Cristóvão, no prédio que abrigou muitos anos depois o antigo supermercado Pegorer. “Ele transformou aquele prédio no ‘Rancho do Soldado’, onde famílias, de dia ou à noite, faziam roupas para os soldados que passavam por Santa Cruz”, contou Norival naquele documentário gravado em 1993. “Eu trabalhei no rancho junto com meus pais”, disse.
São Paulo sucumbiu às forças de Getúlio Vargas quatro meses depois. Quando um batalhão gaúcho invadiu Santa Cruz do Rio Pardo, coube ao pai de Norival receber os soldados, já que também era delegado de polícia com registro chamado de “provisionado”. “Na falta de outra autoridade, foi ele quem recebeu os gaúchos. E passada a revolução, muitos perguntavam o que seria do Rancho do Soldado, pois o local foi ponto de encontro e formador de amizades”, disse o professor. Foi aí que surgiu no mesmo local, pelas mãos da família, o famoso “Bar Paulista”.

‘BATALHÃO DOS PELADOS’ — Uma brincadeira de soldados gaúchos após invadir uma escola de Ourinhos

O estabelecimento, um dos raros que nasceu exclusivamente com a revolução de 1932, fez história na cidade e só desapareceu nos anos 1980 com a instalação do supermercado Pegorer.
O pai de Norival foi prefeito de Santa Cruz do Rio Pardo a partir de 1934, quando houve a promulgação de uma nova Constituição. No entanto, em 1937 houve o golpe de Getúlio Vargas, que telegrafou diretamente a Tertuliano com a seguinte mensagem: “O governo confia no prefeito e pede sua permanência”. O então prefeito respondeu a Getúlio, também por telegrama: “Prefeito não confia no governo e renuncia”. Em seguida, a família mudou-se para Ourinhos.
No Clube Diacuí — batizado originariamente de “Nove de Julho”, existe um monumento aos soldados constitucionalistas com uma frase de Norival: “Nesse solo tremulou bandeira das treze listas, aqui também palpitou o coração dos paulistas”.


Pedra traz inscrições de soldados paulistas

Chavantes foi um dos
‘fronts’ da revolução

Município era local estratégico para tropas paulistas
impedirem a aproximação dos batalhões getulistas

A ponte pênsil de Chavantes, destruída em 1930, foi um dos locais estratégicos das tropas na revolução de 1932 (Foto: Paulo Miguel)

O feriado de Nove de Julho, comemorado na última segunda-feira, é uma data importante para muitas famílias. É o dia em que teve início a Revolução Constitucionalista de 1932. Na região, muitos voluntários foram lutar no front instalado na cidade de Chavantes, mas também houve combates em Salto Grande. O movimento armado durou quatro meses e tinha como objetivo derrubar o governo provisório de Getúlio Vargas e convocar uma Assembleia Nacional Constituinte.
Em 23 de maio de 1932, tropas getulistas praticamente precipitaram o movimento ao sufocarem um protesto contra o governo federal na capital. Quatro jovens morreram, cujas iniciais deram origem a um movimento clandestino que em julho seria o suporte para o início da guerra: o MMDC, iniciais dos estudantes Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo.
Com o levante armado exigindo uma nova Constituição, São Paulo imaginava que teria o apoio de outros Estados, como Minas Gerais ou Mato Grosso. No entanto, os paulistas lutaram sozinhos e consideram, até hoje, a maior guerra cívica de sua história, embora o exército constitucionalista tenha se rendido em outubro de 1932.
Em Santa Cruz do Rio Pardo havia combatentes que se orgulhavam de terem participado daquele movimento. Um deles era o ex-vice-prefeito José Osiris Piedade, o “Biju”, que se alistou como voluntário nas tropas paulistas e chegou a ser nomeado tenente das tropas sediadas em Chavantes. Em 2002, Osiris participou de um desfile cívico em São Paulo em homenagem aos antigos combatentes, no bairro do Ibirapuera. Ele morreu no final daquele mesmo ano, aos 91 anos.
Há registro da revolução na imprensa de Santa Cruz do Rio Pardo. O “Santa Cruz Jornal” de setembro de 1932 cita a lista dos voluntários que acabavam de ir para o front, entre eles o então 2º Tenente José Osíris Piedade. Outra nota contava que Luiz Gonzaga d’Avila havia perdido um braço em combate e que seu irmão era “prisioneiro dos ditadores” na Ilha das Flores. O jornal trazia ainda balanços de doações para a Cruz Azul, entidade que ajudava os soldados. Na época, os santa-cruzenses doaram terrenos, dinheiro, roupas e alimentos para a revolução.

ÚLTIMA HOMENAGEM — Ex-combatente de 1932, José Osires Piedade é homenageado em São Paulo em 2002

Ponte pênsil

Propaganda do movimento constitucionalista convocando à guerra

Chavantes foi uma das frentes da Revolução Constitucionalista de 1932 por ser divisa de estado. A cidade, aliás, vivenciou movimentos políticos das décadas de 20 e 30 em São Paulo e teve a ponte pênsil “Alves de Lima” como marco de vários combates em diferentes períodos.
A ponte foi muito danificada pelos revoltosos em 1924, mas em 1930 as forças legais dinamitaram as torres de sustentação da estrutura. Uma reforma na ponte começou em setembro de 1934 e foi até novembro de 1935.
Como em 1932 não havia ainda a usina hidrelétrica de Chavantes, os soldados procuravam abrigo às margens do rio. Uma pedra foi transformada num símbolo da revolução. Nela, os soldados escreveram: “Viva São Paulo, viva o Brasil! Na beira do rio Paranapanema, onde ao longe se ouviam os ruídos das metralhadoras que, no troar das granadas, imitavam o grito do Ipiranga — independência ou morte! Assim, os soldados da Constituição derrubarão, de armas nas mãos, a nefasta ditadura no chão — 22/09/1932”.
A revolução é sufocada por Vargas em 1º de outubro de 1932, após meses de batalhas. Apesar da derrota, os paulistas conseguiram realizar parte de seus objetivos. Em maio de 1933, Vargas convoca eleições para a Assembleia Constituinte, promulgando, em julho de 1934, a terceira constituição brasileira.

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