De peito aberto!

Maria Teixeira da Costa (direita) visita Débora Marques para recolher o leite materno da semana

Banco de leite materno da Santa Casa tem poucas
doadoras, mas deverá ganhar campanha de incentivo

Maria e a estagiária Jéssica: coleta exige trabalho em equipe

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

O Banco de Leite Materno de Santa Cruz do Rio Pardo, que fica na Santa Casa de Misericórdia, possui apenas seis doadoras que se dispõem a cumprir regras e são responsáveis pelo estoque que é utilizado para alimentar crianças internadas na UTI neonatal. O alimento, o único que contém todos os nutrientes e água que o recém-nascido necessita, salva muitas vidas graças às mulheres doadoras e a um grupo de servidores que trabalha para manter o estoque de leite. No entanto, há ocasiões em que Santa Cruz precisa “emprestar” leite de Ourinhos.
O sistema, porém, deverá ganhar um programa de incentivo à doação de leite materno. Na última segunda-feira, 16, a Câmara aprovou projeto do vereador Cristiano Neves (PRB), instituindo a campanha para expandir a coleta em toda a cidade. De acordo com o projeto, a prefeitura poderá investir em publicidade, eventos e palestras para divulgar a importância da doação de leite materno e as técnicas utilizada para o armazenamento. O projeto já virou lei, pois foi sancionado anteontem pelo prefeito em exercício Benedito Batista Ribeiro (PT).
Se o sistema possui poucas doadoras, o trabalho não é pequeno e envolve equipes da Santa Casa e da secretaria de Saúde. Todas as semanas, por exemplo, Maria Teixeira da Costa Silva percorre vários bairros de Santa Cruz do Rio Pardo para coletar os frascos de cada doadora. A auxiliar de enfermagem do Centro de Saúde também é responsável por coordenar a remessa dos lotes até Assis, onde o leite é pasteurizado e retorna à cidade na semana seguinte.
Maria admite que a maioria das doadoras é de baixa renda. No entanto, ela acredita que a falta de informação contribui para este quadro. “Isto acontece porque todas as crianças do SUS passam pelo posto de puericultura, ocasião em que as mães são informadas sobre a doação. Aquelas que têm convênios para médicos particulares, muitas vezes não recebem orientações sobre isto”, disse.
A servidora disse que, em média, uma doadora consegue coletar até meio litro de leite por semana. “Mas a quantia não é tão importante, pois o ideal é o comprometimento da mãe, que entrega leite todas as semanas”, afirmou.
Maria também passa todas as técnicas de coleta para as mães cadastradas. Há restrições para mulheres fumantes ou usuárias de drogas. “Elas não podem doar de jeito nenhum. Quando se descobre isto, a mãe pode ser impedida até de amamentar seu próprio filho”, explicou. O uso de certos medicamentos também é obstáculo para doação. Mas há muitos benefícios para a mulher. “O útero volta rapidamente ao normal e a mãe também readquire o peso anterior em pouco tempo”, garante Maria.

SOLIDARIEDADE — A farmacêutica Cristiane dos Santos diz que se sente satisfeita em ajudar outras crianças

‘Mães de leite’

‘REPARTINDO’ — Débora divide o leite de Miguel, em excesso, com o banco de Santa Cruz do Rio Pardo

A dona de casa Débora Aparecida Marques, 31, moradora no Jardim Eldorado, é doadora de leite materno há quatro meses. Mãe de dois filhos, ela está amamentando Miguel e ainda divide o leite com o banco materno. Foi Débora quem tomou a iniciativa e procurou o Centro de Saúde. “É uma satisfação pessoal muito boa”, garante, “principalmente quando se sabe que um pouquinho pode salvar vidas”.
Todos os dias, Débora cumpre um ritual para a coleta. As mãos e braços precisam ser higienizados e é indispensável o uso de máscara e touca. A quantidade coletada deve ser colocada num vidro esterilizado e congelado. Débora sabe que precisa ingerir mais líquidos do que o normal. O procedimento é até divertido, garante ela, porque é acompanhado pelo filho mais velho, de 10 anos. Além disso, ela tem o total apoio do marido, que trabalha numa auto elétrica. Às quartas-feiras, um carro da secretaria de Saúde coleta os frascos em todas as residências.
No outro extremo da cidade, no bairro Jardim Paraíso, a farmacêutica Cristiane Cerqueira dos Santos, 28, resolveu dividir seu leite entre o primeiro filho, Benjamim, e o banco municipal. “Eu me interessei quando percebi que tinha muito leite. Me inscrevi e estou muito feliz em ajudar outras crianças”, diz.
A estudante de Nutrição Jéssica Cambuí Andreazzi, 21, é estagiária no sistema de coleta durante as férias na faculdade. Ela acompanha todo o procedimento e ajuda os funcionários. “Estou cursando o último ano e pretendo estudar mais a fundo esta área”, contou. “É muito bom ter a oportunidade de acompanhar de perto um programa que salva vidas”, diz.


MONITORANDO — A nutricionista Maíra Belei diz que estoque preocupa

Estoque atual está
baixo em hospital

Com poucas doadoras, o estoque do Banco de Leite Materno de Santa Cruz do Rio Pardo, que fica na Santa Casa de Misericórdia, dificilmente está alto. Segundo a responsável pelo setor, a nutricionista Maíra Belei, há semanas em que, pela quantidade pequena, o produto pasteurizado nem chega de Assis.
Há algum tempo, Santa Cruz recorreu a “empréstimos” do banco de Ourinhos. “Tudo depende da situação de alguns bebês, pois para alguns o leite materno é imprescindível, uma questão de sobrevivência”, disse. Com a falta do produto, Maíra disse que a equipe precisa selecionar as crianças.
Na última quarta-feira, 18, o estoque do Banco de Leite Materno totalizava quatro litros. “É muito baixo, mas é o que temos”, explicou. Segundo Maíra Belei, há casos de mães com bebês internados que não têm leite.
O produto requer um cuidado especial porque o leite materno é extremamente sensível ao ambiente. Maíra acredita que, com o início de uma campanha de incentivo à doação bancada pelo município, o estoque vai aumentar.

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Proprietário e Editor do Jornal Debate