Número de andarilhos cresceu na cidade após interdição de entidade

ISOLADO — Jacks Santos, que ainda resiste no prédio, reclama da falta de apoio para legalizar entidade

Após interdição da comunidade “O Samaritano”, município
não tem nenhuma instituição para atender moradores de rua

No início do ano, houve passeatas contra o fechamento da entidade

Nas últimas semanas, o grande número de andarilhos e moradores de rua avistados em Santa Cruz do Rio Pardo tem gerado apreensão entre os munícipes. Além da quantidade, o fato de parte dessa população ter migrado da região central da cidade para os bairros chama atenção. Muitos têm sido vistos pedindo esmola em vilas como Étore Cortela, Parque São Jorge e Jardim Brasília. Além de dormirem em casas abandonas e construções inacabadas, alguns montam barracas de camping em terrenos baldios. Nas redes sociais, há relatos de pessoas que dizem ter sido hostilizadas ao se negar a dar esmola.
A situação acontece seis meses após o fechamento da comunidade “O Samaritano”, entidade que acolhia idosos, moradores de rua e ex-dependentes químicos. A instituição foi interditada pela prefeitura a pedido do Ministério Público. Numa audiência realizada na Câmara Municipal, em janeiro deste ano, as autoridades ressaltaram que havia irregularidades na estrutura oferecida pela entidade, falta de mão de obra adequada e problemas na documentação. O poder público também se comprometeu a amparar as pessoas que tiveram de deixar a sede de “O Samaritano”, localizada no antigo Grande Hotel Santa Cruz, além de atender os demais casos que se surgissem a partir daquela data.

Jacks Santos, o fundador da comunidade “O Samaritano”

No entanto, de acordo com Jacks Santos, diretor da entidade, isso não tem acontecido. Ele reclama da burocracia que impede a legalização da comunidade e já admite que pode desistir definitivamente da iniciativa. “Nosso projeto é autossustentável. Não precisamos de dinheiro público para manter O Samaritano, mas precisamos somente de apoio na regularização do projeto”, desabafou na semana passada.
Jacks diz que conseguiu adiantar boa parte da papelada e que voluntários da área médica e assistência social, além de pessoal para trabalhar nos afazeres diários da entidade, já se disponibilizaram para ajudar. O problema maior estaria na exigência de adequações estruturais no prédio, como banheiro para deficientes e equipamentos que garantam acessibilidade.
“Nós pagamos um aluguel de R$ 5 mil reais graças a doações, vendas do nosso bazar e ações entre amigos. Até agora resistimos, mas, sinceramente, não sei se teremos recursos para os próximos meses”, afirma.
Apesar de não poder mais acolher os moradores de rua, Jacks segue distribuindo alimentos e roupas, principalmente nas madrugadas. Ele confirma o aumento de pessoas nessa situação. “Em nossa última contagem são 48, homens e mulheres de várias idades. E o mais triste é que alguns estavam se recuperando do vício de drogas e álcool, morando na comunidade, mas tiveram que voltar para as ruas e recaíram”, lamenta.
Jacks admite que a situação é delicada e que em alguns casos a relação com essas pessoas se torna tensa, sobretudo quando envolve dependentes químicos. “Conseguimos abrigar cerca de 80% dos que estão nas ruas, sem custo para o município. A pergunta é: por que não apoiam o projeto?”, questiona. “Um trabalho de acolhimento seria bom para o comércio, que evitaria o constrangimento dos seus clientes, e bom para os munícipes, que se queixam das constantes abordagens. Se a nossa localização for o problema, talvez a prefeitura possa juntar forças com empresários para viabilizar um outro prédio”, declarou.

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Proprietário e Editor do Jornal Debate