Tonico Lista foi dono ‘oculto’ de jornais em Santa Cruz

Como também acontece hoje, jornais enalteciam o coronel de Santa Cruz

Historiador encontra evidências de que
coronel tinha controle da imprensa

O coronel Antônio Evangelista da Silva, em foto possivelmente de 1915

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Qual o motivo que leva um homem a ser o chefe político absoluto de uma cidade durante um longo período de 16 anos? Há várias respostas, mas uma delas é o controle de jornais numa época em que não existia internet ou emissoras de rádio, nem mesmo aqueles rudimentares alto-falantes em praça pública, um meio de comunicação que só apareceria na cidade na década de 1940. Badalado pela maioria dos jornais de Santa Cruz do Rio Pardo, na verdade o coronel Antônio Evangelista da Silva, o temido “Tonico Lista”, era dono de pelo menos dois semanários. A descoberta é do historiador Celso Prado, que pesquisou informações até em publicações do Rio Grande do Sul.
Tonico foi a maior liderança política da história de Santa Cruz do Rio Pardo. Correligionário do coronel Batista Botelho, assumiu as rédeas do grupo político após a morte do antigo chefe político. A partir de 1906, conseguiu superar o grupo de Francisco de Paula Abreu Sodré e também assumiu o controle do PRP (Partido Republicano Paulista), do qual era dissidente de oposição. No ano seguinte, já era o presidente do partido e iniciou uma história de mando absoluto até ser assassinado em 1922.
Segundo o escritor José Ricardo Rios, autor de “O Perfil de uma Época” — livro sobre a história do coronel, editado pelo DEBATE em 2004 —, a partir de 1907, cercado de doutores e jagunços, Lista iniciou o poder político absoluto que entendera possuir, “para formar um dos maiores impérios políticos do interior do Estado”.

Aniversário do coronel era manchete do jornal “O Contemporâneo” em 1915

 

O jornal “A Ordem” era um dos poucos de oposição a circular em S. Cruz

De fato, o coronel Tonico Lista reinou absoluto, a despeito das denúncias de violência e assassinatos. A imprensa da época, no entanto, contribuía com sua imagem de chefe político. O jornal “O Contemporâneo”, por exemplo, dedicava manchete de capa quando Tonico fazia aniversário. De acordo com exemplares de 1915 que o historiador Celso Prado possui em seu arquivo, sempre havia fotos das festas que o coronel promovia em sua fazenda — a Mandaguary, próximo ao distrito de Sodrélia. Duas ou três páginas do jornal eram usadas para noticiar a festividade, com textos enaltecendo o político. “O coronel conquistou grande prestígio, tornando-se o chefe querido do colossal partido que hoje domina a política deste município”, diz um texto de primeira página da edição de “O Contemporâneo” de 8 de setembro de 1915. A reportagem é ilustrada por uma enorme foto de Tonico Lista.
O jornal fechou as portas em 1920 e, no ano seguinte, suas oficinas gráficas foram adquiridas por Manuel de Faria Valença, um empresário de Assis, onde já possuía um jornal. Surgia, então, “A Cidade”, na verdade usando o nome de outro jornal de Tonico Lista.

‘Prova’ no RS

A compra da tipografia de “O Contemporâneo”, para circulação do novo jornal “A Cidade de Santa Cruz”, foi noticiada pelo diário “Correio Paulistano”, de São Paulo

Segundo o historiador Celso Prado, Tonico Lista era o proprietário “oculto” pelo menos dos jornais “O Contemporâneo” e “A Cidade”. Este último, aliás, tinha praticamente o mesmo nome de outro jornal, “Cidade de Santa Cruz”, que circulou a partir de 1909 e era custeado pelos cofres do município, cujo prefeito era o coronel. Apesar de elogiar o PRP, não atacava os adversários de Tonico. Na primeira versão, “A Cidade” teve vários proprietários, como Joaquim Silvado, Sebastião Lino Marianno e José Bulcão. Em 1921, em nova roupagem, já tinha como proprietário o advogado Manoel Faria Valença, que comprou a gráfica do extinto “O Contemporâneo”. A novidade, aliás, foi noticiada pelo diário “Correio Paulistano”, um dos jornais de maior circulação em todo o Estado de São Paulo.
Celso Prado, entretanto, descobriu que todos estes jornais tinham como dono o prefeito de Santa Cruz do Rio Pardo, exatamente Tonico Lista. “Ele nomeava os editores e todo o pessoal responsável pelos jornais, mas era o verdadeiro dono”, contou Prado.
O historiador já desconfiava deste fato, pois o coronel era muito badalado nas páginas dos jornais. No entanto, encontrou uma prova na “Revista do Corpo Discente” da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Um longo estudo sobre “Violência e Imprensa no Oeste Paulista” conta que Manoel Faria Valença se transferiu de Assis para Santa Cruz do Rio Pardo, a convite do coronel Antônio Evangelista da Silva, exatamente para assumir a direção de “A Cidade”. Segundo o texto, “a antiga direção” do jornal estava a cargo de Tonico Lista.
“Manoel já tinha um jornal em Assis e costumava publicar, também naquela cidade, reportagens elogiosas a Tonico Lista”, explicou Celso Prado. O jornalista, porém, morreu um ano depois, quando a política em Santa Cruz estava tensa. Em 1922, Tonico Lista foi assassinado. Há semanas, por exemplo, Celso Prado recebeu a visita de um descendente de Manoel Faria, que buscava suas origens e leu a história no site do historiador.
Prado, entretanto, lembra que Tonico Lista, como prefeito de Santa Cruz, também permitia a circulação de jornais da oposição. Um dos primeiros foi “A Ordem”, órgão do Partido Republicado Conservador nos anos 1910 e, a partir de 1920, do Partido Municipal. Mas o mais ferrenho opositor foi “O Trabuco”, que teve a circulação autorizada pelo prefeito e vivia estampando Tonico em charges e se referindo ao coronal como “bandido” e “sanguinário”.
Segundo Celso Prado, após o assassinato de Tonico Lista, o coronel foi praticamente banido das páginas dos jornais. Repentinamente, as publicações deixaram de citar o nome do ex-chefe, sugerindo que grupos políticos teriam fechado uma espécie de “pacto” para selar a paz no município. Até mesmo uma praça com seu nome teve a nomenclatura mudada, o mesmo acontecendo em Bernardino de Campos.

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