CARTAS – Edição de 19/08/2018

‘Quanta diferença!’

Num artigo de uma revista, encontrei a descrição de uma figura política cheia de humanidade. Trata-se da presidente da Croácia, um espetáculo de simpatia, bom humor e exuberância. Chama-se Kolinda. Ela foi torcer pela equipe de seu país na última Copa do Mundo. Linda, loura, bonita vestia a camisa quadriculada em vermelho e branco e mostrou que é possível ser mulher e estar na chefia de um governo honesto.
Podemos comparar sua atuação com nossa ex-presidente e ver o abismo que existe entre elas. Dilma antipática, de mau humor, cara fechada, com ar de ameaça.
Nada a ver com a alegria da outra e, principalmente, quando se fala em caráter, integridade e postura como servidora pública. A croata foi para a Rússia pagando as despesas do próprio bolso, viajou com a torcida num vôo de baixo custo, foi aos vestiários se misturar com os jogadores, enquanto Dilma se escondia, em 2012, em seu País com medo das vaias e andou pelo mundo todo em jato da Presidência da República, tudo pago por você e por mim. Dilma chegou a desviar a rota do avião oficial em que estava porque queria jantar em Lisboa, pagando 25 mil reais por uma noite num hotel de luxo.
Uma é honesta, aquilo que o povo espera de um governante; a outra mostra uma doença clássica do mau governo, que é o descaso com o bem público, levando toda a nação a uma situação escabrosa.
Ninguém sabe como resolver a atual situação de nosso país. Para manter Lula no xadrez, vão 300 mil reais por mês, com todos os benefícios e ainda ter dois carros com chofer à sua disposição.
E ninguém está contente, ainda, porque os juízes estão aumentando mais seus salários milionários e o povo que se dane. Querem mais?
—Anna Maria Rocha (Santa Cruz do Rio Pardo)

A arma no trânsito
Nesta campanha eleitoral para presidente, um dos temas que tem gerado muita discussão é a liberação de armas. E liberar armas para quê? Para quem? Para muitos que não tem atestado de sanidade mental! E a campanha, como se fosse proibido comprar armas no Brasil. E quem é favorável a uma pessoa que não consegue um atestado de sanidade mental possa comprar uma arma e andar armado ao seu lado e de seus filhos?
A quantidade de registro de armas, no ano passado, por civis, foi de 33.031, dez vezes maior do que em 2004, quando passou a vigorar o Estatuto do Desarmamento. As mortes por arma de fogo também cresceram, 87%, de 1997 a 2016. Nossa sociedade, em plebiscito, não quer o desarmamento total. Que se dê a posse e o porte mediante muito treino e prova difícil, inclusive para policiais.
Já mostrei, no artigo “Arma estimula violência”, que Berkowitz e LePage , em 1967, observaram o que denominaram “efeito de armas”, ou seja, apenas ver uma arma pode tornar as pessoas mais agressivas e esse efeito foi verificado tanto dentro como fora do laboratório. Mostrei também que esse efeito afeta crianças, a ponto de ser aconselhável não ter arma em casa.
Em novembro de 2017, foi publicado na revista “Journal of Experimental Social Psychology”, Volume 73, o estudo “O efeito das armas no volante: os motoristas dirigem mais agressivamente quando há uma arma no veículo”, dos pesquisadores Brad Bushman, Thomas Kerwin, Tyler Whitlock e Janet Weisenberger, da Universidade do Estado de Ohio, EUA.
Dirigir carro é a atividade mais perigosa da maioria das pessoas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 1,25 milhões de pessoas morrem a cada ano como resultado de acidentes de trânsito, principalmente jovens de 15 a 29 anos. A direção agressiva é a principal causa de acidentes de trânsito, de lesões e por mais da metade de todas as mortes no trânsito (American Automobile Association).
A direção agressiva inclui excesso de velocidade, colar na traseira do veículo à frente, bloquear outros motoristas, dirigir pelo acostamento, não respeitar sinal vermelho ou placas de pare, buzinar, usar faróis excessivamente, fazer gestos obscenos e xingar ou gritar raivosamente para outros motoristas. Há ainda o motorista raivoso, aquele que usa o veículo para agredir pedestres e outros veículos.
Para medir a agressividade ou raiva do motorista diante de armas, foi utilizado um simuladores de autoescola, já que seria antiético realizar estudos experimentais de agressividade usando veículos reais na estrada. No total, foram 60 estudantes universitários, sendo 23 homens e 7 mulheres com a arma e 22 homens e 8 mulheres com a raquete. Usando a regressão de Poisson para medir os resultados, verificaram que o número de ações agressivas aumentou em 1,8 vezes, praticamente o dobro, quando uma arma estava no carro do que quando uma raquete de tênis estava no carro. Armas em carros? Nem pensar! Fica a dica para as autoridades e os cidadãos de bem!
— Mario Eugenio Saturno (São José dos Campos-SP)

Direita, volver
O dado abre uma boa reflexão: a campanha eleitoral deste ano reúne o maior número de candidatos militares dos tempos de redemocratização: 90. O que também chama a atenção é a quantidade de convocados para compor chapas majoritárias aos governos estaduais. Em São Paulo, duas tenentes coronéis comporão como vices as chapas do governador Márcio França (PSB) e do presidente licenciado da Fiesp, Paulo Skaf (MDB). No Paraná, a governadora Cida Borghetti (PP) terá como vice um coronel aposentado da PM. Qual o significado do afluxo de militares no pleito?
Tentemos formar algumas hipóteses. Primeiro, o ambiente de deterioração que acolhe a esfera política. Nos últimos tempos, a lama da corrupção tem escorrido sobre os vãos e desvãos da República, afogando protagonistas da política, da burocracia estatal e do mundo dos negócios privados. O mensalão e o petrolão (Lava Jato) compõem as duas grandes operações que, ao correr de meses, ganharam espaços midiáticos, plasmando a imagem destroçada de representantes, governantes, executivos e empresários. Pôr ordem na bagunça que virou o Brasil de ponta-cabeça, eis o apelo embutido no apoio aos militares. Que assumem conotação de profissionais sérios, de vida pacata na caserna e corajosa no cotidiano nas ruas, combatendo máfias criminosas, ainda mais quando a violência se expande nas cidades e nas áreas rurais.
Portanto, o perfil do militar é entronizado na moldura cívica do país, nesse momento em que a sociedade se mostra indignada contra costumes da velha política. Puxá-los para a seara eleitoral seria um esforço dos políticos para conferir assepsia aos partidos — desacreditados — e oxigênio às chapas. Essa é a hipótese que explica a ascensão do protagonista militar que impacta a paisagem eleitoral: Jair Bolsonaro, ex-capitão do Exército.
Deputado alvejado de críticas ao longo de 30 anos de mandato, conhecido por frases fortes, algumas de caráter machista, homofóbico e xenófobo, Bolsonaro não frequentava o ranking dos representantes prestigiados ou respeitados da Câmara. Foi catapultado ao andar de cima do protagonismo eleitoral na esteira do clamor social por limpeza na política. De repente, o acervo discursivo do capitão, considerado folclórico e de baixo nível, passou a ganhar aplausos de todos os lados. Alguns conceitos a ele atribuídos: “Bandido bom é bandido morto”; “policial bom é aquele que dá tiros, que mata”.
O capitão, cuja vida militar foi marcada por episódios vexatórios — acusado de transgressão grave ao Regulamento Disciplinar do Exército (RDE) — ganha a posição de antídoto às coisas ruins da política e, ainda, de contundente guerreiro contra o PT, sua filosofia política e seus líderes, a partir de Lula. Assim adquiriu status de opositor principal ao lulo-petismo, energizando multidões de militantes que o recebem em aeroportos, sob o grito de “mito”.
E para arrematar a posição ultraconservadora, de modo a sinalizar um recorte militarista na chapa, o capitão escolhe um general aposentado, Hamilton Mourão, que abre a campanha bolsonariana de modo polêmico, atribuindo ao negro a “malandragem” e ao índio, a “indolência”, traços de nossa miscigenação cultural. O fato é que os dois militares aposentados do Exército, formando a chapa presidencial, e os coronéis da PM, compondo chapas majoritárias nos Estados, a par de uma centena de outros de origem militar nas chapas proporcionais, constituem um fenômeno de nossa contemporaneidade política.
O arco ideológico exibe fortes traços à esquerda, desenhados principalmente pelo PT e suas extensões. Abriga, também, espaçoso habitat do centro e de suas proximidades, mas o fato novo é o adensamento da extrema direita, até então, restrita e meio escondida. Agora, seus simpatizantes aplaudem o lema: “à direita, volver”.
— Gaudêncio Torquato (São Paulo-SP)

Quem gosta de agosto?
Agosto já nasceu meio gauche: Otávio Augusto quis um mês com seu nome, meio invejoso com Júlio César, que já tinha o seu. Resolveu chamar o mês sextilis de seu e deu-lhe o nome de agosto. E ainda acrescentou um dia a mais, para não ficar menor que o julho do Júlio. Daí esses serem os dois únicos meses consecutivos com 31 dias. Mas em julho tem as férias escolares. Já agosto, que desgosto.
Como sabemos, agosto não tem feriado. Tá certo que dia primeiro é o dia do selo e que o dia 5 é o dia do Santo Osvaldo de Nortúmbria. Aliás, dia 6 é o dia de São Salvador do Mundo. Outro importante destaque é o dia 13, que é o dia do canhoto. E quando dia 13 cai na sexta feira, é um dos dias mais azarados do ano.
Em agosto já caiu muito avião. O último foi em 2014, quando morreu o candidato a presidente Eduardo Campos. O maior foi em 1985, quando um Boeing bateu no Monte Takamagahara, perto de Tóquio, matando 520 pessoas. Em agosto também ocorreram acidentes automobilísticos trágicos. Num dia 31, em 1997, morreu a princesa Diana. Em um dia 22, em 1976, morreu o ex-presidente Juscelino Kubitschek.
Em agosto ocorreram fatos históricos pra ninguém botar defeito. Em 1968, no dia 21, os soviéticos invadiram a Tchecoslováquia, episódio conhecido como o fim da “primavera de Praga”. No dia 13, em 1961, os comunistas alemães começaram a construir o muro de Berlim, maior símbolo da Guerra Fria. Em 1974, em um dia 8, o presidente americano Richard Nixon renunciou, na esteira do escândalo de Watergate. No dia 24, em 1954, Getúlio deu um tiro no peito. No dia 25, em 1961, Jânio renunciou à presidência, apenas 7 meses após ser empossado.
Elvis Presley morreu em agosto. Marilyn Monroe também. Trotsky, um dos líderes da Revolução Russa. Em 1900, o filósofo Nietzsche também foi dessa para melhor, em agosto. Até o lutador de boxe Rocky Marciano, que nunca perdeu uma luta na carreira, perdeu para agosto. Em agosto, as cachorras ficam ainda mais férteis e os cachorros brigam mais, largando mordidas para todos os lados. O governo costuma fazer campanha pela vacinação contra a raiva canina nessa época. É o “mês do cachorro louco”. Que gosto é esse de prestar atenção pra tudo o que acontece de ruim em agosto? Na verdade, trata-se apenas de superstição, uma brincadeira que acabou virando mania. Não há nenhuma razão para não gostar de agosto. Se o mês de agosto pudesse se defender, certamente citaria: “prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me estragam”. O autor da frase? Santo Agostinho.
— Daniel Medeiros (Curitiba-PR)



“Fotos do Leitor”

Aeroporto de Santa Cruz

— O aeroporto de Santa Cruz do Rio Pardo foi planejado na gestão do prefeito Lúcio Casanova Neto (1948/1951), que se empenhou para que a Vasp (Viação Aérea São Paulo, na época uma empresa estatal) fizesse escala de voo em Santa Cruz, na linha São Paulo-Presidente Prudente. A autorização foi de três pousos e decolagens por semana. Na época, a Vasp e o governo do Estado, segundo livro dos historiadores Celso Prado e Junko Sato Prado, buscavam integrar cidades menores do interior aos grandes centros, cujas linhas eram batizadas de “pinga-fogo”.
A inauguração do aeroporto de Santa Cruz do Rio Pardo aconteceu no dia 3 de abril de 1949, com o pouso experimental do avião que trouxe a delegação do Sport Club Corinthians. Entretanto, as fortes chuvas que antecederam a inauguração e o pouso da aeronave acabaram danificando a pista, que passou por reparos durante várias semanas. A inauguração oficial aconteceu em agosto de 1949. Em novembro de 1949, foi concluída a estação de embarque e desembarque, registrando no trimestre um movimento de 320 passageiros. Na década de 1960, a Vasp foi reduzindo os pousos até desativá-los completamente. Hoje o local é ocupado por casas populares. (As fotos são da coleção de Edílson Arcoleze Ramos de Castro)

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