Um museu espalhado

ABANDONO — Parte do acervo da “reserva técnica” está empilhado numa sala do antigo GTI, inclusive placa de inauguração do aeroporto de S. Cruz

Peças do museu estão empilhadas em pelo menos
três prédios, sem o mínimo de conservação adequada

Peças antigas armazenadas no chão da mesma sala estão com sinais visíveis de ferrugem

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

A tragédia que aconteceu no Rio de Janeiro, quando um incêndio no Museu Nacional destruiu uma rica parte da memória brasileira, soa como um alerta sobre o tratamento oficial à cultura no País. Os governos, todos eles, relegam setores culturais a um segundo plano, alimentando o fim dos acervos raros. Mas não é só o fogo que destrói conteúdos de museus, pois eles também são vítimas do descaso, do abandono e da falta de recursos.
Santa Cruz do Rio Pardo é apenas um exemplo. Inaugurado em 2011, no governo de Maura Macieirinha (PSDB), o “Museu Ernesto Bertoldi” praticamente não mudou seu acervo em mais de sete anos, quase seis deles sob administração de Otacílio Parras (PSB). Pior: a “reserva técnica” — que são peças mais raras, geralmente conservadas e preservadas longe do público — está espalhada em pelo menos três prédios públicos, sem manutenção e sob risco de desaparecer.
Este acervo não está exposto ao público. Há discos raros de vinil, documentos do início do século passado, máquinas de todos os tipos, armamentos e até uma placa de mármore alusiva à inauguração do antigo aeroporto de Santa Cruz, de abril de 1949. A coleção é grande e muitos objetos estão cobertos por uma fina película porosa. Outros, estão desprotegidos e sem conservação, inclusive papéis antigos.
A reportagem procurou este acervo durante duas semanas. Na tarde de quinta-feira, 6, o secretário municipal de Cultura, Frednes Botelho, admitiu ao jornal que o material está espalhado entre o sótão do museu, uma pequena sala do antigo armazém da Sorocabana — onde hoje há um salão para aulas de dança — e o porão do Palácio da Cultura “Umberto Magnani Netto”.

Sótão do museu guarda uma parte do acervo, mas o acesso do público é vedado

Curiosamente, Frednes era o chefe do museu municipal na época de sua inauguração, no governo tucano, e, inclusive, participou da implantação de uma equipe que cuidava da “reserva técnica” no prédio do antigo armazém. Hoje, porém, ele admite que não há espaço disponível para as peças, que, segundo ele, estão sendo armazenadas de “maneira improvisada”. Ele não soube dizer, contudo, há quanto tempo persiste a improvisação.
O secretário, inclusive, mostrou parte da “reserva” em dois locais. No sótão do museu “Ernesto Bertoldi”, um armário acumula sacos e papéis históricos expostos ao ambiente. No chão, há algumas caixas e malas que aparentemente são de instrumentos antigos. Nada parece estar sendo conservado e o acervo é guardado junto com materiais de limpeza.
No antigo armazém, onde funcionou durante anos o GTI (Grupo da Terceira Idade), há outro lote. A sala, segundo reconhece o próprio secretário, não é adequada. Tudo está amontoado num local sem as mínimas condições de conservação. Uma das paredes tem nítidos sinais de água escorrida, indicando que já choveu muito no local. Algumas peças estão enferrujadas. Mas Frednes garante que o acervo está protegido — na verdade, parte está embrulhado — por um material poroso e próprio para conservação. “Não há ameaça biológica ou química, mas é interessante pensar, a curto ou médio prazo, num espaço mais adequado para acondicionar estas peças”, afirmou.
Ainda no pátio do antigo GTI, há cadeiras de barbeiro e de dentista antigas, além de outros objetos, que a reportagem descobriu pertencerem ao museu. Frednes, porém, diz que o material deve ser fruto de um convênio com o Sest-Senac, mas não deu mais informações.

RARIDADE — Frednes Botelho mostra letra de câmbio da Câmara de 1912
Parede da sala do antigo GTI, que abriga parte da “reserva técnica”, tem sinais de água escorrendo

Descaso

O abandono do museu não é exclusividade do governo de Otacílio Parras. O prédio da antiga estação ferroviária da Sorocabana, por exemplo, permaneceu décadas abandonado depois que o trem foi desativado, nos anos 1960. Quando o DEBATE começou a circular na cidade, em 1977, o jornal praticamente fez da restauração do prédio uma de suas bandeiras.
Passaram-se sete prefeitos e o prédio histórico, inaugurado em 1908, se deteriorou completamente. A restauração finalmente veio na administração de Maura Macieirinha (PSDB), quando a secretária de Cultura era a professora Zildete Perez Torres Camilo, que cursou mestrado sobre museu na USP de São Paulo. Para tanto, houve a colaboração decisiva da santa-cruzense Dinah Camarinha, que na época era integrante do Condephaat, órgão da secretaria estadual da Cultura responsável pela preservação histórica.


Inaugurado em 2011, museu tem sinais de deterioração no prédio e acervo

Museu será fechado para reformas

Secretário de Cultura anuncia convênios com o Estado
para reformar o prédio do museu e construir um anexo

Paredes externas do prédio do museu também apresentam problemas

O secretário de Cultura, Frednes Botelho, reconheceu que as condições do prédio do “Museu Ernesto Bertoldi”, além do armazenamento da chamada “reserva técnica”, não são as ideais. De fato, o prédio tem infiltrações por todos os lados, rachaduras, vidros quebrados e fiação exposta em alguns locais. Está, enfim, abandonado. Há exatamente um ano uma reportagem do DEBATE denunciou as péssimas condições do prédio e mostrou, através de várias fotografias, o descaso com a conservação. Pois a situação é exatamente a mesma, inclusive com os mesmos defeitos pontuais. O vidro quebrado de uma janela, por exemplo, que aparece numa foto há um ano, nem foi substituído.
O abandono afeta diretamente o acervo exposto no museu. É o caso dos enormes painéis que contam a história de Santa Cruz em textos e fotos, cujas bases já estão deterioradas e podres. Uma das salas, exatamente aquela que deveria receber exposições itinerantes, foi inutilizada devido ao excesso de goteiras. No telhado, continua a situação de 2017, com fios elétricos expostos e entrelaçados, numa situação conhecida pelos eletricistas como “gambiarra”. Os alvarás, inclusive dos bombeiros, estão em processo de renovação.

DETERIORAÇÃO — Paredes denunciam umidade

Na tarde de quinta-feira, 6, o secretário de Cultura Frednes Botelho reconheceu os problemas estruturais do prédio, mas anunciou que convênios com o governo do Estado vão possibilitar reformas em todo o prédio. Ele aposta nos recursos para transformar o museu num local “vivo”, com interatividade com o público. Isto será possível, segundo ele, porque está prevista a construção de um anexo, que será ligado ao prédio principal através de uma passarela.
Segundo Frednes, a obra deve começar a ser licitada nas próximas semanas, quando o prédio será fechado à visitação e tudo será reformado, inclusive com a aplicação de materiais que impedem a umidade.
Na parte de trás do prédio da antiga estação ferroviária, será construído uma nova sala, que terá ligação com o prédio principal através de uma passarela. “Tudo será mais confortável para os visitantes e as peças estarão mais seguras. Na sala multiuso, haverá interação entre as pessoas que visitarão o novo espaço”, explicou o secretário de Cultura.
O prédio foi construído em 1908 para abrigar a estação ferroviária da Sorocabana, pois um ramal ligava Santa Cruz do Rio Pardo a Bernardino de Campos. Seu valor histórico é ainda maior quando se sabe que a obra foi projetada pelo famoso arquiteto Ramos de Azevedo, que construiu, entre outros prédios, o Teatro Municipal de São Paulo ou o Mercado da capital. A estação foi desativada nos anos 1960 e, até 2010, foi abandonada e se deteriorou.


AMBIENTE — Em 2009, funcionário da Cultura manuseia peças da “reserva” em sala mais adequada

‘Reserva técnica’ tinha
manutenção cuidadosa

Manuseio de objetos era feito
com máscaras e materiais especiais

Funcionário restaura LPs, usando vestimentas próprias para o trabalho

O termo “reserva técnica” começou a ser conhecido pelos santa-cruzenses em 2009, quando o projeto de restauração da antiga estação ferroviária da Sorocabana — e transformação do prédio em museu — começou a sair do papel. Na época, a então secretária de Cultura, Zildete Torres Camilo, começou a restaurar o que havia sobrado do acervo do museu, totalmente abandonado nas administrações anteriores. A restauração contou com apoio financeiro dos governos estadual e federal, mas o município precisou investir alto. A inauguração do museu “Ernesto Bertoldi” aconteceu em 2011, em solenidade prestigiada pela viúva do sertanista Orlando Villas Bôas, Marina.
Na época, a chamada “reserva técnica” estava no prédio do antigo armazém da Sorocabana, mas havia um espaço mais amplo e adequado. Os funcionários manuseavam as peças com vestimentas próprias e usavam materiais especiais para a restauração.
O local, segundo explicou a ex-secretária da Cultura na época, era provisório, já que o projeto previa transferir a “reserva técnica” para a casa do antigo chefe da estação, a alguns metros do prédio principal do museu. A ideia era abrigar as peças mais delicadas e raras em salas climatizadas, onde a conservação dos objetos estaria garantida.
No entanto, o plano não avançou porque Otacílio Parras (PSB) assumiu o município ao vencer as eleições de 2012. O museu não foi renovado e o novo prefeito anunciou a demolição do prédio do antigo chefe da estação, medida que foi suspensa pelo Ministério Público através de uma ação civil pública ajuizada em 2015. O imóvel, entretanto, se deteriorou ainda mais, praticamente selando seu provável destino.
Hoje, o museu “Ernesto Bertoldi” vive às moscas. Praticamente não há visitantes porque o acervo é o mesmo desde a inauguração, há mais de sete anos.


placas contando a história da cidade estão com as bases podres

Descaso atravessa vários governos

Peças estão no saguão do antigo GTI

Cultura nunca foi uma pasta prioritária para os sucessivos governos de Santa Cruz do Rio Pardo. Basta lembrar que o prédio histórico da antiga estação ferroviária, projetada por Ramos de Azevedo, ficou quase 45 anos abandonado a ponto de se deteriorar completamente.
Mas o acervo também nunca foi valorizado. No governo de Manoel Carlos Manezinho Pereira, parte dele chegou a ser vendido por quilo a um ferro velho e só não desapareceu porque a polícia foi informada e apreendeu as peças.
No governo seguinte, de Adilson Mira (PSDB), o acervo histórico também foi abandonado em porões de prédios públicos. Uma garrucha que pertenceu ao lendário coronel Tonico Lista, doado ao museu pelo grupo educacional Oapec, desapareceu das coleções e nunca mais foi encontrada. Em outro episódio, um quadro do pintor Acácio Gonçalves ficou desaparecido durante um ano, quando foi reencontrado na parede de um prédio alugado pelo município.

Condenado – Antigo casarão do chefe da estação etá interditado desde 2015, mas se deteriorou ainda mais; até a placa do Ministério Público foi destruída por fogo
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