‘Fake news’ é usada por vereador para aprovar moção de repúdio

MANIPULAÇÃO — João Marcelo apresentou imagem diferente da original

João Marcelo Santos exibiu imagem manipulada
para sugerir que diretor de escola ofendeu mulheres

IMAGEM FALSA — Telão da Câmara exibiu montagem de publicação no face

A Câmara de Santa Cruz do Rio Pardo aprovou na segunda-feira, 24, por unanimidade, uma moção de repúdio apresentada pelo vereador João Marcelo Santos (DEM) contra o diretor da escola “Arnaldo Moraes Ribeiro”, Rogério Pegorer Plina, nomeado pelo prefeito Otacílio Parras (PSB) desde 2013. O motivo foi uma postagem do diretor no Facebook, onde compartilhou uma frase do candidato Ciro Gomes (PDT) sobre “Bolsonaro e suas cadelas no cio”. João Marcelo considerou que a frase ofendeu as mulheres que apoiaram o comício de apoio a Bolsonaro, realizado no último dia 14 em frente ao prédio da Câmara. Mas exibiu uma imagem montada, com várias fotografias de mulheres santa-cruzenses que apoiam Bolsonaro.
Na verdade, a frase nem é de Ciro Gomes, pois pertence ao pensador alemão Bertold Brecht (1898-1956), que escreveu “a cadela do fascismo está sempre no cio” para alertar de que o terror de Hitler sempre pode ressurgir. Um dos mais consagrados dramaturgos do planeta, Brecht foi um pensador revolucionário que escreveu, por exemplo, o famoso texto “O Analfabeto Político”.
A frase sobre “cadelas no cio” ganhou destaque com o candidato Ciro Gomes, ao se referir a Bolsonaro como novo símbolo do fascismo. Imediatamente ganhou as redes sociais e foi compartilhada, entre milhares de pessoas, pelo diretor Rogério Plina em Santa Cruz. Como acontece com publicações que envolvem Jair Bolsonaro, o diretor foi alvo de inúmeras críticas.
No entanto, o autor da moção, o vereador João Marcelo Santos (DEM), apresentou em plenário uma manipulação da publicação, acrescida de fotos da manifestação pró-Bolsonaro em Santa Cruz. A montagem grotesca inseriu fotos de mulheres que participaram do comício do candidato a presidente, como se elas fizessem parte da publicação de Rogério Plina. A imagem foi colocada no telão da Câmara durante quase meia hora, numa sessão transmitida ao vivo pela rádio 104 FM. O requerimento de João Marcelo, inclusive, diz que o diretor de escola “ofendeu mulheres que participaram do evento de apoio ao candidato a presidente da República”.
“Ele ofendeu as mulheres chamando-as de cadelas no cio. Esta não é uma atitude digna de um diretor de escola. Espero que a prefeitura tome alguma providência”, disse o vereador, pedindo, inclusive, a exoneração do diretor.
A imagem manipulada chocou os vereadores. “Por ser um diretor de escola, foi uma atitude desrespeitosa. Todos nós temos mães, irmãs e tias e devemos nos colocar no lugar delas. Imagine suas fotos estampadas nas redes sociais com esta frase que me recuso a pronunciar”, disse Maura Macieirinha (PSDB), acreditando na imagem apresentada por João Marcelo, que não era verdadeira.
“Eu tinha ouvido falar, mas não tinha visto ainda estas fotos”, disse Edvaldo Godoy (DEM), imaginando que o diretor realmente teria publicado as fotos das mulheres num comício. O vereador disse que a imagem exibida no telão o convenceu a votar a favor do repúdio. “Aliás, foi dito numa reunião que o prefeito já sabe do fato e vai aguardar a aprovação da moção para adotar uma punição. O diretor está totalmente errado e o prefeito já deveria ter tomado uma decisão”, completou Edvaldo.
Luciano Severo (PRB) lembrou que o “ato praticado” pelo diretor da escolar teria sido “muito mais duro” do que a notificação do secretário de Assuntos Jurídicos para a retirada de um outdoor de Jair Bolsonaro, que custou o cargo do advogado Renato Alvim. Já Murilo Sala (SD) disse que “repudia” a atitude do diretor e defendeu que Rogério seja “repreendido” pela prefeitura. “Não podemos admitir que pessoas públicas ajam desta forma”, afirmou Murilo. “Este comportamento infeliz é uma vergonha para o município”, avaliou Joel de Araújo (PRB).

‘FAKE NEWS NO PLENÁRIO’ — O vereador João Marcelo Santos apresentou uma imagem manipulada no telão

‘Moção de desculpas’

Na semana passada, o diretor Rogério Pegorer Plina disse que ficou “surpreso” com a moção de repúdio aprovada pela Câmara. Ele explicou que apenas compartilhou uma publicação alusiva ao candidato Ciro Gomes, que por sua vez parafraseou o pensador Bertold Brecht. No entanto, disse que jamais exibiu fotos de mulheres na manifestação a favor de Jair Bolsonaro em Santa Cruz. Ele já alertou o prefeito sobre o episódio e ainda encaminhou ofício à Câmara pedindo a anulação da moção e, em seguida, a aprovação de uma “moção de desculpas”.
Segundo Plina, a manipulação envolvendo fotografias influenciou os vereadores. “A frase sozinha não se refere a mulher alguma”, disse.
Na quinta-feira, 27, o diretor apresentou à Câmara e ao prefeito Otacílio Parras (PSB) uma declaração assinada por Edmundo do Carmo Gonçalves de Lima, vulgo “Médice”, que assumiu ter manipulado a publicação de Plina, incluindo fotografias de mulheres santa-cruzenses. Edmundo, então, fez uma nova postagem com a manipulação e chamando Rogério Plina de “petista alienado”. Foi esta imagem, que jamais esteve na página pessoal do diretor, que o vereador João Marcelo apresentou à Câmara para justificar a moção.
“No calor do momento político, e por conta de uma depressão causada por um acidente, acabei fazendo uma associação errada, dando a entender que o diretor estaria se referindo às mulheres de Santa Cruz”, admitiu Edmundo num texto assinado. Ele explicou que apagou a postagem em seguida, ao perceber o erro. “Foi somente uma fake news, que inadvertidamente eu produzi e que já me arrependi”, escreveu.
Plina encaminhou o texto à Câmara solicitando que a moção de repúdio seja anulada. Por via das dúvidas, também enviou o mesmo material ao prefeito Otacílio, para se antecipar a qualquer decisão que resulte numa punição.

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