Denúncias contra padre deflagram crise na igreja católica de S. Cruz

O padre Leandro atuava na paróquia Nossa Senhora das Graças

Leandro Ferreira, que deixou a paróquia Nossa Senhora
das Graças, é acusado por vereador de assediar menores

ACUSAÇÃO — Cristiano Miranda denuncioiu o padre na tribuna

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

A denúncia de Cristiano de Miranda (PSB) contra o padre Leandro Ferreira, feita em plena tribuna da Câmara na segunda-feira, 8, caiu como uma bomba na comunidade católica de Santa Cruz do Rio Pardo. Sem mencionar o nome, o vereador acusou o padre de tentar assediar adolescentes, citando, como uma das vítimas, uma própria sobrinha. O religioso reagiu, disse que o vereador é “hipócrita” e acusou outros dois padres de “estarem por trás” das denúncias. No decorrer da semana, o parlamentar confirmou o nome do religioso.
Cristiano disse que descobriu o assédio há algum tempo. Ele disse que, segundo relatos, teriam ocorrido outros casos na paróquia Nossa Senhora das Graças, de Santa Cruz, onde o padre Leandro Ferreira atuava. Na semana passada, o padre deixou a cidade, mas negou que qualquer tipo de transferência esteja ligado às denúncias de assédio.

Padre teria conversado através de aplicativo com sobrinha do vereador

“Pode não ser ilegal, mas é totalmente imoral”, explicou o vereador, lembrando que as conversas do padre com sua sobrinha, através de um aplicativo de rede social, são as principais provas do assédio. No entanto, ao dizer que o comportamento do padre podia “não ser ilegal”, Cristiano de Miranda deixou claro que o procedimento não se refere a conversas de sexo explícito ou ataques físicos. “Mas não é normal um padre ficar mandando mensagens de ‘linda’, ‘eu te amo’, ‘quero te conhecer’, como enviou para a minha sobrinha. É revoltante”, disse o vereador na Câmara.
Ele também acusou o padre Leandro Ferreira de ter se envolvido em denúncias semelhantes em Minas Gerais, onde o sacerdote atuava. “Ele foi expulso de lá e chegou a ir para fora do País”, revelou. Cristiano fez um apelo ao bispo da diocese, dom Salvador Paruzzo, para que tome providências contra o padre.
Na mesma semana, Cristiano de Miranda procurou a Polícia Civil e o Ministério Público, quando apresentou as conversas impressas do padre com a sobrinha. Entretanto, nenhum dos órgãos decidiu investigar o caso porque não detectou infração à legislação penal. O procedimento deveria ser analisado no âmbito interno da igreja católica, mas o vereador também informou que procurou o bispo de Ourinhos, que o censurou por divulgar o caso na tribuna da Câmara. Segundo o parlamentar, o bispo contou que o padre deixou a cidade “por outros motivos”.
Cristiano divulgou as conversas na semana passada. Nelas, o padre teria mentido a idade para a adolescente de 16 anos, dizendo-se mais jovem, e demonstrou interesse pela garota, elogiando sua beleza e a convidando para sair.

Padre Leandro reagiu às acusações e disse que vai processar o vereador

‘Não houve nada’

O padre Leandro Ferreira atacou o vereador assim que soube das denúncias. Chamando Cristiano de “hipócrita” nas emissoras de rádio da cidade, ele informou que já contratou advogado para processar o vereador por difamação. “Ele vai ter que provar que se eu cometi assédio. Não houve isso, de forma alguma, e a polícia pode investiga tudo”, disse à 104 FM.
O padre confirmou que conversou com a adolescente através de aplicativos, mas negou que o tom fosse de assédio sexual. Segundo ele, ao fazer denúncias inverídicas, o vereador “demonstrou ser totalmente incapacitado para esta função”. Leandro sugeriu, inclusive, uma montagem nos diálogos. “Esta conversa aconteceu em agosto, mas não há nada que leve ao erotismo ou assédio sexual”, disse, acusando o vereador de “tentar difamar a igreja”.
Em áudio encaminhado aos fiéis da paróquia Nossa Senhora das Graças, Leandro Ferreira acusou outros dois padres de Santa Cruz — Robson e Davi — de estarem “por trás” das denúncias. “Eles estão juntos com este vereador e podem até me processar, pois agora descobri tudo”, disse, referindo-se às denúncias como “baixarias”.

Conversas do padre com uma adolescente foram exibidas pelo vereador

Filho de um padre
teve direito à herança

As recentes denúncias contra um padre reacenderam lembranças de antigos escândalos que abalaram a comunidade católica de Santa Cruz. Há quase 30 anos, por exemplo, a descoberta de um filho legítimo do padre da igreja de São Benedito ganhou até a televisão.
O padre era o cônego Joaquim Bueno de Camargo, conhecido pela rigidez moral em seus sermões. Nos anos 1980, o padre provocou polêmica e saiu na TV Globo por se recusar a batizar uma criança cujos pais não eram casados oficialmente. Joaquim morreu em 1989 e seu desaparecimento comoveu toda a cidade.
Pouco tempo depois, surgiu um filho legítimo do padre Joaquim, inclusive reivindicando direitos de herança. Como o padre pertencia a uma ordem que permite o acúmulo de bens, imóveis que estavam no nome dele — e que supostamente pertenciam à paróquia — foram transferidos para o herdeiro por imposição legal.

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Proprietário e Editor do Jornal Debate