Catalano e seus 70 anos no rádio

UMA HISTÓRIA — Catalano descerra a fita simbólica de abertura da exposição, na noite de segunda-feira

Exposição na Câmara marca as
sete décadas do comunicador no ar

O comunicador mostra aparelho de rádio de meados do século passado

Manter um programa no rádio durante sete décadas já seria um feito monumental. Mas José Eduardo Catalano, 85, fez mais: há 70 anos ele é funcionário de uma mesma emissora — a Difusora — e com o mesmo tipo de programa ininterruptamente no ar. Na segunda-feira, 29, o radialista inaugurou uma exposição no saguão da Câmara Municipal, que conta um pouco de sua trajetória em Santa Cruz do Rio Pardo, especialmente no rádio. A façanha, aliás, é considerada um recorde mundial, mas Catalano desistiu de acionar o “Guinness Book” porque teria que pagar uma taxa em libra esterlina. “Não admito pagar por um feito que conquistei”, disse durante a homenagem.
Dizer que José Eduardo se confunde com a história do rádio em Santa Cruz do Rio Pardo não é uma simples figura de retórica. Afinal, o advogado foi o primeiro funcionário contratado pela rádio Difusora, antes mesmo da emissora entrar oficialmente no ar e, inclusive, com o registro em carteira, fato raro naquela época. O ano era 1948 e José Eduardo venceu um concurso para ser locutor da nova emissora, cujos sócios eram João Queiroz Júnior, José Antônio Ramos e o deputado Leônidas Camarinha. Como tinha apenas 14 anos, o pai de Catalano exigiu dos empresários o registro do adolescente na carteira de trabalho, inscrição que ele, orgulhoso, exibe até hoje.

IMAGENS HISTÓRICAS — Exposição traz dezenas de imagens da carreira de Catalano como radialista e político

 

Coral da Special Dog apresentou ‘Bem Brasileiro’

A exposição “Um homem, uma rádio e suas histórias” ainda vai permanecer no saguão da Câmara Municipal nos próximos dias. Na abertura, na noite de segunda-feira, houve apresentação do espetáculo “Bem Brasileiro”, a cargo do coral do “Centro Cultural Special Dog”. Comandado por Daniele Montulezi, o show foi, na verdade, uma homenagem a José Eduardo porque conta, em forma de música e locução, a história da antiga rádio Nacional e os anúncios publicitários de marcas que nem existem mais, como o sabão em pó Rinso. Muitos, por sinal, já foram veiculados pela voz de Catalano. O ator circense Fernando Milani interpreta um locutor antigo, que anuncia as músicas e as propagandas.
Mas a noite teve mais emoção, quando José Eduardo Catalano contou algumas histórias de sua trajetória na rádio Difusora ou na vida social de Santa Cruz do Rio Pardo. Ele lembrou, por exemplo, que aos nove anos participou de um concurso, como aluno do antigo Grupo Escolar — hoje escola “Sinharinha Camarinha” — para escrever uma redação ao prefeito da cidade, que era justamente Leônidas Camarinha. O garoto resolveu abordar o tema do aeroclube da cidade, uma vez que na época havia a campanha “Dê Asas ao Brasil”, promovida pelo jornalista Assis Chateaubriand. Catalano, então, resolveu solicitar ao prefeito empenho para conquistar um avião para o aeroclube. Pois meses depois, de forma surpreendente para o jovem aluno, a instituição ganhava sua primeira aeronave.

APOIO — José Eduardo citou a família de Severiano Rodrigues e do despachante Toko Degaspari (à direita) como incentivadores do evento

Há uma história, porém, que Catalano preferiu não contar na noite de segunda-feira para um auditório lotado, mas que está em seu livro “Testemunha Ocular – Vi, Ouvi e Vivi”, lançado há dois anos. O fato aconteceu quando o radialista comandava o programa “Radioclube Mirim”, nas manhãs de domingo no Clube dos Vinte, transmitido ao vivo pela Difusora. Como uma espécie de “Silvio Santos” no palco, ele chamava crianças e distribuía prêmios a quem acertasse as perguntas. Uma delas era: qual o país que tem duas sílabas e uma a gente come? A resposta seria “Japão”, mas o garoto, para constrangimento de todos, respondeu em voz alta: “Cuba”.
O dono da emissora na época era o ex-prefeito Carlos Queiroz, que tirou a Difusora no ar naquele instante. Catalano ainda foi obrigado a se explicar, embora não tivesse nenhuma culpa no incidente.
Mas ele também lembrou façanhas memoráveis, como a noite em que ganhou todos os prêmios no programa “Silvio Santos”, inclusive um automóvel zero quilômetro. Já advogado, o radialista representou uma cliente do “Baú da Felicidade” e saiu-se tão bem que o atual dono do SBT (na época Silvio alugava espaços na antiga TV Tupi) convidou-o para dar sugestões para o programa televisivo. Catalano chegou a se corresponder durante alguns anos com Silvio Santos. Quando uma outra cliente do “Baú” foi sorteada, Catalano novamente se dispôs a representá-la no palco. A emissora, porém, sabia de quem se tratava e foi taxativa, repetindo uma frase que virou símbolo da última campanha eleitoral: “Ele, não!”
A exposição “Um homem, uma rádio e suas histórias” tem dezenas de fotografias da carreira de Catalano — inclusive muitas com políticos famosos, como Juscelino Kubitschek, que ele entrevistou ao vivo em Santa Cruz —, microfones antigos, aparelhos de rádio dos anos 1940 e textos sobre a trajetória do locutor.

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Proprietário e Editor do Jornal Debate