Paixão além da vida

Caixão verde do Palmeiras foi desejo do próprio torcedor fanático

Palmeirense fanático, “Zé da Beata” foi velado e
enterrado em um caixão com as cores do seu time

ÚLTIMO DESEJO — A familia cumpriu o último desejo de “Zé da Beata”, o caixão “palmeirense”

Diego Singolani
Da Reportagem Local

‘O futebol é passional porque é jogado pelo pobre ser humano”. A frase do escritor Nelson Rodrigues, além de refletir sobre a efêmera condição humana, exprime em poucas palavras a dimensão que o “esporte bretão” possui na vida das pessoas — ou até para além da vida, porque não? Na segunda-feira, 12, quem passou pelo velório municipal, em Santa Cruz do Rio Pardo, se deparou com uma cena atípica. Em um caixão pintado com as cores e o distintivo do Palmeiras, José Roberto da Silva, 56, o “Zé da Beata”, recebia as últimas homenagens de seus entes queridos.

José Roberto fez o pedido em vida

De acordo com a viúva, Solange Modesto Paixão, 46, a urna do “verdão” foi uma exigência do companheiro como sua última vontade. “O Zé me dizia que se eu não o enterrasse no caixão do Palmeiras ele voltaria para ‘puxar meu pé’”, declarou a mulher, revelando a personalidade irreverente do marido.
O exótico caixão alviverde já estava encomendado há alguns anos pelo próprio. Solange e Zé da Beata pagavam um plano de assistência funerária que incluía a tal urna.
A viúva conta que o palmeirense era um torcedor fanático, daqueles que sofrem pelo time. “O Zé não perdia nenhum jogo. Nos últimos dias, mesmo internado, assistiu as partidas no hospital”, disse.
Apesar do drama nos dias de jogos, em geral, Zé da Beata gostava mesmo era da galhofa. Segundo Solange, ele vivia colocando apelido nas pessoas e era um gozador nato. Para seu funeral, por exemplo, além do caixão pouco discreto, Zé da Beata também pediu que a família estourasse rojões. “Isso eu já achei demais, até para ele”, afirmou a viúva, que preferiu não realizar o foguetório.
Apesar da devoção de Zé da Beata ao “Palestra”, Solange, que é corintiana, diz que a rivalidade entre os times nunca foi empecilho para a relação. ”A gente brincava muito um com o outro. Nessa fase em que a doença se agravou, eu lhe fazia companhia e também via as partidas do Palmeiras com ele”, relembrou.

José escolheu o caixão carregado pelos amigos e parentes

Zé da Beata era aposentado e por muitos anos trabalhou em um guincho em Santa Cruz do Rio Pardo. Recentemente, começou a ter graves complicações decorrentes da diabetes, chegando a ser internado na UTI da Santa Casa do município quatro vezes nos últimos dois meses. Na madrugada de segunda-feira, 12, morreu no hospital. Solange, que estava com Zé da Beata há quatro anos, disse que o companheiro descansou após muita luta. “Os médicos e enfermeiros chamava ele de ‘Tigrão’, pela sua força e resistência”, afirmou.
O palmeirense também deixou três filhos. Dezenas de amigos e parentes compareceram ao funeral.

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