O gato é mesmo o vilão?

Para o veterinário Matheus Caraça, a toxoplasmose é perfeitamente evitável e pouco tem a ver com os felinos

Gestantes têm doado e até abandonado seus animais
com medo da doença; especialistas dizem ser desnecessário

Diego Singolani
Da Reportagem Local

Nas últimas semanas, pelo menos duas publicações em grupos do facebook destinados à adoção de animais em Santa Cruz do Rio Pardo chamaram a atenção pela semelhança. Ambas foram feitas por gestantes que estavam se desfazendo de seus pets. Em um dos casos, a mulher anunciava a doação de sete gatos de uma só vez. A justificativa também era a mesma: supostas recomendações médicas. As grávidas diziam que não podiam mais ter contato algum com os gatos devido ao risco de transmissão da toxoplasmose, uma infecção causada por um protozoário encontrado nas fezes dos felinos. Especialistas ouvidos pela reportagem contestam a necessidade de se abandonar os gatos, atitude que ainda agrava a situação de calamidade enfrentada pelo município com os animais de rua. Tanto o médico quanto o veterinário consultados garantem que cuidados simples com a higiene do ambiente e dos alimentos ingeridos pelas gestantes praticamente eliminam os riscos da doença.
A toxoplasmose, na grande maioria dos casos, não provoca sintomas. Geralmente os infectados nem sabem que têm ou tiveram a doença. Porém, em alguns momentos, é necessário maior cuidado, como no caso da infecção de mãe para feto. Segundo o médico da família Ronald Nei da Cruz, estimativas apontam que cerca de 80% da população brasileira já teve contato, em algum momento da vida, com o protozoário “Toxoplasma Gondii”, responsável pela doença. Quando isso ocorre, a pessoa fica permanentemente imunizada. O principal risco é para a mulher que nunca foi exposta ao microrganismo e acaba infectada durante sua gravidez, já que ela pode transmitir a doença para o bebê. “A gestante geralmente se contamina através de algum alimento, como carnes mal passadas. O protozoário vai tentar se reproduzir em seu intestino, mas não consegue, pois o hospedeiro natural é o gato. Ele então começa a procurar outros tecidos do copo e pode chegar até o feto”, explica Ronald. Dependendo da fase da gestação, o bebê pode desenvolver de problemas oculares até complicações cardíacas e cerebrais. Também há casos de parto prematuro, aborto e óbito fetal.
Apesar das graves consequências que a doença pode trazer em relação ao feto, as chances de infecção da gestante pela simples convivência com o gato são quase nulas e podem ser facilmente evitadas. Apenas 1% da população felina participa da disseminação da toxoplasmose. Os gatos contraem o parasita quando caçam e se alimentam de outros animais infectados, como ratos e pássaros. Se isso acontece, durante um curto período de tempo os “ovos” da toxoplasmose (chamados de oocistos) serão expelidos junto com as fezes do gato. O médico veterinário Matheus Caraça esclarece que tais ovos só poderão contaminar outro animal ou um ser humano caso fiquem expostos a temperaturas acima de 36º por mais de 48 horas. “E eles tem que ser ingeridos pelo hospedeiro, no caso, a gravida, o que é algo perfeitamente evitável”, afirmou.

ALIMENTAÇÃO — Ronald Nei da Cruz alerta gestantes para terem cuidado com o tipo de alimento consumido

Higiene

A infecção de toxoplasmose em humanos ocorre principalmente pelo contato direto com o solo, areia e latas de lixo contaminadas com fezes de gatos hospedeiros, ingestão de carne crua ou mal cozida infectada (sobretudo carne de porco e de carneiro), e infecção transplacentária durante a gravidez. Os sintomas da doença, quando surgem, são parecidos com os da dengue: febre, mal-estar, dor no corpo, dor de cabeça e ínguas no pescoço. Ronald Nei da Cruz alerta que os gatos não devem ser tidos como vilões. De acordo com o médico, o mais importante para a prevenção das gestantes que nunca tiveram contato com o parasita – e, portanto, não são imunes – é manter os hábitos de higiene em dia, tanto no ambiente onde convivem, como com os alimentos ingeridos. “Evitar comer qualquer carne crua ou mal passada, beber leite não pasteurizado e higienizar adequadamente frutas e verduras já ajudam bastante”, diz o médico.
O veterinário Matheus Caraça segue a mesma linha, recomendando alguns cuidados com o gato e o local onde ele vive. “O ideal é sempre usar a caixa de areia e limpá-la diariamente. Grávidas devem evitar fazer esta limpeza. Em caso de necessidade absoluta, devem usar luvas. No período da gestação da mulher é bom também evitar que o gato saia de casa para caçar. O animal não deve ser alimentado com qualquer tipo de carne crua ou mal passada”, afirmou.

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Proprietário e Editor do Jornal Debate