Nalini: ‘A empresa pode poluir menos?’

A empresa pode poluir menos?

José Renato Nalini *

Não só pode, como deve! Parcela considerável da poluição advém de atividades produtivas. Durante muito tempo esteve ausente da preocupação do empresário a consciência ambiental. Mas a situação do globo chegou a tal ponto de fragilidade, que pensar na redução do teor de veneno que se produz juntamente com a obtenção de bens da vida é uma obrigação de qualquer fabricante.
Em regra, toda atividade humana sobre o planeta causa impacto no ambiente. Mas há graus de interferência na saúde da natureza. Alguns setores que poderiam parecer mais próximos ao ambiente são seus detratores. Um exemplo: a pecuária. Não só pelo desmatamento em busca de pastos, como pela emissão de gás carbônico, seja pela flatulência, seja pelo ruminar do gado vacum, tão ou mais pernicioso do que a emissão dos automotores.
Um setor que tenta reduzir os maléficos efeitos de sua atuação no ambiente é o das indústrias fabricantes de lata de alumínio. Formam uma associação, a Abralatas. O Brasil é o campeão mundial na reciclagem de latas de alumínio que, desde 2004, é superior a 90%. Costumo dizer que isso ocorre não em virtude do respeito ao ambiente, mas da situação de miséria de parte da população que procede à recolha dessas latinhas e vive disso.
O efeito é benéfico. Economiza-se energia, reduz-se a emissão de gases de efeito estufa, reduz a necessidade de coleta de resíduos, que se transformou em atividade econômica e gera renda para milhares de pessoas. O próximo passo, para a Abralatas, é a criação do imposto verde. Em vários países europeus já se usa essa tributação sensível ao impacto ambiental. Na Noruega, indústrias de embalagem são tributadas de acordo com o seu índice de reciclagem de resíduos sólidos. Na França, taxa-se mais o produto que usa plástico não reciclado do que aquele que só se serve do material reciclado.
É algo que o novo Congresso precisa levar em consideração, assim como a logística reversa. Ou seja: quem produz um bem durável tem a obrigação de cuidar de seu destino, inclusive responsabilizando-se pelo que restar dele ao final do ciclo de utilização.
Os benefícios sociais da reciclagem de latas de alumínio são evidentes. O Brasil recicla 280 mil toneladas de latas por ano, injetando na economia 947 milhões de reais em 2016. O brasileiro consome cerca de 110 latas por ano e 50% do volume de sucata de alumínio é recuperada anualmente. A sucata de alumínio tem um valor expressivo. Um quilo vale 33 vezes mais que o quilo de vidro e três vezes o quilo do material PET.
É justo que quem polua menos pague menos impostos. É a sanção premial, que pode funcionar muito bem, ao lado da sanção clássica, aquela do castigo. Ao lado disso não se pode descuidar de reduzir a produção de resíduos sólidos, de dejetos que chamamos “lixo”, mas que em sua enorme maioria é composta de materiais aproveitáveis e de valia.
Se as pessoas se compenetrassem disso, o mundo seria melhor e sobraria o dinheiro utilizado hoje na coleta e transporte de lixo, na manutenção dos abomináveis “lixões”, para atender a necessidades primordiais dos humanos, que são os produtores dessa massa infinita de material descartável. O remédio é uma educação ambiental formal e informal, permanente e para todos os brasileiros.

* Renato Nalini é desembargador, ex-secretário de Educação de SP, Reitor da Uniregistral, palestrante e conferencista

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Proprietário e Editor do Jornal Debate