‘Navegar é preciso’. Mas com tecnologia

EXPERIÊNCIA — Ibraim Zacura mostra fotos de navios cujas inspeções ele foi um dos responsáveis

Um santa-cruzense passa o ano inspecionando
embarcações, grandes ou médias, em rios ou no mar

Ibraim inspeciona navio de grande porte

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Na infância, Ibraim Zacura Neto, 39, não deu nenhum sinal da profissão que iria abraçar. Ele é um dos raros “tecnólogos navais” da região e passa o ano embarcado ou ao redor de barcos de todos os tipos e dimensões. “Eu não tinha noção do que era isto e, na verdade, fui influenciado por dois primos. Hoje, amo o que faço”, disse. Ibraim se formou na Fatec de Jaú, depois de estudar em escolas de Santa Cruz (Sinharinha Camarinha e Leônidas do Amaral Vieira) e na Etel de Ipaussu. Quando sobra tempo, deixa as águas e as oficinas para visitar os pais em Santa Cruz, local em que as lembranças mais marcantes são justamente o rio Pardo.
O tecnólogo naval tem várias funções, mas a principal é testar a segurança de barcos e navios, emitindo laudos nas vistorias em embarcações. Ibraim trabalha numa empresa multinacional – a Bureau Colombo – e é responsável pela classificação dos navios. “Eu analiso todos os planos das embarcações, de acordo com as regras da Marinha e normas da empresa. Se a vistoria estiver de acordo, posso emitir uma certificação dizendo que a embarcação está apta para navegar”, explicou. Na verdade, são vários certificados que, juntos, permitem que a embarcação ganhe rios ou mares.

SEGURANÇA — Na região Norte, transporte pluvial é muito forte

Estes estudos incluem não apenas a estrutura física do navio, mas a quantidade de passageiros permitida, a capacidade de carga, a habitabilidade e principalmente a segurança e seus itens, como botes e coletes salva-vidas”, disse. Sobre este último, Ibraim ressaltou que em algumas regiões do Brasil, onde o barco é um dos principais meios de transporte, o estudo inclui a possibilidade de transportar um número adequado de passageiros em pé. “Mas isto depende do trajeto, caso seja curto”, disse.
Segundo Ibraim, o Brasil possui um número enorme de embarcações irregulares, daí a ocorrências de vários acidentes com vítimas fatais, especialmente na região Norte do País. “Nas regiões Sudeste e Sul, o número de acidentes é considerado pequeno. Mas no Norte o principal meio de transporte da população são as embarcações”, explicou. E há outro problema: um número assustador de acidentes acontece com embarcações pequenas e simples, que não necessitam de certificações.
O tecnólogo, entretanto, também é chamado para acompanhar a construção de um barco ou navio, inclusive sugerindo mudanças. “Isto é bom para o dono do barco, pois a embarcação será construída de acordo com as normas da Marinha”, disse.
Ele explicou que há diferenças entre embarcações que navegam no mar e em rios. A estrutura, por exemplo, deve ser reforçada numa embarcação marítima porque há o impacto das ondas. Outro item de segurança é o rádio, que também possui modelos diferentes dependendo do alcance da embarcação. “Quando o navio atinge outros países, ele deve possui praticamente uma sala de rádio”, explicou.

ESTALEIRO — Ibraim inspeciona a hélice de um grande navio
EM ALTO MAR — Foto tirada pelo santa-cruzense num navio

Conhecimento

Ibraim Zacura Neto, na verdade, faz do próprio trabalho uma aventura. Ele permanece a maior parte do tempo na unidade da empresa no Rio de Janeiro, mas há filiais em Manaus, Porto Alegre e Santarém. Antes, entretanto, o santa-cruzense chegou a trabalhar numa unidade da Petrobrás, inspecionando plataformas de prospecção de petróleo em alto mar.
Para o santa-cruzense, o Brasil utiliza muito pouco o transporte naval, o que é péssimo num País com dimensões continentais. “Veja, por exemplo, a quantidade de carretas pelas estradas. Em países da Europa, quase não há caminhões circulando, pois eles aproveitam muito bem o trem e o transporte naval”, disse.
Em São Paulo, segundo Ibraim, ainda há um pouco de transporte de cargas pelos rios, especialmente através do rio Tietê, onde existem as eclusas. “Mesmo assim, a malha hidroviária é muito pouco utilizada”, completou. Ele contou que o Paraguai possui uma das maiores frotas fluvial do mundo. “Eles só perdem para os Estados Unidos e China”, disse. Pelos rios, podem ser transportados, além de passageiros, celulose, materiais de construção e todo tipo de insumos para indústrias.
Ibraim já viajou para vários países durante vistorias em navios, mas garante que não há locais tão belos como a Amazônia ou o Pantanal do Brasil. “Além do trabalho, a gente se enrique culturalmente. É, sem dúvida, um universo realmente fascinante”, afirmou.

* Colaborou Toko Degaspari

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Proprietário e Editor do Jornal Debate