Festa para quem?

DIREITOS — Júlia Fernandes reclama que a vila Maristela não é servida pelos ônibus, exceto durante a festa

Moradora da Maristela reclama do descaso com o bairro e
diz que região recebe “maquiagem” durante a “Festa do Peão”

Diego Singolani
Da Reportagem Local

MAQUIAGEM — Bairro ganha pintura nas guias e limpeza na festa

Ruas sem iluminação, transporte público inadequado e falta de opções de cultura e lazer. Esta é a realidade enfrentada pela aposentada Julia Maria dos Santos Fernandes, 59, e seus vizinhos da Vila Maristela, em Santa Cruz do Rio Pardo. A moradora se queixa de que o bairro é esquecido pelo Poder público e pelos políticos, que só aparecem durante as campanhas eleitorais. Ela afirma ainda que a região recebe uma espécie de “maquiagem” durante a “Festa do Peão”, já que a vila fica no entorno do recinto “José Rosso”, onde acontece o evento. “Eles trocam as lâmpadas, limpam terrenos e até colocam circular à noite para levar o povo, por uma semana apenas. No resto do ano é só descaso”, lamenta a munícipe.
Julia é casada, tem dois filhos adultos, mas vive apenas com o marido na rua Pedro Camarinha. Ela é uma mulher ativa e bem-humorada, apesar de enfrentar diversos problemas de saúde. A aposentada tem complicações nas pernas, joelhos e quadril, que comprometem sua locomoção. “Sobretudo agora, com o calor, caminhar algumas quadras já é bastante difícil”, diz. A principal reclamação da moradora é em relação ao transporte público. Não há pontos de embarque no bairro e ela tem que ir a pé até a região da vila Madre Carmem para pegar a circular. A situação tem feito com que Julia falte às aulas de hidroginástica no ginásio de esportes “Anis Abras”, no centro da cidade. “Além de servir como tratamento, eu estou tentado realizar meu sonho de aprender a nadar, mesmo com essa idade. Mas nem sempre tenho condições de ir até o ponto pegar a circular”, afirma a aposentada, que também tem se ausentado do Cras – Centro de Referência da Assistência Social – “Betinha”, no bairro São José, pelo mesmo problema. “O pessoal do Cras é como uma família. Lá eu faço crochê e outras atividades, mantenho a mente ativa. Infelizmente está difícil de acompanhar”, lamenta Júlia.
Os problemas com as circulares não param por aí. A aposentada, que tem permissão para utilizar o transporte gratuitamente, devido à sua condição física, relata constantes humilhações sofridas pelos usuários do serviço. “Quando vários idosos entram no ônibus, o motorista fala bem alto: ‘já vem esse monte de velho sem pagar passagem’”, afirma Julia. “Além disso, o motorista deixa as ‘novinhas’ viajarem sem pagar e as leva até na porta de casa e do trabalho. Quando são os idosos, trabalhadores ou mulheres com crianças, nem no ponto direito eles chegam”, criticou.
As situações descritas pela moradora da Maristela são das mais insólitas. “Tem motorista que estaciona a circular e desce para cortar o cabelo, no meio da viagem. Outros não esperam os passageiros, mesmo eles estando a poucos metros do ônibus. Semana retrasada, uma senhora chegou a ficar com a cabeça presa na porta ao entrar correndo e o motorista seguiu viagem”, conta Julia.

‘Maquiagem’

O período que vai de meados de dezembro a meados de janeiro é um momento atípico para os moradores da Vila Maristela. “É quando as coisas funcionam”, diz Julia, que vive no bairro há 30 anos. Ela confirma que sempre foi assim. Durante os preparativos para a “Festa do Peão de Boiadeiro”, principal evento que marca os festejos de aniversário de Santa Cruz do Rio Pardo”, até as circulares rodam na região para transportar o público. “A prefeitura manda limpar os terrenos baldios, pintam as guias e postes, mas depois fica abandonado o resto do ano”, afirma a moradora.
De acordo com Julia, uma rua próxima a sua casa ficou o ano todo no escuro, sem lâmpadas. Ela fez diversos pedidos à prefeitura, sempre tendo respostas negativas. “Me disseram que não iam trocar porque os vândalos quebram logo em seguida”, declarou. Na semana retrasada, às vésperas do rodeio, a luz voltou a iluminar o local. “Quando vou à igreja à noite, tenho medo de passar por lá”, declarou Julia.
A moradora também reivindica mais opções de lazer e cultura para a população da Vila Maristela. Ela elogia as iniciativas promovidas pelo Cras Betinha, mas diz que a prefeitura poderia oferecer atividades a noite, depois que as pessoas chegam do trabalho. “Eu gosto muito de música, queria aprender a tocar violão. Quem sabe um curso de informática para adultos também. Nunca é tarde para aprender e o que a gente pede é apenas oportunidades”, afirma Julia.

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