Agricultura quer apoio político; minas e riachos estão secando

ASSUSTADOR — Marsola está vendo riachos e minas secando em seu sítio

Políticos prometem cobrar medidas dos governos estadual
e federal; prejuízo da safra em S. Cruz passa de R$ 100 mi

ENGAJAMENTO — Consalter defende a prorrogação dos financiamentos

A crise no setor agrícola, causada pela falta de chuva e pelas altas temperaturas, tem levado os produtores rurais da região a se mobilizarem em busca de socorro. Só em Santa Cruz do Rio Pardo, o prejuízo deve ultrapassar os R$ 100 milhões, de acordo com entidades ligadas ao setor. Na semana passada, duas reuniões foram realizadas na Câmara Municipal para discutir o apoio no âmbito político aos agricultores.
Na segunda-feira, 11, participaram do primeiro encontro representantes dos produtores, do Sindicato Rural, da secretaria estadual de Agricultura e vereadores. Na quinta-feira, 14, vereadores de toda a região estiveram presentes, pera tentar formar uma espécie de “frente parlamentar” para debater o problema.
A iniciativa das reuniões partiu do presidente da Câmara de Santa Cruz, o vereador Paulo Edson Pinhata. “Nós somos representantes da população e não podemos ficar inertes. Temos que usar nossa influência para que os prejuízos dos produtores rurais sejam amenizados”, disse. Para Pinhata, nesse momento de crise será fundamental a disponibilidade dos deputados estaduais e federais que receberam votos na região. “Nós trabalhamos para a eleição deles, agora é a hora da retribuição”, afirmou.
Entre os convidados também estava Antônio Salvador Consalter, presidente do Sindicato Rural de Santa Cruz do Rio Pardo, que ficou satisfeito com a postura dos vereadores. “Esse engajamento é fundamental. Nós produzimos os relatórios e estudos técnicos para demonstrar a gravidade da situação. Mas sem as ligações dos nossos políticos com as demais esferas do governo, nenhuma decisão é tomada”, disse.
Segundo o presidente, os principais pedidos dos produtores rurais são a prorrogação dos juros de financiamento de custeio e investimento e a possibilidade de começar a pagar daqui a três anos. Além disso, os produtores também pedem linhas de crédito para honrar os compromissos com seus fornecedores. “Muitos agricultores estão desesperados, pensando até em vender suas propriedades e se tornarem empregados. Nós estamos orientando para que tenham calma e aguardem os resultados dessa movimentação que estamos organizando”, alertou Antônio Consalter.
Outra presença importante na Câmara foi a de Eduardo Luiz Bicudo Ferraro, o “Brigadeiro”, presidente do Sindicato Rural de Ourinhos e vice-presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo. Ele destacou o impacto da crise no campo em outras áreas da economia local e como isso pode causar um efeito dominó. “O Brasil é um País predominantemente agrícola. Eu creio que a população em geral deveria valorizar mais o agricultor, que coloca a comida na mesa de todos nós”, declarou Brigadeiro.
Além da questão climática, ele também se disse preocupado com as medidas anunciadas para o setor agro pela equipe econômica do governo federal. Apesar de demonstrar confiança nos novos rumos políticos do País, o dirigente rural criticou a iniciativa de cortar subsídios dos produtores brasileiros. “Será um tiro de misericórdia se isso acontecer. Na verdade, não existe subsidio real no Brasil. Os juros pagos pelos agricultores superam aquilo que eles recebem de incentivo. Não há como concorrer com os preços de produtos internacionais, estes sim amplamente subsidiados em seus países”, afirmou.

CARAVANA — Pedracci, de Ipaussu, defendeu uma “frente parlamentar”

Crise regional

‘Brigadeiro’, presidente do Sindicato de Ourinhos, pregou união da região

A presença de diversos vereadores da região, expondo a situação de suas localidades, permitiu aos participantes do encontro da última quinta-feira compreender melhor a dimensão e extensão da crise causada pela seca e pelas altas temperaturas. Antônio Carlos Léo Padilha, vereador em São Pedro do Turvo, disse que a cultura de soja também foi a mais afetada no município, assim como em Santa Cruz. “Temos 8 mil alqueires de plantio de soja e o estrago foi grande. Mas a seca também prejudicou a pecuária, devido à falta de pastagem, além das plantações de mandioca e laranja”, afirmou.
Aparecido Bernardino Candido, o “Nenê Rosa”, está em seu sétimo mandato como vereador em Ibirarema, que fica a 55 quilômetros de Santa Cruz do Rio Pardo. O município já enfrentava um cenário de crise desde que as duas usinas de cana de açúcar, que empregavam a maioria da população, faliram. “Nós não temos outras industrias na cidade e muita gente foi embora. Agora, com a seca, a situação se agravou ainda mais”, disse.
De acordo a vereadora Silvana Briganó, mais de duas mil pessoas deixaram Ibirarema depois do fechamento das usinas. “Hoje o município tem pouco mais de cinco mil habitantes. As pessoas vivem de atividades temporárias ligadas ao turismo ou de suas pequenas propriedades rurais”, declarou.
Em Espírito Santo do Turvo, a onda de calor prejudicou os cultivos de laranja, cana de açúcar e também a plasticultura, que é a produção de legumes e verduras em estufas. Segundo a vereadora Delmari Cássia Santos de Souza, que também é produtora rural, os prejuízos foram enormes. “Não temos ainda um levantamento oficial em Espirito Santo, mas os agricultores estão desolados”, disse.
Para o presidente da Câmara de Ipaussu, Vinícius Pedracci, a união de forças entre os vereadores da região é um fato inédito e que amplia o alcance de atuação dos parlamentares. “Uma coisa é chegar um vereador em São Pulo ou Brasília. Outra coisa é chegar um ônibus cheio de vereadores. Vamos levar as demandas dos produtores rurais ao conhecimento dos governos estadual e federal e tenho certeza que seremos ouvidos”, declarou.


Riachos e minas estão secando

A falta de chuva e as altas temperaturas estão provocando uma situação que jamais se teve notícia na agricultura. O agricultor Clélio Marsola, 58, produtor de milho e soja no bairro rural Caetê, na região do distrito de Sodrélia, em Santa Cruz do Rio Pardo, conta que nunca viu uma mudança tão drástica no campo.
Ele é dono de uma propriedade que herdou do pai. “Passei toda minha vida naquele sítio e ninguém acredita quando eu conto o que está acontecendo. O riacho que eu costumava nadar na infância, hoje mal dá para molhar a bota. Além disso, uma mina que tinha potência para abastecer uma vila inteira, hoje é apenas um filete de água”, disse, desolado. “Infelizmente, a água está acabando”, disse, preocupado com o futuro.
Já Nivaldo Aparecido Ferrari, 50, também produtor de soja e milho, mas da região da Figueira de Santo Antônio, reclamou da baixa produção. “Foi um ano muito difícil e o problema já vem desde a safrinha. Eu colhia 150 sacos, mas agora só conseguimos 70 por alqueire”, contou. No entanto, Nivaldo acredita que, se as chuvas normalizarem, a temperatura também deve cair.
“Mas tudo isto não é normal. Meu pai, que já está com 85 anos, diz que nunca viu uma situação climática como esta”, afirmou Nivaldo Ferrari.

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Proprietário e Editor do Jornal Debate