Geraldo Machado: ‘Será que a curiosidade morreu?’

Será que a curiosidade morreu?

Geraldo Machado *

“O que é isso?
É chouriço, para você
comer no dia do
seu serviço”.

Se a curiosidade não morreu, um dia, com o tempo, vai morrer comigo — o último dos “especulas”. Vejam bem que eu falo de curiosidade, e não de bisbilhotice, uma de suas variantes execradas pela sociedade dos homens. Mas houve um, Eça de Queiroz, que a defendeu com estilo. Veja-o em “A correspondência de Fradique Mendes”, e guarde bem na memória o que vai fazer bem a você: “Talvez você murmure com desdém — é mera bisbilhotice! Amigo meu, não despreze a bisbilhotice! Ela é um impulso humano, de latitude infinita, que, como todos, vai do reles ao sublime. Por um lado leva a escutar às portas — e pelo outro a descobrir a América”. De qual curiosidade eu falo? Daquela que tenho como tema desta crônica curiosa, que foge do meu costume, e que é abordar o simples, guardado no baú da memória, abafada com o calor procriador e fecundo dos anos. Falo, dela, a curiosidade, mãe da sabedoria. Aquela que ajuda a aprender, que nos extroverte e faz perguntas porque quer saber. Vem desde a infância, da infância do homem que viveu na caverna e foi fossilizado com a preguiça-gigante e o tigre-dente-de-sabre. Sair do fechado da mente obtusa, para o universo complicado da vida, que pôs o homem a falar, sem o quê viveria isolado dos outros — gaguejando vogais.
Não vejo nas crianças e nos moços de hoje aquela ânsia ingênita de fazer perguntas. Será a falta do contato com a Natureza e a vivência urbana que tem resposta preparada pra tudo? Meus professores tinham, na classe, vinte alunos, no máximo. Podiam fazer perguntas. Hoje têm cinqüenta, no mínimo — é um comício. Como atender a todos? Em casa, a família era grande e sempre havia um filho mais questionador. Era repreendido, tachado de “especula”. Era avisado antes das visitas com os pais, para não ser inconveniente. Perguntar era falta de educação. O menino via-se patrulhado — só quem podia perguntar era o pai. Quando perguntava: “Pai, o que é isso?” Logo vinha a resposta: “É chouriço, para você comer no dia do seu serviço”. Que menino de hoje sabe o que é chouriço ou torresmo? Sabe ligar o automático, o seu televisor, o computador e o celular. Sabe ligar a chave do carro do pai, e conhece todas as marchas e até dirigir, por abuso. Pode vir daí, errado, que ele é mais sabido que o caboclinho do campo, de vida natural. Não, não sabe. Tudo para ele já vem pronto, até por controle remoto.
A tecnologia substituiu a necessidade de perguntar — é só apertar o botão, digitar. O menino da minha geração tinha de fazer a conta nos dedos, ou riscando com um pauzinho, no chão, como Anchieta fez o poema da Virgem, na areia da praia, sob os olhos dos Tamoios. Esse esforço para aprender perguntando, era um exercício salutar para a memória.
A curiosidade já foi suprida e não há mais América para se descobrir. Nem boneca, nem carrinho para o menino abrir para ver o que tem dentro. Não desmonta, para consertar, o despertador que o pai comprou na Aparecida do Norte e que, sem milagre, só trabalha e desperta quando chacoalhado com força. Não vai olhar às portas o que as primas mais velhas estão conversando no quarto. É a bisbilhotice do Eça, a curiosidade sã das crianças que impera aqui — ou ali.
Vejo por mim. Sempre (quando não lia ou a coisa não era de ler), eu perguntava. Fazia visitas aos melhores, para eu aprender e trazer para casa progresso. Hoje, os moços não me perguntam nada, só falam oi. Quando ando no meu mato e vejo árvore por árvore, mesmo conhecendo o nome de quase todas, pergunto-me: por que não perguntei pro Bertolino, velho conhecedor do sertão, o nome desta árvore? Ele já morreu e ninguém sobrou para contar. As histórias que eu conto aqui, eu escutei dos mais velhos. Mas pequei por não perguntar e, hoje me arrependo por não saber transmitir aquele filão de sabedoria que eles guardavam. Hoje tem manual para tudo — sabedoria da auto-medicação por bula. A informação, por si, não satisfaz a curiosidade do saber. É superficial, fast-food para o conhecimento que instrui sem substância. Saber é sentir-se satisfeito, ir a fundo nas questões e na coisa esquisita.
Em Santa Cruz, no tempo do coronel Tonico Lista, havia um senhor, de sobrenome Vasconcelos, que tinha a mania da perfeição. Era dono do Cartório e guardava, à mão, um dicionário para dirimir as suas dúvidas com o léxico. Havia, também, na Comarca, um advogado de nome Frederico Carl Ribeiro, que era uma peste. Bebia e era ranzinza. Numa das suas passagens pelo Cartório, afobado, mal-humorado, foi chamado pelo Chico Vasconcelos que lhe fez esta pergunta: “Doutor, estou na dúvida. Tenho de botar nos autos o nome de uma arma de fogo, e não sei como escrever certo: “carabina” se escreve com C ou com K — Carabina ou Karabina?” Mais que pronto, na fumaça, o advogado malcriado, puxando as calças que, da cintura, caia-lhe – respondeu na bucha: “Depende, Vasconcelos — se estiver descarregada, você escreve com C. Se estiver carregada, você escreve com K…” Meu leitor impávido, que não me faz perguntas e, se as faz, faz com cuidado: — nem o Eça, de Póvoa do Varzim, nem eu de Irapé, faríamos essa pergunta (que cheira à pólvora), a um advogado (que cheirava à pinga).

* In Memoriam

  • Publicado originariamente em 2005
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