Surtos acompanham a carreira do prefeito

Otacílio protagonizou momentos estranhos em sua carreira política, muitos considerados de postura duvidosa

Armado, ele já ameaçou até uma família em Caporanga

Um político sereno e responsável, mas só nas aparências. Otacílio Parras, que comanda o município desde 2013, vem tomando medidas que surpreendem a população e demonstram total falta de equilíbrio. Em 2017, quando teve um surto e renunciou ao mandato menos de três meses após assumir o segundo mandato, ele admitiu ao Ministério Público que tinha visões e surtos. No entanto, a síndrome não parece ter sido curada, a ponto dele demitir secretário durante a madrugada e depois voltar atrás, além de ofender jornalista.
Entretanto, na verdade este tipo de postura autoritária sempre acompanhou a carreira política de Otacílio Parras. Em 1989, por exemplo, quando era vereador pelo PMDB, ele chegou a ameaçar pessoas no distrito de Caporanga, com uma arma na cintura.
O incidente aconteceu no centro de uma crise entre médicos e o município, sendo a manchete na edição do DEBATE do dia 29 de outubro de 1989. O sistema SUS, que na época se chamava SUDS (Sistema Unificado Descentralizado de Saúde), sofria demissões em massa de médicos, entre eles Otacílio Parras, que dava expediente no Posto de Saúde do distrito de Caporanga durante uma hora por semana. A reclamação era de baixos salários e a necessidade de cumprir horário.
No meio desta crise, Otacílio abandonou o Posto de Saúde e deu ordens para não abrir mais o prédio. Foi quando duas crianças de Caporanga precisavam fazer inalação com urgência e os pais procuraram as funcionárias do PS, que se recusaram a abrir as portas. Os pais, então, apelaram ao então subprefeito do distrito, que autorizou a abertura.
Otacílio foi avisado e, irritado, foi ao distrito e ameaçou o subprefeito João Guarujá. Segundo moradores ouvidos pela reportagem na época, que consideraram o fato uma “covardia”, o então vereador estaria armado. Ao DEBATE, Otacílio Parras deu uma estranha declaração sobre o episódio: “Não confirmo e nem desminto”.
O incidente provocou ódio de Otacílio contra o então prefeito Clóvis Guimarães Coelho. Na eleição seguinte, o vereador desistiu de se candidatar à reeleição, perdeu a disputa interna do partido para ser candidato a prefeito e apoiou o adversário Manezinho. Em 1996, foi o caixa da campanha de Rosário Pegorer, derrotado por Clóvis na sucessão de Manezinho.

Reportagem do jornal de 29 de outubro de 1989 diz que o vereador Otacílio Parras foi tirar satisfações com o subprefeito de Caporanga. E armado…

“Corrutela”

Mas houve muitas outras polêmicas envolvendo Otacílio. Ao ser derrotado na disputa para prefeito em 2004, ele disse que Santa Cruz do Rio Pardo não passava “de uma corrutela”. No entanto, voltou à disputa e se tornou prefeito em 2012. No primeiro mandato, ameaçou cortar verbas de eventos culturais, brigou com correligionários e conquistou inimigos desnecessários.
Em 2016, quando era o candidato natural à sucessão, renunciou a esta condição durante reunião com assessores em sua própria residência. Chamou todos de “incompetentes” e, novamente, se referiu a Santa Cruz como “corrutela”. O motivo era a inviabilidade de cumprir uma promessa eleitoral feita na eleição anterior, de formar jovens em Tecnologia da Informação e contratá-los através da empresa de propriedade de um primo. Dias depois, voltou atrás.
Reeleito, no final de 2016, quando se descobriu o rombo nas contas públicas, ele sugeriu à principal envolvida no esquema criminoso de desvio de recursos, Sueli Feitosa, que se matasse com um tiro na cabeça. Meses depois, a ex-tesoureira citou Otacílio como um dos agentes que sabiam do desfalque.
No terceiro mês do novo mandato, Otacílio renunciou, agora para valer. Deu entrevistas em rádios e TV, se despediu e foi para casa após entregar a carta-renúncia na Câmara. Foi necessário um esforço de vereadores e amigos para que ele desistisse da renúncia já formalizada. O caso foi investigado pelo Ministério Público e Otacílio alegou que estava sofrendo um surto psicótico.
Voltou ao cargo, mas nos meses seguintes brigou com vários vereadores da base aliada, proporcionando a criação de uma nova oposição na Câmara. Com os governistas que sobraram, conseguiu aprovar projetos polêmicos que nem sequer puderam ser colocados em prática por inconstitucionalidade. Ao mesmo tempo em que cooptou rádios e jornalistas com salários e verbas públicas, impôs censura à imprensa livre.
Há três semanas, demitiu um subprefeito sob a justificativa do mesmo estar bebendo um copo de cerveja em horário de expediente. Mas Otacílio não cobra o mesmo de assessores e secretários nomeados pelo quesito da política e amizade.
Na madrugada da última quinta-feira, 28, depois de passar horas num restaurante, telefonou a membros do governo informando que todos estavam demitidos. No dia seguinte, foi à rádio 104 só para dizer, nos microfones, que tinha “nojo” de um jornalista. Em seguida, abandonou rapidamente o recinto.



AÇÃO — Descontrolado e raivoso, prefeito invadiu estúdio para xingar jornalista

Otacílio veta jornalista e deixa estúdio

Prefeito entrou no estúdio somente para ofender diretor
de jornal e dizer que não o queria na bancada do programa

Convidado para conceder uma entrevista na rádio 104 FM, no início da tarde de sexta-feira, 1º, o prefeito Otacílio Parras (PSB) só entrou no estúdio para dizer que sentia “nojo, asco e vontade de vomitar” com a presença do jornalista Sérgio Fleury Moraes, que há mais de um ano é comentarista da emissora. Em seguida, abandonou o local sem explicações. O prefeito havia aceitado participar do horário jornalístico da 104 FM, mas acabou confessando que não concordava com a presença do jornalista no estúdio. Ele não revelou o motivo para o “asco”. Fleury é o diretor do DEBATE, que na semana passada publicou reportagem mostrando que o prefeito autorizou, no último dia 22, a compra de mais de R$ 1 milhão em combustíveis a preços acima do mercado. O caso já está sendo investigado pelo Ministério Público.
O incidente aconteceu minutos depois de Otacílio fazer seu pronunciamento na rádio Difusora, onde é entrevistado pelos dirigentes da única emissora que recebe verba publicitária da prefeitura e também pelo próprio assessor de Relações Institucionais, Roger Garcia, que na prática entrevista o “patrão”. Na emissora, Otacílio nunca é questionado e recebe apenas elogios nas entrevistas.
Na 104 FM, que é independente, o prefeito também queria escolher os entrevistadores. O radialista Diego Singolani, que comanda o “Giro de Notícias”, acertou a presença dele ao negociar diretamente com a secretaria de Gestão e Comunicação. O secretário Renan Alves indagou sobre a participação do comentarista Sérgio Fleury e Diego confirmou a presença.

Destempero

Na sexta-feira, porém, Otacílio chegou atrasado à 104 FM, depois de participar da Difusora até 12h15. Ele entrou numa sala lateral e, pelo vidro, percebeu a presença de Sérgio Fleury. A partir daí, começou a gesticular a Diego Singolani que “isto não havia sido combinado”. Falava alto, fazia sinais, tudo ao vivo.
“O seu secretário não atualizou o senhor, pois a presença do Sérgio foi informada à sua assessoria”, explicou Diego. O prefeito, então, entrou o estúdio e usou o microfone para declarar o seguinte. “Eu pedi a entrevista na segunda-feira e disse que sem a presença do Sérgio Fleury. Ficou marcado para sexta-feira e hoje a presença do Sérgio não é rotina vir aqui. Para que todos os ouvintes ouçam, a presença do Sérgio me dá asco, nojo e vontade de vomitar. Então, estou saindo daqui. Se o senhor quiser entrevista minha, me chame outro dia”, afirmou.
Em seguida, Otacílio abandonou de forma ríspida o prédio da 104, sem qualquer outra explicação. “Lamentável a postura do prefeito ao querer escolher quem participa da bancada de entrevistas. Fiquei realmente sem reação, pois a presença do Sérgio foi informada”, disse Diego Singolani, surpreso com a atitude de Otacílio ao usar o microfone para ofender o jornalista e sair rapidamente.
Sérgio Fleury também lamentou a agressividade do prefeito. “É um desrespeito aos ouvintes e a toda a população de Santa Cruz. Não sou político, adversário ou inimigo do prefeito e estamos aqui para ouvir esclarecimentos”, disse. O jornalista disse que Otacílio se acostumou a usar microfones de rádios em que é entrevistado geralmente pelos próprios assessores que ganham altos salários da administração. É lamentável esta postura, típica de coronel do século passado”, disse. Diego Singolani disse que, se necessário, poderia até publicar os diálogos com o secretário de Gestão e Comunicação, nos quais a presença de Fleury na entrevista é confirmada.

Sobre Sergio Fleury 4567 Artigos
Proprietário e Editor do Jornal Debate