Riopardense pagou propina em Piraju, diz ex-motorista em CPI

AMEAÇADO — Kléber Paulino, ao lado do advogado César Mercuri, durante depoimento na CPI de Piraju

Testemunha depôs na ‘CPI da Circular’ em Piraju e disse
que empresa pagou R$ 50 mil ao prefeito para obter vantagens

Vereadores que compõem a CPI, durante sessão em Piraju

Diego Singolani
Da Reportagem Local

O proprietário da empresa “Riopardense”, Samuel Silva Santos, foi acusado de pagar propina à prefeitura de Piraju para obter vantagens em contratos de transporte coletivo. A denúncia foi feita por Kleber Aparecido Paulino, ex-motorista da “Del Oeste”, que, segundo ele, faz parte de um cartel junto com a Riopardense e a Viação Piraju. As denúncias surgiram durante sessão da “CPI da Circular”, quinta-feira, 11, na Câmara de Piraju. A Riopardense é a mesma que detém os serviços de transporte coletivo em Santa Cruz do Rio Pardo (leia na pág. 4).
Em seu depoimento, Kleber declarou que Samuel teria pago R$ 50 mil à prefeitura para que a Riopardense assumisse o transporte circular, até então, realizado pela empresa Viação Piraju. A propina teria sido dividida em 10 cheques de R$ 3.150 e o restante em dinheiro. De acordo com Kleber, os valores foram depositados em uma conta do jornal “Observador”, que, na época, tinha como um dos proprietários Paulo Sara, que também era assessor do prefeito José Maria da Costa (PPS) e hoje ocupa o cargo de diretor de administração no governo.
Kleber disse que teve conhecimento dos fatos em 2016, após flagrar uma conversa de Samuel em uma padaria de Piraju, onde ele estaria orientando alguém sobre o pagamento da propina. “O Samuel disse que era para o rapaz cobrir o primeiro cheque. Passou o número da conta dele no Bradesco, numa agência de Barueri. Eu anotei tudo”, declarou.
O ex-motorista ainda afirmou que a Riopardense montou um cartel com a Viação Piraju para que as empresas combinassem preços e dividissem o transporte circular, de pacientes e de alunos. “Eles procuraram a ‘Del Oeste’, empresa que eu trabalhava, para participar do esquema. Mas meu patrão na época jamais aceitaria uma coisa dessas”, disse. De acordo com Kleber, ele começou a publicar em suas redes sociais denúncias sobre as supostas irregularidades e também sobre as péssimas condições dos ônibus da Riopardense.

SITUAÇÃO — Riopardense roda em Santa Cruz com ônibus sucateados

 

Kelson Godoy, do “Observador”, diz que assumiu o jornal somente em janeiro de 2018

A testemunha afirmou aos vereadores que passou a sofrer ameaças e perseguições. Disse que, em determinada ocasião, quando transportava passageiros pela ‘Del Oeste’ para Taquarituba, foi informado por telefone que Samuel havia invadido a sede da empresa em Piraju atrás dele. “Como eu não estava lá, ele disse para a funcionária que ia pegar a estrada e ir atrás de mim. Para minha segurança e dos passageiros, eu fui até uma delegacia em Taquarituba, onde fiquei por algumas horas”, relatou.
De acordo com Kleber, a Del Oeste acabou sendo vendida e o novo proprietário, Pedro Henrique, entrou no cartel. O ex-motorista disse que foi demitido após sofrer ameaças de morte do chefe. “Ele me trancou numa sala com um segurança e um cachorro. Me perguntou se eu não tinha medo de morrer. Se eu não pensava nos meus filhos, na minha família. Disse que eu deveria sair de Piraju”, afirmou.
Kleber entregou à CPI uma gravação com as supostas ameaças. Ele também apresentou um áudio, atribuído ao dono da Viação Piraju, que comprovaria todo o esquema do cartel.
Para o presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito, vereador Érico Tavares (PSC), a gravidade das denúncias pode provocar desdobramentos nos trabalhos de investigação. “Inicialmente, o objetivo era apurar a forma como o transporte circular passou da Viação Piraju para a Riopardense e a má qualidade do serviço. Agora surgiram novas denúncias, novos nomes e tudo deverá ser analisado”, afirmou.
O presidente da Riopardense, Samuel Silva Santos, também foi convocado para depor, mas não compareceu. “Se ele recusar mais uma notificação, poderemos acionar a força policial para trazê-lo à Câmara”, disse o presidente. Em Santa Cruz do Rio Pardo, o próprio da Riopardense, Luiz Roberto de Oliveira, disse que há três meses não vê o dono da empresa.
O atual proprietário do jornal “Observador”, Kelson José Godoy, também depôs na quinta-feira, 11. Kelson prestava serviço ao jornal no período em que a suposta propina foi paga, mas disse que só assumiu a administração do “Observador” em janeiro de 2018 e que, portanto, não teria conhecimento de recebimentos anteriores.

Desligou

A reportagem tentou contato com o prefeito José Maria na tarde deste sábado, 13, por telefone. Ele atendeu a ligação, mas assim que foi informado do assunto, simplesmente disse que “era tudo mentira” e desligou abruptamente.
Minutos depois, seu assessor de imprensa, Marcos Fernandes, retornou dizendo que o prefeito só deve se pronunciar em uma coletiva de imprensa, ainda sem data marcada. O assessor trabalha na rádio Paranapanema, emissora que pertence aos mesmos donos da Difusora de Santa Cruz.


Piraju rompeu o contrato
com a empresa em março

Como em Santa Cruz, veículos sucateados geram protestos em Piraju

A prefeitura de Piraju rompeu com a Riopardense, de forma unilateral, no último dia 11 de março, após a empresa de ônibus não aceitar uma proposta de rescisão amigável. O contrato tinha validade até o final de 2020. Após o rompimento, o prefeito José Maria da Costa contratou emergencialmente a “Del Oeste”, uma empresa local que também está sendo acusada de fazer parte de um cartel.
O novo contrato é emergencial, pelo prazo de 180 dias, até que uma nova licitação do transporte público seja realizada pela prefeitura de Piraju.
Assim como em Santa Cruz do Rio Pardo, as queixas da população pirajuense eram inúmeras em relação ao serviço da Riopardense. Veículos com pneus carecas, vidros quebrados, defeitos frequentes, falta de documentação e atrasos nas linhas eram rotineiros.
Além disso, os funcionários da empresa também denunciaram falta de pagamento e o descumprimento de outras obrigações trabalhistas. Em fevereiro, os vereadores de Piraju instauraram a “CPI da Circular” para investigar os desmandos da Riopardense. durante o período em que operou o transporte coletivo na cidade.

  • Publicado na edição impressa de 14/04/2019
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