‘É terrível levar um frango’

Hoje, Ricardo Ramalho diz que vive das memórias do futebol: ‘Foi bom’

Um dos melhores goleiros da história do futebol de Santa
Cruz, Dagô foi ídolo na Esportiva e da antiga Esmeralda

Dagô recebe premiação do antigo dirigente esportivo Nelson ‘Zebra’

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Quem conheceu no final da década de 1960 e início dos anos 1970 um goleiro de porte médio, com 1,84 metro, porte de galã e de personalidade forte, que se destacava em campo no campeonato amador e chegou à Esportiva Santacruzense, certamente vai se lembrar de Dagô, que foi o arqueiro dono da meta do inesquecível esquadrão da Esmeralda. Hoje, aos 67 anos, é radialista, professor de educação física e técnico em edificações, Ricardo Ramalho, que nasceu no antigo distrito de Clarínea, sempre foi apaixonado pelo futebol de Santa Cruz do Rio Pardo. “Eu comecei com sete ou oito anos”, contou.
Dagô só parou de jogar em 1983 porque se contundiu. Ele traz na mente as lembranças da carreira esportiva e no corpo as marcas deixadas pelo futebol, já que usa bengala desde que, há anos, passou a sofrer de desgaste ósseo. Claro que foram sucessivas entradas dos centroavantes e quedas desajeitadas após defesas incríveis.
Ricardo Ramalho era daqueles moleques que, como a maioria, gostava de jogar no ataque e fazer gols. “Eu era o ponta-esquerda do time”, lembra. Um dia, não havia goleiro e o escalaram. Se deu tão bem que nunca mais saiu de baixo das traves. “Eram os tempos do mirim da Esportiva, comandados pelo Otávio Lorenzetti”, contou. Não demorou muito para o garoto ser convocado para o Atlético Santacruzense, a convite de Augustinho Marin. Surgia o conhecido goleiro Dagô.

Com Laureano e Noni no esquadrão da Esmeralda

Em 1969, o último ano daquela fase áurea da Esportiva Santacruzense que conquistara o título da Segunda Divisão, Dagô foi chamado para terminar o campeonato. Quando o time voltou aos gramados em meados dos anos 1970, não é difícil adivinhar qual o goleiro foi indicado.
A estreia de Dagô, por sinal, foi contra o Tupã. E entrou na “fogueira”, já que o titular se contundiu. No final do jogo, consagrado pelas boas defesas, recebeu até proposta para se transferir para o Tupã.
A paixão pelo futebol — e pela Esportiva — foi tão grande que, quando Ricardo foi obrigado a abandonar os gramados por contusão, ele resolveu virar preparador físico e depois técnico. Foi o responsável, aliás, pelo vice-campeonato de 1986, quando conquistou o acesso. Na semifinal, venceu o Oeste de Itápolis, mas foi derrotado pelo Descalvado na final. No ano seguinte, cedeu lugar a Hamilton Cunha, o ‘Amendoim’.
Mas Dagô ainda foi preparador físico e novamente técnico nos anos 1990 até parar definitivamente. Ou quase, já virou comentarista esportivo na rádio Difusora — e o é até hoje.

Ricardo Ramalho, o goleiro “Dagô”, comemora o tricampeonato da Esmeralda em 1978

Na ‘Esmeralda’

Nos tempos do TG, com Dito Marques, Saliba, Reginaldo e Xexé

Dagô avalia que ser goleiro é um privilégio. “É o único do time que tem a posição fixa e, por isto mesmo, acaba sendo o foco do jogo. Se o goleiro é bom, o time é bom”, filosofa. No rádio, porém, nem sempre ele poupa goleiros nas críticas.
Mas bom mesmo foi o seu desempenho na Esmeralda, o inesquecível time que dominou os campeonatos amadores de Santa Cruz nos anos 1970. Em quatro anos, Dagô foi campeão em três e vice em outro.
A Esmeralda era tão forte que, em alguns jogos, chegou a jogar com a camisa da Esportiva. As iniciais, aliás, eram as mesmas, já o time era Associação Esmeralda Sports (AES). Embora amador, o clube tinha uma estrutura incrível, pois entre seus diretores estava Chicão Quagliato. “Ele bancava até jogadores de fora, como Paquito, que jogou no União Bandeirantes”, conta o goleiro.
Foi na Esmeralda que Dagô se consagrou. Foi o goleiro menos vazado de vários campeonatos seguidos.
Ele também disputou muitos torneios de várzea, aqueles com 15 minutos em cada tempo e quase sempre um placar sem gols. Aí a disputa era nas penalidades. “Foi aí que eu me especializei em defender pênaltis. O segredo é ter paciência. Nunca pulei antes do chute e, por isso, percebia a direção da bola”. Havia, claro, outro truque: perturbar o atacante. “Era apelação mesmo. A gente mexia até com a mãe dele”, conta, rindo.
Dagô não se furta de lembrar momentos ruins. Ele chegou a jogar profissionalmente em outros clubes, como o Noroeste. “Fiquei dois anos em Bauru e tinha uma ajuda de custo para estudar. Foi quando me formei. Mas, numa partida, o jogador adversário chutou quase que do meio do campo e a bola passou no meio das minhas pernas. Foi terrível”, lembrou.
Nesta época, jogou contra o Corinthians e enfrentou jogadores famosos. O goleiro, porém, disse que não se acostumou em outra cidade e voltou para Santa Cruz. A verdade, ele admite, é que havia sempre um “rabo de saia” esperando. Coisas de ídolos do futebol.

* Colaborou Toko Degaspari

  • Publicado na edição impressa de 28/04/2019
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