Nath Camilo: ‘O amor e a amizade além dos palcos das redes sociais’

O amor e a amizade além
dos palcos das redes sociais

Nath Camilo
Da Equipe de Colaboradores

“Cara Senhorita, o desejo de escrever-lhe finalmente venceu a consciência pesada que carregava por não ter respondido sua carta durante muito tempo, o que me permitiu escapar do olhar crítico (…)”.
A coleção de cartas de Albert Einstein e Mileva Maric que foram selecionadas se passam no fim do século XIX, antes de se casarem. “Cartas de Amor” é um livro com seleção de 54 cartas, e apesar da obviedade do momento histórico que sucede um tempo depois, a II Guerra Mundial, são cartas confidentes de duas pessoas muito apaixonadas, e geram curiosidade sob a perspectiva do olhar através de textos próprios de duas pessoas com vidas reais, mútua e autênticas.
Einstein era diferente do estudante o qual o mundo imagina. Ele não era triste, solitário e isolado. Ele era um jovem apaixonado pela vida, pela namorada, perseguido por dificuldades financeiras e pessoais, dentre elas, o nascimento de uma filha, da qual soube existência por essas cartas.
Em 1897, quando Einstein e Maric passam a se corresponder, ele tem dezoito anos, cursa o segundo ano da Escola Politécnica Federal da Suíça. Ele fica entusiasmado e maravilhado com o mundo da física, e passa a compartilhar as reações de suas experiências e o aprendizado com Mileva Maric. Antes de descobrir algo efetivamente valioso, ele passou duas décadas de sua vida em uma teoria de campo que nunca chegou a completar.
Einstein passa a se sentir tão bem e tão à vontade que descreve profundos sentimentos, e fala livremente o que sente por ela, fala sobre sua família e da vida de modo íntimo. Maric é independente, muito madura, responsável e uma mulher forte. Era exatamente isso que ele tanto amava e gostaria de ter em uma mulher que fosse sua companheira.
Em 1903 eles se casam, quando ela está grávida dele. Sua promessa era prosperar para “não precisassem passar fome”. Até esse momento a carreira de Maric havia sido abandonada aparentemente, seus sonhos profissionais haviam ido embora junto com outras responsabilidades e necessidades da época. O casamento dos dois, apesar de tanto amor e promessa nas cartas, não durou mais que uma década.
Essas cartas são um vestígio misterioso de dois mundos mágicos que estão ligados pela magia do amor, e é possível senti-lo, saber como ocorreram todos os ternos e às vezes infernais momentos do amor entre dois grandes cientistas. Nesse parte, nem Maric ou Einstein estavam interessados se o professor Lenard discutiria sobre as moléculas de oxigênio que se movem a uma “ velocidade superior a 400 metros por segundo, mas que depois de muitos e muitos cálculos, o professor montou equações, integrou, substituiu e finalmente as moléculas em questão realmente se movem a tal velocidade, mas que só percorrem a distância de 1/100 da largura de um fio de cabelo”.
As cartas impressas dão vida ao talento e à felicidade dos dois, são como as coisas aconteceram na turbulência das emoções e do cotidiano, sem robôs no comando, sem frases prontas de um “meme” a rodar por aí de modo tão vil que nem dono tem. É muito bom ter mais contato do que teclados digitais e Wi-Fi. Cartas são escritas por próprio punho, dá para ver a letra e a verdadeira emoção das pessoas no exato momento. E a carta que lê contém algo muito importante, algo de que esses dois cientistas apaixonados não se esqueceram: energia. A energia de uma carta já é por si uma troca dela, a começar pelo instante em que pega nas mãos algo que estava nas mãos de alguém que você gosta tanto. Não é que se deve negar os avanços da tecnologia, mas não se deve limitar buscar evidências em inspirações mortas. Um tablet ou um celular são robotizados. O senso de inteligência e percepção deveria estar muito além de imagem, principalmente na instantaneamente das coisas. Pois instantâneo não significa espontâneo. Instantâneo é macarrão miojo. Espontâneo é estar sentado em uma cadeira e de repente começar a escrever sem corretor robotizado… “Ehrat sofre de um nervosismo terrível, apesar de de sua vida muito cômoda. Imagine se tivesse que trabalhar como eu! Ele deveria encontrar um amor como você é na minha vida. Alguém que o ame e que lhe ensine um pouco da poesia da vida. Assim também aprenderia que a existência pode ser livre e apaixonada. Sábado irei com um grupo de homens até Beatenberg, próxima à Thun. Preferia ir com você a ir com um grupo de homens. Adeus, meu amor. Iremos encontrar-nos na segunda-feira, às 6:00h, na pequena torre”.

* Nath Camilo é
escritora santa-cruzense,
autora de “A Névoa
Cinza do Paraíso”
e outros livros

 

  • Publicado na edição impressa de 09/06/2019
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