Geraldo Machado: ‘O plágio perfeito’

O plágio perfeito

Geraldo Machado *

É crime o plágio perfeito? Esta resposta só quem poderia dar seria o Rubem Braga, e deu. Isso aconteceu no ano de 1978, in “Crônicas escolhidas”, muito bem escolhidas, não há dúvidas. Saiba o leitor que a Revolução “aconteceu em São Paulo, por volta de 1932…” Em 1933 (não por volta, mas pela folhinha), eu estava iniciando o Curso Ginasial no Colégio Diocesano em Botucatu. Passei por um exame de admissão muito difícil para mim que fiquei afastado de qualquer aproximação com livros. Eu tinha 13 anos, feitos em 16 de dezembro de 1932. Isto porque devido à Revolução (Constitucionalista) os alunos ficaram numa espécie de “ponto morto”, sem aulas por muito tempo.
Para agravante de ficar solto no sítio, descalço ligado com os meninos da colônia que nunca viram uma professora, quanto mais uma escola. Pelo tempo que isso marca, e pela minha idade, vê-se que morreram analfabetos congênitos (inatos, para pontuar) e conglomerados.
Como os caboclinhos do Jeca Tatu, venceram a verminose e obtiveram alguma situação vexatória. Os filhos do patrão, para se irmanar com eles, “andavam descalços por travessura, não por pobreza”. Eu ouvia muitas vezes a minha mãe dizer: “Benedito, você precisa comprar uma botina pro menino, como vai ficar o pé dele quando for para o colégio?”. Meu pai, constrangido: “Lembra, minha filha: sabe você quanto custa uma botina na sapataria do Jacob Abdo?… 20 MIL-RÉIS!? “Botina só calçava filho de fazendeiro. Botina e educação tinham muita conexão. Falar em caipira já enxerga o pé-no-chão.
No “celeiro da memória”, à pag.24, está o meu artigo de 26/04/98: “Uma satisfação à sociedade”. Convido o leitor interessado a ler o artigo. Ele conta uma história que elucida o que venho desvestindo e desvendando. O menino da roça que nunca levou a medida do seu pé pela mão do seu pai e pelo coração de mãe até a sapataria do Jacob Abdo e, muito menos ginásticas abdominais a não serem cólicas na barriga vazia. Ginástica, futebol, só com bola de meia cheia de capim membeca, ou de bexiga de vaca ou de porco assoprada com “canudo de pito”, nome de uma árvore, ou arbusto; não me lembro mais — faz tanto tempo… Quanto tempo equivale a muitas folhinhas, muitas brumas em um nevoeiro que me turva a vista e a alma entristecida.
Quer saber o leitor, ou melhor, está louco pra saber quem Rubem Braga traiu para perpetuar tamanho crime? Justamente quem — Carlos Drummond de Andrade, o poeta de ferro nas veias. Em 1933 Rubem Braga fazia crônicas diárias para o Diário de São Paulo. Fazia reportagens e serviços de redação e bicos por fora. Laio Martins (de quem jamais ouvi falar) fundou um seminário humorístico. “Laio Martins era idoso, de cabelos brancos, foi um boêmio muito amigo”. Pediu a colaboração do Rubem no O Governador, mas pagava muito pouco. Rubem Braga, não querendo faltar ao amigo, escreveu muitas crônicas assinadas. “Seu jornal era excessivamente político (perrepista, se bem me lembro)” Rubem não queria tomar partido na política paulista. Laio, inconformado, pediu para o amigo: “Então ponha um pseudônimo!”.
Prometi de pedra e cal, mas não cumpri. Laio reclamou para eu entregar à crônica. Quando o contínuo veio buscar o artigo encontrou o jornalista atarefadíssimo. “Eu cocei a cabeça — e tive uma ideia. Acabara de ler a crônica de Carlos Drummond de Andrade no Minas Gerais, órgão oficial de Minas, com um pseudônimo – algo assim como Antônio João, ou João Antônio, ou Manoel Antônio, não me lembro mais; ponhamos Antônio João. Botei papel na máquina, copiei a crônica rápida, entrei e lasquei o mesmo pseudônimo.”
Leitor, até aqui vamos convir saber que o crime já está configurado, resta saber se deu certo. Deu, e dias depois, Rubem Braga recebeu o dinheiro da colaboração, juntamente com o pedido urgente de outra crônica e pedido de mais uma e o recado do Laio, entusiasmado: a primeira estava esplêndida.
“Daí para frente encarreguei um menino da portaria, que estava aprendendo escrever à máquina, de bater a crônica de Drumond para mim; eu apenas revia, para substituir ou riscar alguma referência a qualquer coisa de Minas. Pregada a mentira e praticado o crime, o remédio é perseverar nesse rumo hediondo; se ás vezes senti remorso, eu afogava em chope no bar alemão ao lado, e pagava (o chope) com o próprio dinheiro do vale de Antônio João”.
“O remorso não era, na verdade, muito: Carlos não sabia de nada, e o que eu fazia não era propriamente um plágio, porque nem usava matéria assinada por ele, nem punha o meu nome em trabalho dele. E Laio sorria feliz, comentando com meu colega de redação: “O Rubem não quer assinar, mas que importa? Seu estilo é inconfundível!”
“O estilo era inconfundível e o chope era bem retirado; mas você pode ter certeza, Carlos Drummond de Andrade, que muitas vezes eu bebi à sua saúde, ou melhor, à saúde de Antônio João, isto é, à nossa. Dos 25 mil réis que Laio me pagava, eu dava 5 para o menino que batia à máquina; era muito dinheiro para menino naquele tempo, e isso fazia o menino feliz. Enfim, lá em São Paulo todos éramos felizes graças ao seu trabalho: Laio, o menino, os leitores e eu — e você em Minas não era infeliz. Não creio que possa haver um crime mais perfeito”. Rubem Braga, In 200 Crônicas Escolhidas, Editora Record, Rio de Janeiro, 1978.
Leitor do DEBATE: aonde já se viu isto? Eu aqui confesso, público e raso, o meu crime por plágio pluricriminal. Traição ao Laio, o menino da máquina de escrever (5 milréis); ao Laio, ao público ledor de São Paulo e Minas, perrepistas ou não. Crime contra Rubem Braga das 200 crônicas escolhidas. Uma injustiça póstuma. Vão recolher os meus dois livros, tirá-los de circulação, ostracismo, execração pública… Vou ter, para o resto da vida, uma pedra no meu caminho.

* In memoriam

  • Publicado originariamente em 2006
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