Poluição afeta bairros de S. Cruz

SUJEIRA EM SACOS — Gabrielle Costa mostra sacos plásticos onde a fuligem é armazenada

Películas de milho expelida por cerealista atormentam
moradores do Pacaembu e Itaipu em Santa Cruz

Reinaldo: receio de se mudar para o bairro

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Uma fuligem clara, leve igual à neve e difícil de varrer está invadindo as residências dos bairros Pacaembu e Itaipu há vários meses e atormentando os moradores. A sujeira é a película resultante da secagem do milho, expelida pela Cerealista Sefert, localizada na estrada Salto Bonito. A empresa adquiriu a massa falida de uma antiga cerealista, reformou as instalações e iniciou as atividades em 2018. No entanto, hoje ela está instalada perto da área urbana devido ao avanço dos conjuntos habitacionais.
Famílias que ainda nem se mudaram para o Pacaembu — o bairro mais afetado por estar muito próximo da cerealista — já estão assustadas. “A casa ainda está em obras, mas estamos com receio de enfrentar este pó de milho”, conta Reinaldo dos Santos Inácio, que trabalha como vigia na prefeitura e, nas horas vagas, acompanha os últimos arremates no novo muro e piso. O pó, porém, não permite que a casa fique limpa. “E não adianta varrer porque a sujeira se acumula em poucos minutos”, contou.

SUJEIRA — Júlia Bello mostra a fuligem impregnada em tudo
FULIGEM ESPALHADA — Em todas as casas, o pó enche os quintais

Segundo Reinaldo, o problema atinge o Itaipu há anos, mas com intensidade menor porque o bairro não fica tão próximo da empresa.
A estudante Júlia Bello, 17, mora há oito meses com a mãe, dois irmãos e o padrasto no Pacaembu, mas diz que ninguém da família suporta mais a fuligem. Ela mostrou à reportagem os cantos da residência tomados pela poeira. “E acabei de varrer”, contou. Segundo Júlia, o drama dos moradores começou há aproximadamente quatro meses, com o início da safra do milho.
“A gente precisa limpar a casa várias vezes ao dia. Além disso, todas as portas devem permanecer fechadas o dia inteiro, com aquelas cobrinhas nos vãos. Mesmo assim, a poeira entra e suja tudo”, diz a estudante. Segundo ela, as temperaturas mais baixas amenizaram o clima abafado dentro da casa. “Mas há algumas semanas fazia muito calor e era terrível”, afirmou.

PELO CANO — Até canos da rede estão entupindo no Pacaembu

Na casa de Gabrielle de Paula Costa, 18, a situação não é diferente. Funcionária da Special Dog, ela mora no bairro há cinco meses e diz que a mãe não vence retirar a fuligem dos cômodos e do quintal. “Ela enche várias sacolas por dia”, diz Gabrielle, exibindo o material estocado.
A jovem também conta que a casa precisa ficar fechada e a poluição não dá nenhuma trégua. “O pó cai de dia e de noite. Parece uma neve, mas é muito difícil de varrer porque é leve e chega a flutuar”, conta.
Segundo Gabrielle, as famílias sofrem até para deixar as roupas no varal. Quando ainda estão úmidas, a fuligem gruda no tecido e a remoção fica mais difícil.
Avó de Gabriella, Maria Silvia Rodrigues de Paula, 51, mora na vila Popular, onde felizmente a poluição não chegou. Ela ajuda a família porque muitos trabalham durante o dia. “É um problema muito sério. Ontem eu quase desisti da limpeza, pois o chão estava todo forrado e demorei um bom tempo para varrer. Quando terminei, a sujeira estava novamente do mesmo jeito, em questão de minutos”, lembrou. “Eu já tirei uma sacola de fuligem em apenas uma hora”, contou.
Maria Silvia tem uma irmã que mora no bairro Itaipu e, segundo ela, o problema é semelhante. “A casa dela fica cheia de casquinha de milho. Nos dias de vento forte, a situação piora e não adianta varrer”, disse. Silvia conta que já levou roupa dos parentes do Pacaembu para secar em sua casa, na vila Popular.

LIMPEZA DIÁRIA — Duas filhas de Viviane têm problemas de saúde

Problemas de saúde

Na mesma quadra, a dona de casa Viviane Campos Ramos, 33, tem problemas ainda mais graves. As duas filhas — uma de 14 anos e outra com apenas um mês — vivem na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) porque sofrem com rinite. “Nós viemos para o Pacaembu há um mês, mas minhas filhas sofrem muito. Tive de comprar um aparelho de inalação e muitos remédios”, contou. Ela contou que as filhas choram com a falta de ar.
Na tarde de sexta-feira, Viviane lavava a frente da casa pela terceira vez e certamente a conta de água também vai aumentar. “Nem os carros ficam limpos. Um vizinho nosso, motorista de caminhão, disse que devemos nos reunir e exigir que a prefeitura tome alguma providência. Outra vizinha tem uma filha que está sofrendo com alergia”, disse. “Esta poeira entra no nariz da gente. Está muito complicado”, reclamou Viviane.


Empresa vai receber filtros em poucos dias, garante a diretoria

Empresa promete uma
solução nos próximos dias

O advogado Francisco Bibiano, da Sefert

A Sefert, proprietária da cerealista que está provocando poluição nos bairros Pacaembu e Itaipu, garante que em 30 ou 45 dias o problema será solucionado. O empresário José Wagner Myra disse que já comprou filtros para coletar a fuligem durante o processo de secagem, mas explicou que o equipamento deverá ser adaptado nas instalações existentes. O investimento chega a R$ 270 mil e vai acabar com a poluição, segundo garantiu outro sócio, Euclides Lopes Garcia.
O advogado da Sefert, Francisco Bibiano, anunciou que o projeto do equipamento já está em execução pelo fabricante, mas demora alguns dias. “Nós já trabalhamos para reduzir este prazo, mas não depende mais da Sefert”, afirmou.
Segundo Bibiano, a secretaria do Meio Ambiente está ciente do problema e aguarda a chega dos filtros. O empresário José Wagner, inclusive, já teria conversado com alguns moradores do Pacaembu para explicar a demora na instalação dos equipamentos. “Mas também somos interessados em solucionar isto o mais rapidamente possível porque logo em seguida teremos a safra da soja”, disse o advogado.
Eles contam que o problema foi provocado pela expansão habitacional de Santa Cruz, com a divisa urbana se aproximando da indústria que existe há mais de 20 anos. No caso dos novos donos, eles iniciaram a produção há pouco tempo, pois precisaram restaurar todo o maquinário, já que o parque industrial ficou fechado por conta da falência do antigo dono.
“Não podemos esquecer que a cerealista fica na zona rural, mas a cidade chegou”, disse Bibiano. Ele contou que, com os filtros, a fuligem deverá reutilizada para ração.

  • Publicado na edição impressa de 23/06/2019
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