Nalini: ‘A busca do consenso’

A busca do consenso

José Renato Nalini *
Da Equipe de Colaboradores

A Humanidade evoluiu no terreno da ciência e da tecnologia. Regrediu na área do convívio. O estágio civilizatório reservou à espécie um espetáculo paradoxal. Progresso, desenvolvimento, conquista de longevidade e de avanços que até a ficção científica não ousou imaginar. Mas continua aquele animal egoísta, irado e raivoso, cultiva o ressentimento e a inveja. Não confia em ninguém. Presume a má-fé de todos.
Os irracionais são incapazes das indecências praticadas pelos humanos. O sexo, para os animais ditos irracionais, é a obediência ao cio, a observância à lei da reprodução. Não se conhece o sadismo, o masoquismo, o exotismo e o abuso de filhotes.
Mas também não costumam fazer aquilo que só pode provir da insensatez e da ignorância. Consumir substâncias que causam a morte. Não apenas os opiáceos e entorpecentes. Também o fumo, o álcool, o excesso de tudo aquilo que não ajuda a obter qualidade de vida.
O convívio entre os animais e os demais elos vitais são orientados pela necessidade de sobrevivência. Não se conhece incêndio causado por feras, nem destruição da floresta perpetrada pelos não pensantes. Esses são crimes privativos do homem.
O elenco dos sete pecados capitais foi elaborado mediante contemplação daquilo que o ser humano pratica. A relação foi depois sendo acrescida até o infinito, com a tipificação de condutas que mostram a criatividade do ser humano para o mal. Leia-se o Código Penal e tente-se enumerar os delitos contidos nas chamadas “leis extravagantes”, aquelas que estão fora do estatuto criminal e ver-se-á se não têm razão aqueles que consideram a criação do homem um projeto fracassado.
É nas pequenas coisas que se verifica o retrocesso civilizatório em que fomos arremessados. As pessoas não se cumprimentam. Os elevadores abrigam seres humanos que não se olham. O empurrão é o contato físico mais frequente, assim como esbarrar raivosamente. Acabou-se a delicadeza, acabou-se a polidez. Sepultou-se a bondade espontânea.
O Brasil necessita, com urgência, de um consenso mínimo. Como obtê-lo, se os modos se tornaram rudes, a grosseria é a regra e a insensibilidade parece dominar mentes em todos os estamentos?

* José Renato Nalini
é desembargador,
ex-secretário de
Educação de SP,
Reitor da Uniregistral,
palestrante e conferencista

  • Publicado na edição impressa de 30/06/2019
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Proprietário e Editor do Jornal Debate