CARTAS – Edição de 07/07/2019

À espera das reformas

A equipe do presidente Jair Messias Bolsonaro demonstra não entender muito de projeto. O INPE vem treinando há anos seus funcionários em cursos para capacitar os funcionários a fazer projetos e, atualmente, usa a prata da casa para isso. Talvez a Secretaria de Governo devesse “contratar” o INPE para um treinamento dos ministros e assessores.
O governo aposta na Reforma da Previdência… E só! Nem sequer acompanha adequadamente os deputados e senadores. Mais uma deficiência de projeto. Atacam os políticos aliados, a ideologia de gênero, discutem a liberação de armas, afrouxamento da lei de trânsito, etc. Esquecem da reforma política, educacional, econômica, de tributação, criação de empregos, etc.
A experiência no INPE ainda pode ser aproveitada em outras áreas. É possível criar um projeto para atenuar o desemprego persistente do nosso país, como faz o INPE que contrata especialistas desempregados, por uma bolsa, para desenvolver uma atividade importante. Não custa Lembrar também dos anos 1970, quando o governo federal contratava os nordestinos desempregados pela seca para trabalhar em projetos de açudes, eram as Frentes de Trabalho.
Atualmente, há 13 milhões de desempregados, número que assusta, mas não é real porque o se provedor fica desempregado, então sua mulher e filhos passam a procurar emprego. Se forem criados três milhões de empregos, o desemprego acaba, volta ao número normal, até 5%.
Da experiência do INPE, o governo poderia criar um programa para contratar pessoas capacitadas desempregadas para colaborar com os projetos do governo, como ajudar o Exército a construir estradas ou, a exemplo das Frentes, construir cisternas — a única solução viável para o Nordeste. Esse programa poderia ser replicado para a iniciativa privada, por exemplo, contratando novos funcionários até 50% do total — para evitar a demissão. Em resumo, pode-se empregar, pagando a metade ou menos, gente que atualmente pesa para a sociedade e que passará a produzir.
Um programa governamental de cem mil pessoas, sendo dez mil de nível superior, custaria menos de um bilhão por ano e produziriam riquezas direta e indiretamente para o país, melhorando a situação econômica e social. A adesão das empresas privadas tem potencial de empregar milhões. É algo que vale a pena o governo analisar.
Outro esforço que poderia render muitos empregos e movimentar a economia é o turismo informal. Observo há anos que estudantes visitam o INPE. E ainda, as escolas de minhas filhas sempre organizaram viagens a universidades, feiras e museus. Isso nunca foi classificado, mas é um turismo científico e tecnológico.
Vejo no INPE um Centro de Visitantes abandonado, sem receber visitantes. Imagino que isso ocorra por toda instituição. Se organizado e financiado, São José dos Campos, por exemplo, poderia ser um grande Polo de Turismo Tecnológico. E veja quantos cientistas e tecnologistas poderiam proporcionar palestras e cursos não somente para estudantes de Ensino Médio, mas também para universitários, políticos e militares. São pequenas ideias que podem movimentar significativamente a economia nacional.
— Mario Eugenio Saturno (São José dos Campos-SP)

Estado-espetáculo
Há, na sociologia política, uma hipótese que pode muito bem explicar certos fenômenos que mexem com o estado d’alma da população. A sobrecarga das demandas sociais aumenta as frustrações com o desempenho do poder público, levando grupos a procurar mecanismos de recompensa psicológica. Não necessariamente por isso, mas certamente tendo alguma coisa a ver com essa abordagem, imensos contingentes nacionais são atraídos por conteúdos diversionistas que funcionam como contrapontos compensatórios em momentos de crise.
É jogar na loto, ir aos estádios de futebol ou mesmo abrir o riso com os programas populares na TV. Os olimpianos, perfis que o sociólogo Edgar Morin descreve como os figurantes que aparecem cotidianamente no topo da cultura de massas, chamam a atenção, brincando com as plateias, abrindo portas da esperança, “inventando milagres” em templos suntuosos, acenando com gestos simpáticos para torcidas futebolísticas, encarnando o perfil de xerifes contra a corrupção e mesmo caprichando na imagem de heróis “salvadores da Pátria”.
Quanto maior a falta de grana no bolso, maior será o sucesso dos personagens do Estado-Espetáculo: artistas de novelas, bispos reunindo multidões em suas igrejas, jogadores(as) de futebol, juízes, ex-juízes, procuradores e até políticos de visibilidade midiática, etc.
À fragilidade do Estado provedor do bem-estar contrapõe-se o Estado das Estrelas Individuais, com seu teatro de formas lúdicas, promessas e elementos ficcionais. E que está por trás dessa moldura? Entre outros fatores, instituições frágeis, conteúdos sociais amorfos, a banalização da violência, descrença geral na política e na justiça, carência de cidadania, um conjunto amalgamado festejado com pirotecnia pela mídia.
São visíveis os sintomas de profunda crise, expressa pela deterioração de programas sociais, principalmente nos capítulos da segurança, educação, saúde e habitação. As forças policiais não têm conseguido cumprir com rigor o policiamento ostensivo e preservar a ordem. As gangues se expandem por toda a parte. Exércitos privados se multiplicam. A marginália ganha volume e o medo se espraia por todos os segmentos.
Nesse vazio, abrem-se espaços para mecanismos catárticos que fazem o diversionismo das massas. A “marcha para Jesus” e a Parada Gay são exemplos de eventos de grande mobilização social, funcionando como estruturas de catarse. De um lado, o encontro místico, de outro, a liberação de identidades. Ninguém grava o que se ouviu nos palanques (semântica), mas a estética dos espetáculos é a própria mensagem, no conceito mcluhaniano. Todos se recordam das cenas que viram. A disfunção narcotizante, o efeito teatral sobre o psiquismo de milhares de pessoas e a alienação cívica são alguns dos efeitos provocados por esses ritos, signos e ensaios coletivos.
Que a liturgia dos atos é importante para criar estados de animação, não se discute. Transformá-la em anzol para “pescar” a fé de multidões é coisa típica do Estado-Espetáculo. A estampa litúrgica de credos é o retrato acabado de um tempo em que as coisas essenciais dão lugar ao acessório.
O resultado é a dormência da cidadania. Pois um cidadão que se acostuma a viver no mundo ficcional acaba transformando a versão em verdade e o meio em fim. Sem segurança, sem saúde, com educação precária, sem serviços essenciais básicos eficientes, as pessoas se tornam fragilizadas. Perdem autonomia. Mais parecem rebanhos famintos à procura de pasto. Vai embora a noção de direitos.
O debate em torno de ideias cede lugar ao ludismo. Os líderes das massas já não são figuras da esfera política portando valores essenciais, como decência, respeitabilidade, honra, moral, ética, compromisso. Esse acervo se perdeu. Hoje, o que vemos são atores do Estado-Espetáculo expressando promessas de salvação, elementos canhestros, tipos que dramatizam a vida cotidiana, ancorando-se na miséria das margens sociais para aumentar seus cofres.
A paisagem social é lúgubre. Remete-nos ao poeta Manuel Bandeira, que assim cantava: “que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte? O que vejo é o beco”.
— Gaudêncio Torquato, jornalista (São Paulo-SP)

Poesia sim, ódio não
Neste tempo de ódio, que polui o Brasil, é adequado contrapor ao ódio a Poesia.
O ódio é irracional. Não há argumentos que convençam quem odeia, de modo a diminuir o furor de sua raiva.
Melhor assim recusar o confronto e desarrmar o punhal através de uma incursão poética.
É o que tento fazer nesta página.
Tenho saudade das cartas.
Sou do tempo das cartas por via postal, que carregavam um certo mistério.
Aderi à internet, aos e-mails, pela praticidade deste tipo de comunicação, mas tenho saudade das cartas de antigamente.
Os emails também podem ter muita força de comunicação, mas as cartas tinham um sabor especial.
A primeira beleza das cartas é que dependiam da entrega e o carteiro era muitas vezes esperado com ansiedade e alegria.
Não foi à toa que a alma de Pablo Neruda atingiu culminâncias em “O Carteiro e o Poeta”.
Numa perdida ilha do Mediterrâneo, um carteiro recebe a ajuda do poeta Pablo Neruda para, através da Poesia, conquistar o amor de Beatrice, sua eleita. O carteiro, que era o mediador da correspondência do Poeta, aprende, aos poucos, a traduzir em palavras seus sentimentos pela amada. Em troca, Mário, o carteiro, foi o interlocutor do Poeta, mostrando-se capaz de ouvir suas lembranças do Chile e compreender as dores do exilado.
Guardo todas as cartas que recebi de minha esposa quando éramos namorados.
Como ela também guardou as que eu mandei, temos em nosso arquivo todas as cartas que trocamos.
Tenho também saudade do flerte.
Hoje já não se flerta mais.
Flerte, que coisa linda! Mulher objeto? De forma alguma… Mulher destinatária… da admiração, do encantamento, do silêncio que fala.
Suprimiram-se as etapas do amor. Numa sociedade capitalista não se perde tempo. O tempo destinado à poesia, numa sociedade de consumo, escrava do ter, desalmada, é tempo perdido.
Mas temos de reagir. Salvaguardar a Poesia porque Poesia é Humanismo.
Que mundo triste seria este mundo se desaparecessem os poetas.
”Amar, jovem, é pouco, e ainda que doam
As palavras nos lábios, ao dizê-las, esquece os teus cantares. Já não soam.
Cantar é mais. Cantar é um outro alento.
Ar para nada. Arfar em deus. Um vento.” (Rainer Maria Rilke, tradução de Augusto de Campos).
“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as dores que ele teve,
Mas só as que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.” (Fernando Pessoa).
— João Baptista Herkenhoff, juiz aposentado (Vitória-ES)


‘Fotos do Leitor’

Uma festa em família

A foto, do acervo de Edílson Arcoleze Ramos de Castro, mostra uma festa de final de ano da família Lorenzetti, na década de 1950, na marcenaria de Luiz Lorenzetti (tio-avô de Edílson), um sobrado na rua Conselheiro Dantas, em Santa Cruz do Rio Pardo. Explica Arcoleze: “O primeiro da foto é o meu pai Manoel Ramos de Castro com a sua prima Carmem Pires de Moraes (Carmem Lorenzetti). Do outro lado da mesa,  a moça de saia xadrez é a prima de meu pai, Lucila Lorenzetti, com o seu saudoso irmão Lino. A Carmem e a Lucila  estão com 91 anos de idade”.

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Proprietário e Editor do Jornal Debate