Pedreiro busca reparação após acidente e cirurgia que deixou dedo inutilizado

Juliano guardou todos os documentos do caso, inclusive raios-X da mão operada

Ele fraturou o dedo, passou por cirurgia, ficou com o
dedo totalmente inutilizado e diz que foi vítima de descaso

Juliano ficou com o dedo rígido e não consegue nem assinar

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Trabalhador na construção civil, Juliano Fernandes, 36, não imaginava que sua vida iria se transformar em menos de um ano. E para pior. Morador no Jardim São João, ele sofreu um acidente de trabalho, quebrou um dedo e, após uma cirurgia, ficou com a mão praticamente incapacitada. Não consegue sequer assinar um documento, já que o dedo anelar da mão direita não dobra e permanece rígido. “Ele não serve mais para nada, mas só falaram que eu estaria incapacitado depois da cirurgia”, diz Juliano, que desconfia de erro médico. Afinal, as radiografias que ele guarda mostram uma fratura aparentemente comum. O problema é que Juliano não conseguiu auxílio do INSS e, pior, não consegue emprego.
O caso aconteceu em 2018, quando o andaime que segurava Juliano durante um serviço se rompeu. A queda foi de uma altura pequena, mas, para não bater a cabeça, o trabalhador amparou o corpo com a mão. Com dores, foi encaminhado à UPA (Unidade de Pronto Atendimento), onde uma pequena fratura foi diagnosticada. “Falaram que foi uma quebradinha”, lembra. Juliano teve o dedo imobilizado, mas continuou com dores. Voltou várias vezes em busca de atendimento até que foi encaminhado à Santa Casa de Misericórdia. Foi aí, muitos dias depois, que descobriram uma fratura maior e luxação.
O médico do SUS Mauro Assis entrou na história e recomendou uma cirurgia, que ele mesmo fez. Um pino extenso foi colocado no dedo, com uma parte externa. Juliano continuou fazendo planos para voltar ao trabalho, pois a promessa era de que o dedo ficaria normal.
Quando o pino foi retirado, o dedo não tinha mobilidade e nem flexionava. Juliano fez algumas sessões de fisioterapia, mas em outubro daquele ano o médico Mauro Assis assinou atestado informando que a rigidez do dedo era permanente. “Incapacidade definitiva”, diz o documento, com timbre da Associação Paulista de Medicina, carimbado e assinado por Mauro Assis.
Revoltado, Juliano Fernandes não se conforma e desconfia que houve erro médico. “Quando o médico retirou o pino, disse que o dedo tinha ficado perfeito. Mas ele é duro e atrapalha qualquer ação da mão”, afirmou. O trabalhador também não conseguiu nenhum benefício do INSS e, desde então, vive buscando uma solução.
Durante muito tempo ele disse que tentou conversar com o médico Mauro Assis ou o secretário de Saúde, Diego Singolani. Sobre este último, Juliano disse que sempre recebeu a informação de que o secretário estava ocupado, em reunião ou viajando.
O pedreiro contou que tentou ouvir um segundo médico, Alexandre Yoneda, que é especialista em mãos. “Mas quando contei a história, ele disse que não poderia entrar neste caso por uma questão ética, já que trabalha junto com o outro médico que fez a cirurgia”, contou.
Pai de um menino de quatro anos, Juliano não consegue emprego por conta da deficiência e recorre à ajuda dos pais. “Em pelo menos quatro avaliações, fui reprovado na hora de assinar o documento. Simplesmente não consegui”, lembra. Desesperado, ele já pensa, inclusive, numa decisão drástica: amputar o dedo. “Com os outros quatro, pelo menos eu terei mobilidade na mão”, disse. Além disso, ele sofre com dores constantes no dedo, que não diminuem com os remédios.

Após cirurgia, o médico Mauro Assis assinou atestado de incapacidade definitiva do paciente

Providências

No último dia 27, uma quinta-feira, a reportagem entrou em contato com o secretário de Saúde, Diego Singolani, e explicou o drama de Juliano Fernandes, solicitando informações sobre como ficará a situação do trabalhador, já que ele reclama de abandono por parte do município. O jornal também questionou se há informações sobre possível erro médico.
O secretário disse que atendeu Juliano há dias, mas solicitou ao jornal que protocolasse um requerimento por escrito, para que a secretaria entrasse em contato com Juliano pedindo autorização dele para dar informações à imprensa. A reportagem explicou a Singolani que o próprio paciente havia procurado o jornal e, autorizado por Juliano, forneceu o telefone ao secretário.
No dia seguinte, 28, Juliano Fernandes recebeu cinco telefonemas da secretaria de Saúde. Ele foi convocado para uma “reunião urgente” no gabinete do secretário Diego Singolani. No encontro, o secretário informou que estava agendando uma consulta com o especialista Alexandre Yoneda, o mesmo que anteriormente se negara, por questões éticas, a entrar no caso. Segundo Diego disse a Juliano, agora era diferente porque o agendamento estava partindo da própria secretaria. “Ele me disse que não tem muitos médicos disponíveis e, seja irreversível ou não o meu problema, quem vai dar o diagnóstico final é um médico”, afirmou o trabalhador. “O secretário pediu para que eu confie agora e disse que depois eu posso procurar meus direitos”, explicou. A consulta foi na sexta-feira, 5.


O médico Mauro Assis nega que o caso seja de erro médico: “Era grave”

Médico nega erro e diz
que luxação era grave

O médico Mauro Assis, que operou a mão direita do pedreiro Juliano Fernandes, disse ao DEBATE que não procede qualquer alegação de erro médico na cirurgia. “Posso garantir que atuo sempre com lealdade e transparência com todos os meus pacientes, visando o cumprimento das normas legais e aquelas preconizadas no Código de Ética Médica”, ressaltou.
Questionado pelo jornal, Mauro Assis garantiu que Juliano Fernandes sofreu “um sério acidente de trabalho” e que ele foi devidamente “atendido e submetido aos tratamentos e procedimentos indicados para o seu tratamento”. O médico também disse que jamais ocultou do paciente as gravidades das lesões causadas pelo acidente.
Mauro também nega que tenha abandonado o paciente pelo sistema SUS. “Sempre que ele procurou por atendimento médico ou agendou alguma consulta comigo, foi devidamente atendido, não procedendo a informação de que foi abandonado”, disse. O médico contou que o último atendimento, de acordo com os seus registros, aconteceu no dia 17 de janeiro deste ano. Na ocasião, segundo Mauro, foi prescrita e indicada a realização de fisioterapia. “Mas o paciente nunca mais retornou para continuação do tratamento”, afirmou.
Sobre a possibilidade de ser acionado na Justiça, Mauro Assis antecipou que, neste caso, vai exercer o seu direito de defesa. “Vou continuar exercendo minha profissão e meu trabalho nesta cidade, com o mesmo carinho, respeito, responsabilidade, honestidade e dedicação de sempre”, afirmou. “E a responsabilidade pela acusação que ora se faz contra a minha pessoa e meu profissionalismo, será a seu tempo analisada e julgada pelos órgãos judiciais competentes”, ameaçou.

  • Publicado na edição impressa de 07/07/2019
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