Viagem do balé municipal teve orçamento fora da realidade

Balé Municipal, durante coreografia “Índia Fest” , apresentada em vários festivais e ganhadora de prêmios

Vereadores criticaram falta de apoio; prefeitura orçou custo
para 26 pessoas em R$ 270 mil, muito acima do mercado

Diego Singolani
Da Reportagem Local

Como justificativa para não custear uma viagem do balé municipal a Portugal em abril deste ano, a prefeitura de Santa Cruz do Rio Pardo alega que as despesas da delegação composta por 26 pessoas ficariam acima dos R$ 270 mil. O valor, porém, é bem superior ao praticado por agências de turismo da região, segundo apurou o DEBATE. O caso veio a público na semana passada, após uma reportagem do jornal revelar que os integrantes do balé tiveram que escolher entre viajar à Europa representando Santa Cruz em um festival internacional ou garantir a reforma do barracão onde ensaiam, devido à suposta falta de recursos da secretaria de Cultura. De acordo com alguns bailarinos, a frustração foi ainda maior pelo fato de a prefeitura ter orientado o grupo a não procurar outras formas de patrocínio, indicando que arcaria com todas as despesas.
Vereadores da base do governo e da oposição foram surpreendidos com a notícia e criticaram o posicionamento da administração.
A vaga para participar do “Festival Internacional de Porto”, em Portugal, realizado em abril deste ano, foi conquistada pelo balé de Santa Cruz após a companhia se destacar no “26º Passo de Arte Festival Internacional de Dança”, realizado em julho de 2018, na cidade de Indaiatuba. Os bailarinos, comandados pelo coreógrafo Robson Willian, conquistaram o segundo lugar na categoria “Danças Populares” e o sucesso do grupo foi amplamente divulgado pela própria prefeitura.

Balé de Santa Cruz do Rio Pardo possui um grupo premiado

De acordo com os relatos de alguns bailarinos, que pediram sigilo de seus nomes, no começo deste eles e familiares foram chamados para uma reunião com representantes da secretaria de Cultura. “Disseram que tínhamos que escolher entre a viagem à Portugal para 26 pessoas ou a reforma do galpão onde mais de 200 alunos são atendidos pelo balé”, revelou um dançarino. Mesmo frustrado, o grupo optou pela reforma no prédio.
Procurada, a secretaria de Cultura declarou que não houve recusa, mas apenas uma “ponderação” sobre o custeio da viagem. Segundo a pasta, o valor cotado para a viagem à época ultrapassou os R$ 270 mil e o investimento na reforma do galpão, que está em andamento, foi de R$ 375 mil.
O DEBATE, porém, levantou orçamentos com três empresas de turismo da região e nenhum deles chegou próximo ao valor informado pela prefeitura, que seria de mais de R$ 10 mil por cada um dos 26 membros da delegação. Considerando as passagens, taxas e seguros, hospedagem por quatro dias, despesas de locomoção entre o hotel e o teatro, o maior valor cotado foi de R$ 6 mil por pessoa, o que daria um custo total de R$ 156 mil. O orçamento menor ficou em R$ 88 mil.
Além disso, por se tratar de um grupo fechado, o custo poderia ser ainda mais reduzido, de acordo com os profissionais consultados. Após a divulgação do caso, outro integrante do balé procurou o jornal. Ele também relatou que o grupo foi orientado a não buscar outras formas de patrocínio na época. “A gente ia fazer uma rifa para ajudar nas despesas, mas disseram que não precisava”, afirmou.

SEM ESTÍMULO — Cristiano Miranda criticou decisão do governo

Pegou mal

O vereador Luciano Severo (PRB) lamentou o episódio e atribuiu o ocorrido à falta de interesse político. “Perderam uma oportunidade ímpar para destacar Santa Cruz no cenário internacional. Dinheiro nós sabemos que existe. Mas a gente também sabe que o prefeito faz o que lhe dá na cabeça, o que lhe convém. O que não lhe convém, ele não ajuda, não acontece”, disparou Severo.

Cristiano Neves apresentou moção pela conquista da vaga

Cristiano Neves (PRB), que apresentou uma moção de reconhecimento ao balé de Santa Cruz pela conquista da vaga a Portugal, classificou como “absurda” a condição imposta pela prefeitura aos bailarinos, obrigados a escolher entre a viagem e a reforma. “É um descaso. São coisas completamente diferentes. O mínimo que o governo deveria fazer é, além das melhorias no barracão, dar condições para esse pessoal viajar e fortalecer o balé de Santa Cruz”, afirmou.
Cristiano Miranda (PSB) também se mostrou surpreso com a notícia. O vereador governista disse que acompanha de perto o trabalho do balé e foi um dos que apresentaram diversos pedidos para que a prefeitura realizasse melhorias no barracão de ensaios. “Na época em que eles conquistaram a vaga para ir a Portugal, eu encontrei com o coreografo Robson. Ele estava muito feliz e empolgado. Até me agradeceu pelo empenho em prol do grupo”, afirmou. “Fico feliz pela obra, mas por outro lado estou chateado de não ver o nosso balé no cenário internacional. Seria um marco na vida deles e não há dinheiro no mundo que pague isso”, disse Cristiano.
Na opinião do vereador da base governista, a viagem para o festival internacional também serviria de estímulo para a cultura do município, inspirando outros jovens. “Não é toda hora que surge uma chance dessa. Eles lutaram para conquistar essa vaga. Remaram, remaram, para depois morrer na praia”, disse. Segundo Cristiano, o assunto poderia ter sido discutido, inclusive, com a Câmara, sugerindo até que parte da devolução do duodécimo do legislativo pudesse ter sido empregada nas despesas dos bailarinos. “O secretário de Cultura não levou a situação ao nosso conhecimento. Como parlamentar, eu posso ter errado em não estar atento ao que aconteceu. Fica o aprendizado. Tenho certeza que o balé terá outras conquistas e espero que algo assim não ocorra novamente”, afirmou Cristiano. 

  • Publicado na edição impressa de 14/07/2019
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