Artigo: ‘Rabugice tem cura’

Rabugice tem cura

Nayara Moreno
Da equipe de colaboradores

Todos conhecem a expressão “velho ragubento”. Ela se tornou quase uma definição do estereótipo do idoso (ou idosa): aquela pessoa amargurada, reclamona, pouco aberta a novas amizades, de personalidade difícil, cheia de manias e sempre de cara fechada. Mas por que será que essa é uma das primeiras imagens que temos em nossa cabeça quando pensamos nos idosos?
Vamos começar a responder o enigma. A maneira como estamos acostumados a nos preparar para a velhice e a maneira como a sociedade está acostumada a receber o idoso levam para um mesmo caminho: o isolamento. Ainda é comum pensarmos na aposentadoria e logo nos imaginarmos sentados em uma poltrona, lendo, de preguiça, sem nenhuma obrigação. Nós, brasileiros, até o final da década de 1990, esperávamos exatamente isso do idoso: que ele se recolhesse a um canto e ali esperasse pelo fim da vida.
A aposentadoria ainda é a senha para o idoso assumir uma vida pacata e se recolher em seu cantinho. Mas não é porque a pessoa deixou o mercado de trabalho que ela também vai deixar de viver. O isolamento, a rotina pouco interessante, o cotidiano sem desafios e novidades agem de maneira decisiva no comportamento do idoso, que se torna mais irritadiço e pouco sociável, cheio de hábitos e manias esquisitadas. Isso é o tédio. Quando isso vem acompanhado de um distanciamento familiar, acrescente a essa personalidade angústia, tristeza e mágoa. Pronto, está aí a fórmula do “idoso rabugento”.
Mas, como diz o título desta coluna, rabugice tem cura. E quem descobriu o remédio foi o próprio idoso. E é muito simples: viver. Isso mesmo, o melhor remédio contra o mau humor e a rabugice é viver. O idoso não estava acostumado a viver. Aceitava aquele condicionamento traçado culturalmente pela sociedade. Mas agora, segundo o IBGE (Instituto Brasileira de Geografia e Estatística), os idosos são muitos no Brasil e, em breve, serão maioria. E, já que nada foi preparado para eles, aquelas pessoas acima de 60 anos que não querem ganhar a fama de rabugento se mexeram e invadiram academias, agências de viagem, restaurantes, teatro, etc.
Os idosos, cansados da poltrona, deram um basta a isso e passaram a dividir os “lugares de pessoas mais novas”. A vida precisa continuar. Até ter problemas para resolver faz bem. Idoso com problema se vê desafiado e mantém corpo e mente ativos.
Aos poucos nossa cultura vai mudando e o espaço do idoso na sociedade ativa vai crescendo. Quem sabe não chega o dia de ser mais comum encontrar um idoso na academia do que um velho rabugento na poltrona.

Nayara Moreno
é enfermeira
pós-graduada
e  Responsável
Técnica pela
AleNeto Enfermagem 

 

  • Publicado na edição impressa de 14/07/2019
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Proprietário e Editor do Jornal Debate