Beto Magnani: ‘A lixeira’

HISTÓRIAS DO MAGÚ

A lixeira

Beto Magnani
Da Equipe de Colaboradores

O rapaz chegou animado e carregando muitos álbuns de fotografia. Muitos mesmo. Escondiam o seu rosto. Colocou os álbuns na mesa de concreto da praça.
— Achei uma aliança hoje! Acabei de devolver pro dono! — falou o rapaz à moça que vendia Maçã do Amor na praça, do outro lado da mesa.
—- No lixo!? ­– perguntou espantada a moça.
— Claro! Onde mais eu poderia achar?!
— Quem é o dono?
— O seu Jorge da farmácia. Ele até chorou quando viu a aliança.
— E como você sabia que era dele?
— Eu lembrei. Vi que era a dele. Na hora que eu peguei a aliança lembrei das injeções que eu tomava quando era criança. Senti até a dor. Me lembrei da mão dele na seringa. Tava sempre com a aliança. Lembrei até das iniciais gravadas. Ela é meio diferente.
— Cê é doido! Verdade mesmo?
— Tô falando.
— E o que mais?
— Achei também esses álbuns de fotografias antigas. É de uma família.
— Jogaram fora?
— Jogaram ué! Tem gente que joga fora.
— E o que você vai fazer com isso?
— Devolver.
— Mas se jogaram é porque não querem mais.
— Vou devolver pra bisneta deles, a mais jovem. Sei quem é. Os véios que jogaram não precisam nem saber que foi parar na mão dela. Ela vai saber o que fazer.
— É, pode ser.
— Nos atos do passado jaz oculto um tesouro que os seres podem utilizar para fortalecer e elevar seu próprio caráter. O céu no interior da montanha indica tesouros ocultos.
— Que droga é essa?! Endoidou!
— É de uma carta do Iching. Achei numa lixeira da Avenida. Decorei. Tem a ver.
— Endoidou mesmo! – gargalhou a menina.
O rapaz pegou os álbuns e foi embora; novamente com o rosto escondido. Ela me entregou a Maçã do Amor que pedi antes da chegada do rapaz. Eu não estava exatamente a fim de conversar, mas não resisti:
— Ele é catador de reciclagem?
— É nada! Só se for reciclagem da vida dos outros. Ele acha de tudo no lixo. Ele cata pra dar de presente pra alguém. Alguém que ele ache que vai gostar. Tem cada coisa que jogam fora; é brinquedo, é quadro, é filme, disco, computador…
— Funcionando?
— Funcionando. Deu pro meu filho. Tava no meio do arroz feijão. Ele vê tudo. Acho que é o jeito de olhar, porque eu mesma passo olhando os lixos e não vejo nada.
Rimos. Agradeci e saí olhando todas as lixeiras da praça enquanto comia minha maçã do amor. Também não vi nada além de lixos comuns, orgânicos e recicláveis. Nada que pudesse reciclar a história de alguém, como parece fazer o rapaz das injeções. Talvez se eu tentasse outro olhar, como disse a moça. Joguei o palito da maçã na última lixeira. Fui lavar as mãos.  (Magú)

  • Publicado na edição impressa de 21/07/2019

 

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