A voz de Nayde se calou aos 68 anos

TALENTO — Nadir, que na música virou “Nayde”, só começou a cantar efetivamente após os 60 anos

Artista santa-cruzense começou a cantar após os 60
anos, gravou sete CDs e morreu na semana passada

O violão rosa que Nayde ‘arranhava’

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Nascida Nadir Luiz Augusto, a santa-cruzense se transformava quando o assunto era música. Adotou até o nome artístico de Nayde e sempre teve orgulho de se considerar uma cantora “amadora” que brilhou em programas das rádios 104 e Difusora. Na terça-feira, 23, dois dias depois de concluir a gravação de seu sétimo CD, Nayde morreu vítima de AVC, silenciando uma voz que alegrava festas em toda a região de Santa Cruz do Rio Pardo.
O corpo da cantora só foi sepultado na tarde de quinta-feira, 25, porque, conforme seu pedido, os órgãos foram doados. Os aparelhos foram desligados somente após os procedimentos de doação.
Nayde foi assim, se doando a vida inteira. De família pobre, era muito ligada à mãe, que adoeceu e passou a ser cuidada primeiramente pelas irmãs, já que a caçula precisava trabalhar. No entanto, elas foram morrendo e coube à Nayde dar conforto à mãe nos últimos dias de sua vida.
Foram muitos anos ao lado do leito da mãe. Nesta época, Nayde nunca havia cantado para um público. “Não tinha tempo, pois precisava trabalhar”, lembrou há dois anos, em entrevista ao jornal.
Na verdade, ela cantarolava “brincadeirinhas”, como costumava dizer sobre a música. Certa vez, ganhou um violão rosa e passou a entreter a mãe com canções. Foi quando a filha recebeu elogios pela voz firme e conselhos para se tornar uma cantora de verdade.
Nayde riu, mas continuou “brincando” de cantar para a mãe, até que ela morreu.
Foi neste dia que a tristeza invadiu o coração da santa-cruzense. Deprimida, imaginou que, seguindo o conselho da mãe, poderia afastar a dor. Porém, sua voz começou a encantar as pessoas e ela fez da música seu renascimento. Ainda Nadir, resolveu adotar o nome artístico “Nayde” porque, segundo ela, era assim que a mãe a chamava quando ainda era criança.
Para o sustento, já que dizia que a música em Santa Cruz alimenta somente a alma, Nayde virou uma cuidadora de idosos muito requisitada. Passou a conhecer e ser admirada por famílias da alta sociedade, que a adoravam. Se orgulhava de citar nomes como “amigonas” — Beatriz Quagliato, Julinha Cabeleireira e tantos outras.
Enfim, aquela menina pobre que só passou a cantar após os 60 anos finalmente era reconhecida como artista.

Nayde chegou a gravar sete CDs e impressionava com uma voz firme

Nayde até tentou aprender violão, já que, segundo ela, apenas “arranhava” as cordas. No conservatório “Oswaldo Lacerda” e na escola “Tons e Acordes”, foi aconselhada a cantar, já que este era o seu forte. Numa das aulas, um profissional de um estúdio da região ouviu sua voz melodiosa e convidou Nayde para gravar um CD.
E foram sete coletâneas em uma curta carreira. A artista gravou canções de Rick e Renner, Milionário e José Rico, Zé Mineiro e Marciano e até Fábio Júnior ou Reginaldo Rossi. “Sou bem eclética”, dizia, sempre alegre.
Os CDs foram sendo vendidos aos amigos, principalmente aqueles da “alta sociedade” com quem Nayde se dava tão bem. Alguns chegaram a quase 1.000 cópias e se espalharam pela cidade e região.
Nayde começou a ser convidada para cantar em festas e eventos familiares, além de ver sua voz ecoando em emissoras de rádio de Santa Cruz do Rio Pardo. No entanto, não sonhava com uma carreira artística longe da cidade e nunca procurou uma grande gravadora ou mesmo programas de televisão. Cantava com amigos, como o músico evangélico Fabrício Leite, com quem gravou um clipe emocionante para as redes sociais.
Nayde, na verdade, se divertia cantando e nem se preocupava em manter a voz com treinamentos especiais. “Faço apenas um gargarejo com romã”, contou numa entrevista em 2017, exibindo seu jeito simples e “caseiro”. Na época, ao lembrar o fato de só ter começado a cantar depois dos 60 anos, Nayde dizia que, “enquanto Deus me der gogó, vou continuar” e que a música jamais sairia dela. “Eu saio dela, mas ela não sai de mim”.
Na última terça-feira, 23, Nayde Luiz Augusto saiu da música.

  • Publicado na edição impressa de 28/07/2019
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